Sem paciência

 Ando muito sem paciência,
Sem saco nenhum para nada!
Explodo em gritarias até rouquejar...
"A paciência vem com a experiência"
- o sábio assim fala
Bem, meus cabelos brancos discordam
Embora sintomas físicos nada significam
Cada caso é um caso
E o meu não é acaso:
Ando mui sem saco,
Desejando a paz de um vácuo,
de um vazio e solidão
que não sinto há um tempão.
Estou rodeada por pessoas
que enchem a minha cabeça de problemas,
de coisas
dos mais diversos temas.
Ando explodindo por aí,
com pavio zerado,
não há milagre que me faça sair
desse buraco escavado.
Isolar não é saída,
muito menos a bebida...
As pessoas não entendem do que preciso
e meu grito rouco gera riso...
Ando com a paciência zerada
E nem mãe sou!
Imagina quando for? Esgotada
Aposentada da função estou.
Ao menos quero desde já,
senão me resta chorar
pelo fato de nem minha voz aguentar
ao me ouvir gritar
pois sem paciência alguma eu estou.


Ana Luiza Pereira

Quem quer mandioca?

Havia na cidade do interior um casal muito festeiro, ostentavam a riqueza que não tinham e viviam fazendo dívidas no banco. Seus nomes estavam sempre no vermelho, quando não era empréstimo para carro novo, era para uma "casa melhor". Amor na relação? Talvez um dia tivesse, mas tudo era muito conveniente. Ela era muito controladora e ele muito submisso. A verdadeira dona de casa era ele, cuidava melhor dos filhos que ela que sempre trabalhou fora. Mas, ainda assim, ostentavam a imagem da riqueza e choravam a pobreza ante aos parentes.

Aconteceu que um caixeiro viajante chegou nessa cidade do interior. Com muito boa lábia, atraiu as atenções das mulheres mais velhas da cidade, sendo um amante fugaz de algumas. Era conhecido como "Mandioca", já que ele era feio, mas derretia na boca de qualquer uma. Suas amantes diziam que ele sabia como se fazia uma boa "mandiocada"... 

Um dia, a esposa foi fazer compras no lugar do marido que estava cuidando dos filhos. Olhando o caixeiro na feira, perguntou:

"O que o senhor vende aqui?"

"De tudo, minha senhora. Alimentos e bebidas, brinquedos de todos os tipos, eletrônicos e eletrodomésticos. O que a senhora procura?"

Ela procurou entre as coisas em exposição, mas de repente veio-lhe o desejo:

"Tem mandioca?"

Ele pegou rapidamente aquele alimento marrom grande e grosso, quase fálico, e mostrou à cliente que esperava por ele que remexia nos caixotes de comida.

"Mas que mandiocão!" - disse a esposa espantada.

"Pode ter certeza: não vai só te satisfazer, como vai derreter na sua boca..."

Acabou que a esposa festeira caiu na lábia de Mandioca, traindo o marido submisso que não aguentou: fez do chifre berrante e tocava para si mesmo por onde passava. A cidade inteira já comentava: Mandioca estava sendo sustentado e o marido, humilhado, foi-se embora tocando o berrante pelos caminhos da cidade:

"É culpa da mandioca! Eu não tenho mandiocão..."

Ana Luiza Pereira

Voltando para onde tudo começou

Eu não sou mais a mesma que era quando comecei a andar entre as linhas de cadernos. Muitos anos se passaram, muitos parágrafos se formaram das linhas da minha história, linhas que foram turvadas por lágrimas, rabiscadas com a tinta da caneta ou apagadas com uma borracha ou corretivo. 

Contudo, eu sou uma boa filha pródiga e visito com nostalgia meu ponto de partida. Pego meus primeiros textos e os releio com uma admiração como quem se admira de seu filho mais velho. Eram todos textos infantis, tanto de tema quanto de pensamento. Pensava erroneamente ser o único ser naquela idade que sofria tantas dores nesse mundo, mas descobri que há tantos outros que sofrem tantas dores mais.

Observo, de longe, o local de start de minha escrita: está tão mais irreconhecível quanto eu. Muitas primaveras e verões se passaram, o local foi reformado, enquanto eu tento esconder meus primeiros cabelos brancos. Ali aconteceram tantas coisas, alegrias e tristezas, e foi ali que eu recebi meu primeiro e mais importante conselho: "escreva, escreva para saber denominar seus sentimentos... Escreva". E, assim, não mais parei.

Escondo a lágrima com um sorriso, não é que eu queira retornar ao passado e reviver aquilo tudo novamente, mas guardo todas essas lembranças com um pouco de amor, pois sem elas não seria quem sou. Dizem que isso é sinal de maturidade e experiência, mas não sou o ser mais maturo e nem mais o experiente. Retornar ao ponto de partida me demonstra o quanto eu ainda necessito crescer. A verdade é que visito frequentemente esse ponto para analisar o que seria de mim sem ele e o que será de mim a partir de hoje.

Olhar com esse distanciamento maduro e sem o desejo de "poderia ter sido diferente" me diz que eu finalmente aceitei quem sou, aceito minhas dores e feridas e aceito que eu posso mudar a partir de hoje, sem me prender ao chão que me atraía. Eu não tombo mais; tropeço, mas não caio. E tudo com uma simples visita para onde tudo começou...

Ana Luiza Pereira

In my tear

 I see the blood in my hands
I see the blame in my soul
I see my fist fighting
The war that I never will

I could be the same
I could be cold
But I choice be another one
Changing my mode

The voices of my pride screams
My sadness and my darkness means
My solitude is not the only
(Something inside of me is note the only)
My angry is not the only
(My feelings is not the only)

I could be the same
I could be cold
But I choice be another one
Changing my mode

The light of stars are shining
Someone call
Who is my tourniquet?
God, please, bless me.
Every souls are lonely
Who is my tourniquet?

I could be the same
I could be cold
But I choice be another one
Changing my mode

Someone save me from my own darkness
How could I say thank you?
In my own darkness
Happiness never existed

Ana Luiza Pereira
Feito no dia 12 de junho de 2012.

