Voltando para onde tudo começou

Eu não sou mais a mesma que era quando comecei a andar entre as linhas de cadernos. Muitos anos se passaram, muitos parágrafos se formaram das linhas da minha história, linhas que foram turvadas por lágrimas, rabiscadas com a tinta da caneta ou apagadas com uma borracha ou corretivo. 

Contudo, eu sou uma boa filha pródiga e visito com nostalgia meu ponto de partida. Pego meus primeiros textos e os releio com uma admiração como quem se admira de seu filho mais velho. Eram todos textos infantis, tanto de tema quanto de pensamento. Pensava erroneamente ser o único ser naquela idade que sofria tantas dores nesse mundo, mas descobri que há tantos outros que sofrem tantas dores mais.

Observo, de longe, o local de start de minha escrita: está tão mais irreconhecível quanto eu. Muitas primaveras e verões se passaram, o local foi reformado, enquanto eu tento esconder meus primeiros cabelos brancos. Ali aconteceram tantas coisas, alegrias e tristezas, e foi ali que eu recebi meu primeiro e mais importante conselho: "escreva, escreva para saber denominar seus sentimentos... Escreva". E, assim, não mais parei.

Escondo a lágrima com um sorriso, não é que eu queira retornar ao passado e reviver aquilo tudo novamente, mas guardo todas essas lembranças com um pouco de amor, pois sem elas não seria quem sou. Dizem que isso é sinal de maturidade e experiência, mas não sou o ser mais maturo e nem mais o experiente. Retornar ao ponto de partida me demonstra o quanto eu ainda necessito crescer. A verdade é que visito frequentemente esse ponto para analisar o que seria de mim sem ele e o que será de mim a partir de hoje.

Olhar com esse distanciamento maduro e sem o desejo de "poderia ter sido diferente" me diz que eu finalmente aceitei quem sou, aceito minhas dores e feridas e aceito que eu posso mudar a partir de hoje, sem me prender ao chão que me atraía. Eu não tombo mais; tropeço, mas não caio. E tudo com uma simples visita para onde tudo começou...

Ana Luiza Pereira

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