Carta ao futuro marido

 Bebê,

Eu fiquei por dias pensando no que escrever... Então, resolvi falar sobre essa reta final. Os últimos meses foram desafiadores, mas agradeço por você ser minha âncora. Me mantive sã para conseguir chegar no dia de hoje e dizer-te sim no altar.

Está animado? Eu admito que só de pensar nisso me sinto feliz. E eu consigo enxergar um futuro tão brilhante juntos. Não irei mentir; teremos muitos altos e baixos e esses nove anos não foram nada mais que uma prévia. A única diferença é que dessa vez estaremos na mesma casa, compartilhando todas as alegrias e angústias.

Eu te agradeço por me escolher e ser a pessoa que eu mais preciso nas minhas piores horas, tentarei fazer o mesmo por você. Juro te amar com todo o meu ser e cultivar nossa relação dia-a-dia. Prometo estar do seu lado e te apoiar quando se sentir ansioso ou inseguro com algo e ser sempre sincera com o que eu acho e sinto.

Quero caminhar de mãos dadas todos os dias, poder repousar a cabeça no seu ombro e demonstrar afeto sem me importar com o que dirão. Quero trilhar meu caminho com você até o fim dos meus dias.

...e hoje é o começo de toda essa história juntos.

Te amo!

Te vejo no altar,

Ana Luiza Pereira

Carta à ex-amiga

Oi, você!

Eu não queria estar aqui escrevendo-lhe esta carta. Você escolheu isso. Você rompeu uma coisa linda, devastou e criou no lugar cactos espinhentos que me abraçam e me machucam. Dei-te a escolha de se retratar (mais de uma vez), de salvar essa coisa linda que tínhamos. Mas você foi rude, disse-me coisas que nunca pensei que sairiam de sua boca e o que mais de incomoda é o quanto você não tem ideia disso. 

Você se faz de santo, mas me magoou tão profundamente que hoje só vejo o demônio em você. Não falo isto diretamente, pois sei que sou covarde e que você novamente me atacaria sem ao menos tentar me entender. Não quero ser atacada, não quero mais brigas, mais remorso e rancor, já estou machucada demais com os que tenho.

Eu não quero mais te ver, não quero mais dirigir-lhe a palavra com você, nem quero pensar em você. As pessoas em minha volta já estão cansadas dessa história, dessa mágoa, pois eu estou incomodada e só tenho elas para me abrir. 

A verdade é que escrevo-lhe para dizer-te adeus. Colocar um ponto nessa história. Não me procure, não me escreva, não me olhe se me ver na rua, nem dirija-me a palavra. Espero, um dia, poder te perdoar, livrar-me deste peso que arranca o coração e admirar as flores do cacto que você plantou.

Siga seu caminho em paz que eu seguirei o meu,

Aquela que já foi sua grande amiga.

Ana Luiza Pereira

Esperando na janela

O ano era 1946, o auge dos meus 15 anos. Vivia na janela, paquerando os rapazes da roça. Queria muito sair dali, papai era homem muito duro, xucro e tradicional; filha nenhuma poderia namorar sem sua supervisão, nem sequer sair para onde quer que fosse, nem para a missa.

Ele chegou à mineira (melhor jeito para descrever, já que morávamos na roça de Minas Gerais), seu nome era Milton, filho mais velho de 9 irmãos, tinha feições morenas, não bruscas, mas também não ligava para a beleza. Ele conversava comigo pela janela quase todos os dias até a hora de papai chegar e fechá-la, alegando que "todos acordariam cedo para trabalhar". As poucas vezes que não estive na janela ou ele não fora pelas andanças de sua família, trocávamos cartas.

E assim foi nosso namoro, até que em novembro de 1948 dissemos sim no altar. Tinha meus 17 anos e estava realizando meu sonho de sair das asas duras de papai. Sabia que Milton era pobre e nosso início não foi nenhum pouco fácil. Engravidei logo e, apesar de seu emprego, mal tínhamos para comer. Nos finais de semana, Milton andava com seus irmãos para as tocadas da vida, sempre com um banjo debaixo do braço e ficava eu com nosso filho, fosse no ventre ou no colo, costurando vestidos e grinaldas para complementar a renda da casa.

Existem outras mais histórias nesses entremeios, mas isto é coisa para outra hora...


Ana Luiza Pereira

Memória contada por Berenice Caldeira Pereira (minha avó).

Amendoeira do meu tio

 E foi aqui que me criei:

Em meio às rodas de samba e seresta;

Música feita com vozes fortes, afoxés feitos a mão, violões de amigos, colheres de pau, chocalhinhos de arroz e batucadas de mesa;

Debaixo de uma árvore tão comum, em frente a uma simples venda;

Tudo isso corre por minhas veias e sinto falta desta época.

O "tio" de referência desta roda foi meu avô e o buraco que ele deixou não pode ser tapado.

Ficam as lembranças de sua amendoeira e o canto incessante de um rio, o Rio de Piracicaba (a música da família).

Saudades.


Ana Luiza Pereira