Meu primeiro emprego

           A verdade é que não faz muito tempo que chorei. Chorei pensando que não haveria um futuro reservado a mim. "Ora, logo você? Sempre tão otimista e pensando isso?" - diriam. Sim. Também sou passível a ter meus momentos ruins e ter pensamentos tolos, sou tão humana quanto qualquer um. Pensei que o que consideram "sucesso" (ter um emprego e ser boa no que faz) não seria para mim. Perguntei até para meu noivo, mas ele não sabia responder, só me consolar e pedir que eu tivesse esperança. Dormi chorando durante a madrugada, desolada o bastante por não possuir as respostas. Dormi após uma longa conversa com o Deus de amor no qual acredito, pedindo-lhe que me desse paciência e juízo para esperar por esse "sucesso".

        Parece que foi providência... No dia seguinte, um conhecido, o qual eu trabalhei junto, me perguntou se poderia me indicar para uma vaga, agradeci-lhe respondendo que sim. Contudo, minha esperança durante a quarentena foi drenada, sentia estar pisando em ovos que se quebrariam se eu parasse. Em menos de dez minutos recebi uma ligação de uma diretora de escola, após, uma mensagem da coordenadora pedagógica desta mesma escola. Tinha uma entrevista! Em dois dias teria que levar meu currículo com um uma aula preparada para a entrevista.

          Foram dois dias incomuns: oscilava entre a excitação e a ansiedade. Minha primeira entrevista depois de séculos de quarentena! Já estava feliz o bastante por estar com uma entrevista, mas não queria de verdade ter minha esperança sugada pelo "não", então "não crie expectativas" - é a primeira regra. Mas já era! Já havia criado expectativas e planejamentos. Estudei com afinco para passar na prova-aula. O tema não era desconhecido: redação para o ensino médio. Agradeci muito por ter feito estágio com isso e ter livros que me ajudam nesse tipo de preparação. Aula preparada, plano de aula também - faltava ministrá-la.

            Como a entrevista seria na escola e a escola fica a uma distância média de 30 km de minha casa e a condução de manhã cedo é lotada, estamos em época de pandemia e isolamento, minha família inteira se mobilizou: meu pai me ofereceu levar e queria aproveitar para passear com a minha mãe e minha sobrinha de chaveirinho. Fomos. Estava nervosa, tremia que nem vara verde, mas engoli o nervosismo na espera. Cheguei uma hora antes do marcado, mas nada muito além e nem aquém. Rezei durante o trajeto inteiro para me acalmar, mas ainda tremia de nervoso: primeira aula em meses, normal ficar nervosa. Chegando, conheci a diretora que me entregou uma prova e uma redação de estilo e tema livres, escrevi sobre as qualidades do bom professor. A prova tinha apenas cinco questões, quatro eram objetivas, eram muito básicas para quem se acostumou a dar questões assim para preparatório de concurso. Mas ainda faltava a aula...

            Devia esperar a coordenadora para dar a aula e saber se eu estaria ou não dentro partindo do tom de sua resposta. Eram quase 10 horas quando ela chegou, nos apresentamos e conversamos. Mostrei-lhe meu currículo e contei onde morava e o que fazia. demorou um pouco antes do início da aula, mas quando comecei, desembestei a falar. Não conseguia perceber que o computador o qual apresentava possuía tecla para "youtube" logo embaixo da seta para o lado direito, apertava-o quase sempre sem querer por não ter o costume. No meio da aula, ela falou: você está dentro. E contou também algumas outras coisas que influirão no meu trabalho ali. Por conta disso, não dei a aula toda, mas mostrei o que ela mais queria saber sobre o tema. "Esta é a sua aula da semana que vem..." - disse a coordenadora a mim. Controlei-me para não gritar e nem pular e apenas respondi um "Ok". 

            Saindo da sala, ela começou a apresentar-me como a futura colega de trabalho de todos que via, conversou com a diretora e se despediu. A diretora conversou comigo sobre questões formais, pegou certos dados e me passou alguns. Saí do colégio com um sorriso enorme por baixo da máscara. Entrei no carro que meus pais me esperavam gritando "CONSEGUI MEU PRIMEIRO EMPREGO" e todos comemoravam. Contei a todos: noivo, irmãos, amigos... Finalmente saí da inércia. Queria chorar, dessa vez, de alegria! Não chorei, poderia manchar a maquiagem e minha blusa... Pedi uma comemoração e fomos almoçar fora. À tarde, dormi o sono dos justos, um sono que eu não tinha há muito tempo. O que eu quis dizer nessa história? É que mesmo quando se perde a esperança, ela não se perde de você.

Ana Luiza Pereira

Sobre a satisfação da escrita


Nada se compara quando temos um grande amigo, não é mesmo? Poder contar com ele nos grandes momentos, sejam eles bons ou maus. Nada se compara em conseguir colocar para fora o que te sufoca, tudo o que sente em lágrimas e palavras... Nada se compara à sensação de compartilhar sua dor.


Por muito tempo tive o papel e a caneta como amigas íntimas nos meus piores dias, e nos meus melhores também. Nem sempre tinha coragem de expor a fraqueza que minhas lágrimas significavam a alguém, até mesmo meus melhores amigos. Chorava baixinho no canto do quarto enquanto desbravava a grandeza da minha miséria.

A tecnologia chegou e troquei o simples papel e caneta pela tela de um computador e um teclado. A sensação continua a mesma. Desbravar a grandeza do ser e da dor ainda é importante para mim. Compartilho, hoje, um pouco e mim em cada texto que publico ou que compartilho, mesmo quando não sou eu que os escrevo. 

Por que estou escrevendo o óbvio? Não sei. Queria compartilhar mais uma vez como é satisfatório para mim sentar e escrever o que me vem à cabeça. E mais satisfatório ainda quando leem, e mais ainda quando se identificam, pois significa que não estou só e que juntos somos mais fortes do que qualquer dor que nos abale.

Ana Luiza Pereira 

Estamos juntos nessa

Muitas vezes eu sonho que tenho uma arma e atiro com ela diversas vezes em pessoas ou sentimentos. Vejo-os morrer sangrando na minha frente enquanto o mundo se torna caos.

A realidade é diferente: eu travo defronte do perigo e dos problemas. Julgo que sou pequena demais e incapaz de resolver tudo sozinha. Odeio tomar a frente, sou péssima líder por não lutar minhas próprias batalhas, mesmo quando quero.

Mas aí encontro você: meu refúgio no caos. Minha mente se acalma do seu lado. Quando você segura minha mão, sei que sou capaz de seguir em frente nas minhas batalhas. As travas que existiam e me incapacitavam não existem mais e dou passos, curtos como os de um bebê, ao encontro da vitória. Não sinto medo, pois sua presença elimina qualquer bicho-papão que vive em minha cabeça. "Estamos juntos nessa..." E estaremos juntos em qualquer outra situação que a vida possa nos levar até que o infinito dos nossos segundos acabe.

Ana Luiza Pereira
Texto feito no dia 25/05/2020 para o Dia dos namorados desse ano.

Saúde

Saúde.
A palavra do momento.
Carregada de tantos adjetivos
que a caracterizam e a especificam:
Mental, física, pública...

Contudo, o que é saúde?
Pergunta que muitos se fazem e poucos respondem.
Os sábios dirão que é riqueza,
uma das poucas que o ser humano possui.
Como podemos desejar um "feliz aniversário" a alguém
sem desejar-lhe "saúde"?

Engraçado...
Se saúde é riqueza, hoje é uma das mais caras.
No tempo dos meus avós,
saúde era medida pela robustez de seu corpo
e pelo rubor de sua pele.
Hoje, como tudo na sociedade capitalista,
saúde é medida pela nossa carteira:
O bom plano de saúde;
A boa academia com sua rotina de exercícios;
A boa nutricionista com sua educação alimentar...

Mas saúde não é isto,
nem aquilo.
A verdadeira definição de saúde
está além do significado de "estar bem",
pois nem a esta pergunta o ser humano consegue responder de verdade.
Você está bem quando não há leitos nos hospitais para seus parentes e amigos?
Você está bem quando alguém morre por negligência?
Você está bem quando os médicos estão saturados de trabalho e não conseguem te dar a atenção devida em seu atendimento?
...
Você está bem?
Se você consegue responder sim, então você não está bem.
Você ignora seus sentimentos e a saúde das pessoas ao seu redor
- Isto não é saudável.

Saudável.
Saudável é ter saúde acessível a todos,
ter leitos e bons profissionais,
é saber quando o errado nos atinge e se revoltar, lutando pelo o que é justo junto.
Saúde é um bem
que não devia ser comprado
mas compartilhado
pela e na sociedade.

Ana Luiza Pereira

O silêncio preto

O silêncio preto mata mais preto que a palavra de luta
O silêncio do preto é conivente, complacente e condescendente
O silêncio do preto é o racismo que se impregnou, se amontoou e o matou
O silêncio preto é mortal
Clama pelo sangue negro justificado em argumentações rasas e preconceitos vívidos
O silêncio do preto mata pouco a pouco ele mesmo e o irmão, passar o pano não é para o preto
O silêncio do preto ajuda na manutenção do governo 
O racismo não seria tão estrutural se o silêncio do preto não fosse fundamental
O silêncio do preto é o luto constante...
Luto, luta
O silêncio do preto deve ser acabado
O preto deve ser aclamado e deve lutar pelo seu lugar
O preto não pode desistir, seu silêncio dizima, mas sua voz acorda
As pequenas injustiças quando silenciadas não servem de nada
Mas se o preto continua a se revoltar com elas, elas serão o estopim para mudança.
O silêncio do preto não serve para você, irmão...
Mas a voz do preto serve para que continuemos na luta.
Poder ao povo!

Ana Luiza Pereira

Reflexão: Deus não desiste.

Quando eu desisti da minha vida, Deus não desistiu de mim. Em tempos de crise, sejam internas ou externas, pensar no sentido da vida a partir da dor e do pesar que sentimos é normal.
Li numa carta apostólica: “não é que a vida tenha uma missão, mas a vida é uma missão” (Xavier Zubiri). Combater um bom combate (cf. 2Tm 4, 7) não é somente na perseguição, mas também quando não se tem mais esperança, quando estamos envoltos em trevas e dor.
Deus nos dá uma vida, uma missão a partir do seu nome Santo e quando desistimos de nossa vida, Deus não desiste de nós. Pense: quantas crises passamos em nossa vida? Por mais que nos afastemos de Sua Presença Onipotente e Onipresente, Ele se mantém do nosso lado.
Quantas vezes eu desisti? E Deus me deu chances tão incontáveis quanto as estrelas do céu, para estar do Seu lado, andar o caminho que Ele preparou e sentir o Seu Nome em minha anima (alma, em latim). 
Este tempo de pandemia, difícil por estarmos isolados e teoricamente sós, mas até nesta dificuldade Deus nos dá a oportunidade para estarmos diante d’Ele, de contemplar o seu carinho por nós e de sermos uma Igreja unida em oração, pois há uma diversidade de membros, mas um só é o corpo (cf. 1Cor 12, 12-14).

Sede vigilantes, é isto que Jesus nos pede quando tudo está em trevas: orai e vigiai para não cairdes em tentação (cf. Mt 26, 41; Mc 14, 38; Lc 22,40). E, para aqueles que estão perdendo as esperanças, Deus é contigo - lembre-se disto! Estarei em oração por vocês. Por favor, rezem também por mim.

Ana Luiza Pereira

Papos da mente

Uma vez doido
Sempre louco
Não há remédios
Ou pessoas que possam te "curar"
A "cura" é psicológica
Uma vez que a mente adoece
Só a própria mente pode se curar
Com alegrias ou risos
Tristeza e frustrações são doenças
Machucados, eu diria

Uma mente forte as curaria sem represálias
Uma mente fraca definharia até espremer até a última gota do seu suor angustiante
O que eu quis dizer com isso?
Que minha mente é forte o bastante para superar tudo
Mas está irreversivelmente fraca e quer me angustiar e definhar aos poucos

A boa notícia?
É que não desistirei enquanto tiver pessoas precisando de mim
A má notícia?
É que não há o que se fazer com coisas irreversíveis
Minha mente continuará a se definhar
É esse o preço que pago por ser assim e por querer e exigir demais das pessoas à minha volta
Este é o MEU PREÇO, MEU KARMA

Nossas mentes são poderosas demais
Em tudo que acreditares será sempre verdade, 
Enquanto o que não acreditares desaparecerá 
Como o tempo que se esgota na ampulheta do destino

Você é jovem, sua mente é forte
E, apesar de não confiar em si 
(o que é o seu maior erro: confiar mais nos outros que em você),
eu SEI que é CAPAZ
E é por você não ter autoconfiança que eu lhe digo:
Você nunca chegará a lugar algum assim
E há muitas pessoas que confia-lhe a vida, como EU
Por isso, PENSE e com CUIDADO

Ana Luiza Pereira
Poema escrito nos anos 2007/2008.

Merdinha

Já me sinto mal por existir. 
É como diz a canção "Eu nunca fiz questão de estar aqui". 
Sinto-me extremamente mal por envelhecer e ver a vida se passar diante dos meus olhos. 
Sinto que parei, sentei e apenas observei: 
meus amigos venceram, viveram, sentiram 
e eu ainda aqui, como se estivesse esperando o príncipe num cavalo mágico me resgatar. 
Príncipes não existem. 
Eu tenho que ser meu próprio príncipe se quiser viver também, 
mas antes, preciso me resolver. 
Resolver o quê? Você não tem problemas. 
É uma merdinha que vive debaixo do meu teto. 
Ah... Se você soubesse das dores que carrego... 
Já me sinto assim sem que você o afirme. 
A autoridade que o diz, a pessoa que  proclama tais palavras dilaceram meu coração. 
Era só uma chamada de atenção como você faz comigo. 
Mas quem sou eu para fazer? Sou uma merdinha, certo? 
Quero sumir. 
Ir descarga abaixo como a merda que diz que sou. 
A vida seria tão mais fácil sem mim: 
sem mais preocupações ou fedores a sentir. 
É uma fuga? 
Talvez seja, mas talvez eu queira apenas cumprir meu papel: 
deixar a merda feder sem ter que falar para você que te avisei.

Ana Luiza Pereira

Os ramos da traição

Hoje é domingo, um dia de festa na Igreja. Dia que damos Hosana aos mais alto dos céus, dia de recebermos Cristo, nosso Senhor, como Rei do povo com ramos de oliveira em mãos e cantos na boca. Jesus retorna com seus ensinamentos de humildade e amor após jejuar e passar por provações por quarenta dia num deserto. Quando criança, achava estranho pensar que semana que vem, o mesmo povo que o recebe com ramos na mão, o trai, vira as costas e não o reconhece como seu Rei e Mestre. Qual foi o maior erro de Jesus? Ele  não erra, mas confia em seu povo, como um Pai confia em seu filho, e seu povo o exigia crucificado. 

Hoje, vejo nessa passagem um vislumbre da natureza humana. É muito fácil receber uma pessoa em festa, dizer que a ama, mas testemunhar contra a mesma quando ela mais precisar. Somos o povo de Deus e hoje carregamos os ramos da nossa própria traição. Talvez, se Ele retornasse hoje, ainda seríamos mesquinhos e sucederia os mesmos acontecimentos. Na verdade, já fazemos. Quantas vezes nos alegramos no Senhor por passar por um momento difícil? Sabemos que Ele estava conosco, mesmo que falemos pouco “Obrigado” e mais “Por favor”. Contudo, quando Deus nos põe à prova de fogo a nossa própria fé, recuamos. Quantos testemunhos de fé renovada nós demos? Respondo esta questão: quase zero. É difícil renovar nossa fé quando o fácil é dar as costas para Deus quando Ele precisa de nós, é difícil dizer-se “de Cristo” se nos sentimos coagidos e com medo, então negamos quantas vezes for como Pedro fez ao negá-lo por três vezes. 

Contudo, não há problema em ir e voltar para os braços do Pai. Deus nos acolhe e nos deseja com todas as suas forças. Ele nos perdoa em toda sua misericórdia e nos ama em todo o seu coração, apesar de toda e qualquer traição que possamos fazer contra Ele. Ele deseja que sigamos os Seu caminho, caminho que Ele preparou para nós, mas é um caminho cheio de pedras e espinhos, cair é normal e querer se desviar também, mas Ele ainda nos ama e nos quer por perto. Se Ele é o nosso Pai e a Bíblia nos diz para que guardemos e sigamos os mandamentos de Deus, todos os dez dizem respeito a Ele e seu amor por nós, mas sobretudo estes: “Amar a Deus sobre todas as coisas” e “Honra Pai e Mãe”. Ele quer que nós O honremos e O obedeçamos. Respeito e diálogo são os pilares principais para uma boa relação com Deus-Pai. 

Entretanto, eu proponho nesse texto e neste dia de Ramos uma reflexão: quantas vezes mais carregaremos os ramos de nossas traições? Quantas vezes mais o daremos as costas, não ouviremos seus conselhos e seguiremos com as regras do mundo e não de Deus? Sejamos filhos, sejamos servos e sejamos testemunhas de um Deus vivo e de uma fé renovada. 

Ana Luiza Pereira

R.I.P.

- Me leva para o "patinho"? - perguntei com voz infantil, errando propositalmente a palavra "parquinho", como eu costumava a fazer na primeira infância.

Ele suspira, deixa sua Bíblia cheia de anotações de volta na cabeceira e diz solenemente: "Vamos!". Apostamos corrida, mesmo que ele nunca corresse, apenas andasse. Fazia isso para que eu sempre ganhasse e me ver sorrir. Como de costume, fui direto ao balanço e ele fez a mesma piada ao dizer que iria me balançar tão alto que eu conseguiria pôr a mão no topo da árvore mais próxima. Eu sorria e sempre pedia que ele me empurrasse para ir mais alto e conseguir pôr a mão. Ainda espero conseguir fazer isso, como um sopro de esperança infantil que ainda habita dentro de mim.

Às quatro estávamos de volta, era hora do meu leite que minha avó preparava e repassava pelo muro. Ainda era na mamadeira, mas ninguém sabia além da gente.  Ele contava uma história: as minhas preferidas eram da Branca de Neve ou João e Maria com vozes de cada personagem e risadas de Bruxa. Ele vivia misturando as histórias: um dos três porquinhos que salvou a Branca de Neve de ser engolida pelo lobo mau. Sempre ria com isso. Dizia que não era assim a história e corrigia, contando a certa. "Ah! Que história mais sem graça..." - retrucava. Tinha tardes que dormia ao pé da sua cama e tardes que ele pedia para esquentar seu dedo frio no meu sovaco. 

Contudo, as manhãs eram as mesmas: sentava-se na varanda com sua Bíblia e cantava salmos. Quando eu estava em casa por algum motivo, trepava na janela para ver por cima do muro. Seu silêncio e sua oração me tocavam, mesmo sabendo o que eram, não entendia como ou o porquê de me sentir tão hipnotizada em ver um homem repetir o mesmo ritual matutino.

Cresci. Chorei, e vezes ele secou minhas lágrimas e afagou minha cabeça. Era sempre o homem da porta ao lado com quem eu podia contar. Conversávamos sempre sobre tudo: novelas, filmes, história, sentimentos, plantas... E Deus. Tínhamos visões um pouco diferentes, admito, mas sempre respeitamos um ao outro sem se exaltar. 

Acordo em meio às lembranças hoje, coração apertado e lágrimas nos olhos do homem que muito me ensinou e nada pediu além de um sorriso e uma oração. A saudade de tais lembranças simples, puras e singelas vêm em ondas inexoráveis. Sinto falta de sua resiliência e de sua alegria. Sinto falta do homem que parecia uma rocha à todos, até para mim que fui uma mera vizinha. Faz tempo que ele se foi, meu amado intercessor, e em meio às lágrimas de saudade ainda desejo que descanse em paz.

Ana Luiza Pereira
Uma homenagem feita pelos 5 anos de falecimento de Augusto Faria, meu vizinho, meu "Tio Augusto".

Ode à Erato

"χαλεπὰ τὰ καλά" [Nada bonito sem luta.] (Platão)

Um ode à Erato, musa diretriz da vida e do amor,
descendente da Mnimosis e dona dos lavores 
                                                                                                                mais belos rapsodiais.
Não ouço mais os aedos da filha do Crônida.
Erato calou-se dos seus lavores belos
aos ouvidos dos grandes e célebres rapsodos
"Donde vem seus cantos belos que o silêncio
se ouve agora na sua boca fechada?"
Há mais tristeza nesses tempos
em que Erato aprisionada em
apaixonadas redes dos pretendentes 
                                                                                             da filha do Crônida.

Bravo guerreiro, este, que desafiara
os mais nobres deuses ao aprisionar
o aedo da filha da Memória para si.
Feras e pestes, a raiva dos deuses sobre
o corajoso Aqueu pairá sem falta.
Alvedrio, ouça, querido aqueu,
para que os seus músculos descanse
                                                                                                           no leito da deusa Afrodite;
sede ardil entre os homens e os deuses,
conquiste a confiança do Senhor do Olimpo,
se quiseres desposar a Musa, filha de
Mnimosine e Zeus, Senhor do Olimpo e 
                                                                                                    descendente de Titã.

Porém, não permitas nunca que o aedo se cale
na boca do poeta que da Musa espera o canto.
Com Erato o aedo é mais belo e áureo
como o mais puro amor da Pandemônia.
Vá, bravo aqueu, aprisione eros em suas
corajosas mãos e inspira a filha da Memória
a cantar mais belos sussurros aos rapsodos
                                                                                                        do mundo sem falta.

Ana Luiza Pereira
Escrito por volta dos anos 2014.

Pesadelo

A noite estava escura, um verdadeiro breu. No céu não tinha estrelas e nem a lua para alumiar, apenas as luzes dos postes clareavam o meu caminho. 

Já estava na minha rua. Minha casa estava logo ali à frente. Comecei a brincar comigo mesma enquanto andava reto, mochila à frente, sandália nos pés, relógio no pulso.

Na outra esquina saiu alguém, um homem vestindo casaco largo com uma listra verde claro grossa no meio de duas brancas, calça jeans claro, tênis escuro, cabelo castanho bagunçado e bigode no rosto. Nunca tinha visto aquele homem sem equilíbrio ao andar, mas ele me cheirava a perigo.

Tentei apertar meu passo, já estava no meio da rua para chegar em casa, mas acho que não saí do lugar. Via aquele homem vir em minha direção e o meu desespero aumentava. Ouvi um carro atrás de mim e fiz sinal para parar.

Graças a Deus, o golf prata parou. Era Zane, uma conhecida minha que dirigia, e dizia: "Entra rápido!". A porta detrás do banco do motorista, estava aberta e me joguei ali fechando logo a porta. Tinham mais duas ali, todas mulheres e todas conhecidas. Ela acelerou e ele também, mas ao perceber que me perderia ele puxou uma arma da calça e começou a atirar.

"Obrigada!" - dizia antes de acordar e ver rostos de anjos nas sombras. Será que morri? Olho para o lado e meus irmãos estavam ali dividindo o colchão comigo, respirando e vivos. Respiro aliviada. Ainda não morri, apenas sofri o susto da morte de alguém. E volto a dormir.

Ana Luiza Pereira

Vulcão

Sou um vulcão
Adormecido pelas friezas do dia-a-dia
Mas em constante perigo de erupção
de lava que lava a ferida

Sou constante raiva
Constante perda
Constante queda
Constante dádiva

Adormecer é meu mecanismo de não machucar
não sofrer
não ferir
não gerir
não perder
não chorar

A lava corrói dentro de mim querendo sair em forma de palavras
em forma de raiva
em forma de lágrimas
de forma incisiva

Mantenho-me quieta
parada
fechada
concreta

Por dentro há torpor
há ódio
há o decompor
de um choro melódico

Tudo isso é lava
vívida e remexida dentro do vulcão
Vulcão que sou eu
E o que sinto no meu coração

Ana Luiza Pereira

Conto dos irmãos

Era uma vez, três filhos de um mesmo pai e uma mesma mãe, cujas características de cada eram bem particulares:

A primogênita era uma amazona, guerreira cunhada no fogo e brasa no código das amazonas que perdeu sua cabeça e coração para um humano qualquer que a fez sofrer.

O segundo, o líder, cuja liderança jamais exerceu. Escondia-se na decisão de outrém e hoje tem dificuldades de liderar seus filhos.

A terceira, a sábia. Pouco se sabe sobre ela, mas dizem que aprendeu com seus irmãos o que deve ou não fazer. Contam as lendas que sua sabedoria é acompanhada de uma língua afiada e sincera, capaz de fazer chorar quem não souber ouvir a verdade.

Mesmo sendo irmãos, cada um tinha sua própria história, seu próprio caminho seguido:

A amazona, maior guerreira que esta cidade já viu, não soube vencer suas próprias batalhas interiores e particulares. Apaixonou-se por um homem comum e a sua inflência o transformou em um grande cavaleiro em batalhas. Contudo, um homem não é um cavaleiro enquanto não seguir o código de cavalaria, tornando-se apenas um arsenal humano. Por não seguir nenhuma vez o código, o coração da amazona se despedaçou.

O líder sempre teve seus instintos. Suas ações falavam mais que as palavras de incentivo que pronunciava. Contudo, tudo desmoronou quando pregava aquilo que não praticava; a verdade veio à tona e tudo o que restou ao líder foi a decisão de fazer a coisa certa. Desde então, uma parte de quem ele foi ainda vive e briga, de vez em quando, com a parte que se esconde na liderança de outrém.

A sábia, por sua vez, é eremita. Sabe da dor que pode causar e guarda muito para si. Reclusa em seu mundo, ela chora pela dor de guardar aquilo que a faz mal, mas se sentiria pior em ver que fez outros sofrerem pela verdade até então não dita. Não sabe controlar o tom de sua voz e nem a agressividade da sua língua, por isso, é sempre mal-interpretada. Prefere sempre a reclusão e a dor que a própria verdade dita e escancarada, mesmo sabendo das consequências que teria para si.

(Esta história ainda não tem um final claro, então a partir daqui serão suposições de uma autora em delírio de escrita:)

Mesmo com todas as diferenças e com todos os tabus, os irmãos ainda continuam unidos e continuarão mesmo com todas as falhas. Brigas? Sempre. Quais irmãos não brigam ao discordar com o outro? Mas o amor prevalece apesar da dor de cada um. As histórias podem ser diferentes, mas culminam no final do "e foram felizes para sempre", juntos, como irmãos.

Ana Luiza Pereira
Texto escrito em algum momento do ano passado.

Apagão

Um dia ensolarado do final do mês de maio. Um dia qualquer até que, de repente, uma sombra cobriu os céus e o que era calor se tornou frio.

Pessoas que estavam na rua, entraram em casa para trocar suas regatas e pegar seus casacos. Não entendiam como o tempo havia mudado, apenas o fizeram para passar mais um tempo na rua.

Obviamente, havia aquelas pessoa que, ao virar o tempo, pegaram os seus edredons e ficaram na sala de suas casas para ver filme. Cada um por si e tudo na mais santa paz.

De repente, um estrondo se ouviu não se sabe de onde e tudo se apagou. Sem luz, as pessoas que estavam em seus casulos de edredom tiveram que sair forçadamente em busca de luz. Enquanto isso, as pessoas nas ruas se aglomeraram com medo do frio e da escuridão. Em pouco tempo, se estabelece a comunicação.

A comunicação interpessoal há muito tempo esquecida e substituída por tecnologia. Engraçado como foi necessário ter medo do frio e do escuro para que houvesse comunicação. O medo é, de fato, o maior motivador de todos tanto para que façamos algo quanto para nos refugiarmos em crisálidas humanas. E, então, quem você seria nesse apagão?

Ana Luiza Pereira
Texto escrito em algum momento do ano passado.

...

Dumbledore me ensinou a nunca ter pena dos mortos, mas dos vivos.
Mas, o que acontece quando você não deixa os mortos irem?
Ou quando você vive num paradoxo?
"Você não tem motivos para estar assim."
É, eu não tenho.
Mas não sou um ser racional para ter motivos plausíveis.
Vivo num paradoxo constante 
de querer me livrar do meu drama 
quando isso machuca ou preocupa demais alguém
e, ao mesmo tempo, não conseguir.
Porque é meu,
Porque sou eu:
A pessoa mais impulsiva e ignorante que conheço.
A rastejante que quer atenção, mas se fecha quando tem atenção demais.
O que eu quero?
Quero me resolver e parar de chorar.
Sentir menos de mim.
Quero agir e não só por impulso.
Mas esses são desejos de quem?
Sigo ferida e machucada sem saber o que ou quem me feriu.
Não quero falar disso, mas quero que passe logo,
porque eu ainda desejo ser feliz.

Ana Luiza Pereira
Texto escrito em algum momento do ano passado.

O colapso do meu corpo

Meu corpo tem desejo
Desejo de por para fora tudo que minha mente guarda
Minha mente tão consciente guarda no meu coração toda a raiva e dor que meu corpo expele
Meu corpo grita
Meu corpo chora
Meu corpo tão instintivamente primitivo adoece e se cura num ciclo vicioso
Apenas para passar raiva novamente
Minha mente guarda, mas meu corpo fala
Não consigo guardar segredos assim
Meu corpo deseja se sentir bem, calmo e em paz, enquanto a mente guerreia com ela mesma
São duas entidades que almejam coisas diferentes
Equilíbrio não há
É tão tênue a linha que não consigo distinguir
Qual darei ouvidos?
Estou em colapso
Sou um colapso que vive e me arruína
Sou a tenicidade, a linha da loucura
Posso simplesmente gritar com você porque me olhou de forma errada, quem sabe?
Só sei que sou capaz, mas...
Sinceramente?
Nem eu mesma sei o que vou decidir agora
Talvez apenas sentir o colapso do meu corpo

Ana Luiza Pereira
Texto escrito em algum momento do ano passado.

Consciência

A consciência não tem me "estragado".
Vendo hoje coisas sobre mim e o que sinto, percebi:
Escreve aquele que tem desejo de conexão.

O tempo me fez perceber que eu nunca estive só,
Estou rodeada de conexões como um átomo tem prótons, nêutrons e elétrons.
Então, por que sinto?

Sentir demais afeta as conexões.
Acha que eu não sei que tenho uma mãe que reza o terço baixinho pensando na razão que me fez chorar baixinho enquanto dormia?
Um namorado que deseja muito saber e entender o que sinto sento que não há motivos para isso?

O tempo me envelhece e me dá a consciência que preciso de ajuda.
Sou jovem demais para desistir da felicidade que me foi reservada.
Tenho consciência para ir lutar.

Consciência que não tinha,
Que negava e que se culpava por não lutar.
Essa é quem fui.

Outro ensinamento que o tempo me deu: o sucesso não define quem você é, apenas o fracasso.
Você segue em frente depois de um sucesso, porque ele não tem nada a oferecer além da glória.
O fracasso é a sua queda, é o ensinamento que te molda para a glória e, então, você seguirá em frente.

Estou curtindo meu fracasso agora.
Procuro nele o ensinamento que ele tem para me oferecer.
E, um dia, saborearei novamente a glória de um sucesso.

Ana Luiza Pereira
Texto escrito em algum momento do ano passado.

Última peça

Existe um pequeno curta de animação da produtora Mad House chamado "Death Billiards"que culminou em um anime de 12 episódios chamado "Death Parade". Tanto o curta quanto o anime são lindos, explêndidos, caracterizados pelo suspense psicológico. 

Logo que eu vi, ele me marcou; a música de abertura dançante e a catárse de sentimentos da música de encerramento. Lembro da frustração de sempre esperar uma semana para o próximo episódio e de rever e chorar sempre nas mesmas cenas.

Ambos são baseados em lendas sobre "o que acontece quando a gente morre?". Segundo essa versão, você para em um lugar parecido com um bar, onde o barman que te serve é um juiz e precisa escolher, secretamente, baseado na sua essência se sua alma é digna de reencarnar ou cair no vazio. Carregado extremos emocionais de personagens mortos julgados por um juiz aparentemente sem emoções; digo que é essencial a todo o psicólogo ver ambos, pois nada mais é do que análise de personagens no seu pior momento. Afinal, é na morte que descobrimos nossa essência? Quem, de fato, somos? Há teorias que dizem que sim.

Eu sei o que acontece durante a morte e sempre há duas versões: ou você aceita a vida que teve, mesmo com todas as mazelas e todas as alegrias ou você se apega à vida. Não há outra escolha. Os que desejam viver com afinco, ficam aqui até mesmo depois da própria morte e os que aceitam viram lembranças lindas. 

Contanto, por que não aceitar a morte? Ela é a última peça de nossas vidas, o último ato, pois a cortina se fechou para você. O que você vai levar da vida? O fim sempre é dramático, pois é um fim. Mas, será que a sua história merece um recomeço? Toda a vez que vejo de novo e de novo esse anime me pego perguntando isso. Perguntas filosóficas retóricas para tentar responder se eu mesma seria digna de pena. 

Entre tantos eus, não sei qual assumiria na hora de minha morte. Talvez, ninguém veja meu pior lado, apenas eu pense que o vi e o conheço. Talvez, eu não seja digna de pena por ser tão triste e contaminada que as pessoas estão cansadas de darem chance para alguém como eu. Talvez... Eu desperdicei minhas chances? Ainda consigo mudar? Será que sou mesmo a melhor versão de mim? Não... Mas tento. Será que vale tentar? Que isso vai me dar algum crédito no final, alguma felicidade ou esperança? Não sei. Talvez eu só descubra quando for a minha vez de observar a última peça.

Ana Luiza Pereira

Caligrafia

Mexi em coisas antigas hoje: documentos, livros, papéis... Coisas frágeis, delicadas, desgastadas com o tempo.

Na antiguidade dessa fragilidade, observo sua caligrafia: cada volta, cada subida e descida de consoantes dentais, velares e palatais, a letra levemente inclinada como se preguiçosa. Um perfeito desenho sobre um papel que fora branco e pautado.

Ali, no lugar de uma melodia de uma música de ninar, estava um poema, um desenho e seu nome. Em outra folha, desenhara as notas em melodia. Pergunto-me se um dia ensinara essa canção a alguém.

Minha atenção se volta novamente para as letras preguiçosas, as invejo. Trabalho perfeito sem o mínimo de esforço. Enquanto eu, me esforcei para ter letra igualmente perfeita e falhei.

Suas curvas me remontam a saudades cada vez mais distantes. Queria te ver, mas só consigo ouvir a melodia de ninar e os conselhos escritos em sua perfeita caligrafia.

Ana Luiza Pereira

O peso do mundo

Acordei hoje com o peso do mundo sobre meu corpo. Olho ao redor para ver onde está: cadê o sentimento que me prende à cama? Cadê o amor que motiva a levantar?

Não vejo. Não sei onde está, mas sinto estar ali, onde sinto e não vejo. Talvez se tivesse outros olhos ou quem sabe outro coração...

Faço um esforço quase inumano para levantar, caso contrário, fico aqui o dia todo dormindo. Quero sonhar com coisas boas e não ficar presa com o sentimento do mundo pesando sobre meu corpo.

Respiro e encontro forças para mais um dia, mais uma vez. Um passo de cada vez e assim tilho o meu caminho.

Ana Luiza Pereira

Carta à criatura indecisa

Cara criatura,


    Estás parada no meio do caminho há tanto tempo que creio que já tornaste pedra com limo. “Sim” ou “não”, “certo” e “errado”, “esquerda” ou “direita” - são todas escolhas que não fazes. Ficas à beira da estrada para seguir o fluxo de uma vida que não é a tua.
    Escolhas são difíceis e a pior parte é a consequência - disso tu tens muito medo. Contudo, toda escolha feita com convicção é mais suportável de lidar com as consequências.
Estou cansado de te ver parado no meio do caminho de tua vida. A escolha deve ser feita ou a farão por ti.
Mesmo que queiras parar e analisar, pensar delicadamente em cada detalhe e circunstância, o tempo passa. A escolha é urgente e até se abdicar é uma escolha.
Faça.
Aja.
Movimente-se.

Tire o limo e não sejas mais pedra no meio do caminho, pois alguém vai passar e poderá tropeçar em ti.

Ana Luiza Pereira

A paz

Queria que a paz do ambiente contaminasse meu interior, mas a paz não é contagiosa e não pode me contaminar. Respiro a paz e desejo que ela me respirasse também.

Observo a paz como se observasse uma grande pintura. Picasso, Monet, Manet, Dalí, Rembrandt, Van Gogh... A paz possui vários retratos e nenhum deles é o meu.

O bom de estar em momentos assim é poder acreditar novamente que a paz existe. Está logo ali, alcançável, mas trabalhosa. Penosa, mas não doentia. A paz não é uma doença que existe, mas a parte mais saudável que apenas vive, e sobrevive às inúmeras batalhas. 

A parte ruim da paz é o silêncio, quase que absoluto, que se instaura no lugar. Silêncio bom para uma cabeça inquieta começar a gritar e não mais parar. Nem fazer barulho silencia a voz que há em minha cabeça.

Por fora, o silêncio aterrador. Por dentro, o barulho ensurdecedor. E, mesmo no paradoxo dessa paz, eu mergulho fundo nos meus pensamentos mais sombrios.

Logo, não sei mais onde estou só sei que estou: viva, respirando, existindo, e que lá fora, em algum lugar, há paz e eu posso encontrar, um dia, de novo dentro de mim.

Ana Luiza Pereira

Briga com o espelho

Há dias que eu brigo com o espelho. Evito olhá-lo, porque sei que vai me julgar. O reflexo quer ser perfeito, anseia por isso, mas eu não sou. Portanto, temos sempre razões para brigar: não passei rímel o suficiente, o delineador borrou, o batom está fora do contorno... futilidades. Tem certeza que vai assim? Você está horrorosa! Quem vai querer te cumprimentar desse jeito? Sua acidez me incomoda.

Você já se olhou no espelho enquanto chorava? A sensação do espelho te responder com xingamentos ao invés de consolo. A raiva em olhar um reflexo tão feio, carnal e humano. Por isso, há dias que quero despedaçar o espelho, atingir o reflexo com um soco, machucar o "Senhor Perfeito" como suas palavras me machucam.

Tem vezes que não ligo, saio mesmo assim, do jeito que estou. Não sou perfeita, por que meu reflexo tem que ser? Nem o mundo do contrário, esse mundo através do espelho de Alice, ele não é perfeito.

Contudo, há raros dias que fazemos as pazes. Sua acidez e busca incansável pela inalcançável perfeição continua, mas eu preciso dele. Preciso do espelho para me sentir minimamente bela de novo, desejável, enquanto busco fazer as pazes comigo mesma.

Ana Luiza Pereira

Tempo

Existem as batalhas,
os dias de luta.
Todos esses dias são infindáveis,
o tempo não passa e o dia seguinte é igual ao ontem.

As feridas não se cicatrizam.
Não há tempo para isso,
nem aquilo.
Simplesmente não há tempo, só luta.

Existem os dias de paz.
Raros como ver um dodô nos dias de hoje.
O tempo prega peças nesses dias:
uma hora se passa em um minuto
e até o piscar dos nossos olhos parece perda de tempo.
Tempo precioso
que nunca parece ser bem gasto.

Contudo, sinceramente, existem apenas dias.
A noção do tempo e o rótulo de "guerra" e "paz" somos nós que damos.
Nossa percepção muda de um dia para o outro
e nunca é igual, mesmo quando separamos em caixinhas.

São apenas dias, é apenas tempo.
A guerra e a paz estão em minha cabeça
e eu as projeto em algo, como nessas horas eternas.
Se eu não as projetasse, como seria o tempo?
Bem, creio eu que o mesmo.
Apenas minha percepção de observá-lo e vivenciá-lo mudaria novamente.

Ana Luiza Pereira

Ouça o que eu digo

Ouça o que eu digo:
Este século vive um grande mal.
Qual mal?
Um mal à espreita.
Os maiores males de um século vivem dentro daqueles que constroem a história do mesmo.
O mal não tem forma, face, lugar, cor, religião...
O mal só existe, 
resiste, 
insiste...

Ouça o que eu digo:
O bem é mais difícil de se encontrar.
Para que exista o bem,
necessita-se de sua face reversa,
contrária,
contraditória.
O bem não tem moradia, pois é andarilho.
Ora, se o mal mora em nós, o que o bem é além de revolução?

Ouça o que eu digo:
Estender a mão é mais difícil que apontar o dedo.
Qualquer ato de bondade é revolucionário,
pois o mundo vive um grande mal.

Ouça o que eu digo:
O maior mal do mundo não é a tecnologia,
mas quem a usa.
Não é a religião,
mas quem a prega.
Não é o poder ou o dinheiro,
mas quem usurpa.

O maior mal do mundo é o ser humano,
ser nojento,
repulsivo,
doentio e doente.
Ser que se julga consciente, mas não usa a consciência,
não ajuda o mundo, o outro e nem a si próprio.

O mundo corre perigo com esse "mal do século"
e não há muito o que se fazer, 
pois a doença se espalhou rápido demais.
Ouça o que eu digo.

Ana Luiza Pereira

Boas-vindas, novamente, velha amiga!

Boas-vindas novamente, velha amiga!

Quanto tempo faz? Ultimamente você só tem passado por mim e ido embora. Deixa seu rastro de raiva, (auto)destruição e solidão profunda em sua passagem e eu sinto, como um cordeiro manso recebendo pauladas do abate.

Fazia tempos que você não me puxa pelo pé, afundando-me na areia movediça dos meus piores sentimentos. Fazia tempo que não escrevia sobre isso com caneta, papel, suor e lágrimas. Recordo-me dos tempos áureos, em outrora, quando essa prática me era recorrente. Escrever me fazia bem e eu sinto falta dessa paz... Pena que ela só é acompanhada da sua tormenta.

Sei que não está feliz com o meu silêncio, esse gelo que dou era para demonstrar o quanto fiquei forte mesmo com você me abalando profundamente. A raiva? Eu sinto. Esmurro paredes e chão até passar. A dor? É real. A angústia? É vívida. Retira-me dos mais doces sonhos, tira meu sono, minha fome, a vontade de viver e a capacidade de respirar.

Estou pedindo mais ajuda dessa vez. Você é grande demais para continuar combatendo sozinha. Contudo, você vive à espreita dos meus piores momentos para me arrebatar de volta à sua tormenta.

Posso te tratar como velha amiga, pois já conheço seus truques e artimanhas. Não existe um pó de pirimpimpim que possa me salvar de ti, mas existe a ação e a escolha. A escolha de dizer "NÃO". Dói escolher ir contra sua corrente, ainda mais porque é uma escolha diária e estou cansada dela. Porém, ninguém pode escolher por mim.

Sou fraca e vou me dar a chance de fraquejas, chorar, berrar e surtar sem problemas ou julgamentos, mas a luta continua no dia seguinte e vai continuar até o fim dessa vida. Não haverá vencedores nessa guerra, lutaremos até à morte e morte por exaustão. Contudo, não permitirei você vencer esse combate. Se prepare para o "até logo".

Ana Luiza Pereira