Caligrafia

Mexi em coisas antigas hoje: documentos, livros, papéis... Coisas frágeis, delicadas, desgastadas com o tempo.

Na antiguidade dessa fragilidade, observo sua caligrafia: cada volta, cada subida e descida de consoantes dentais, velares e palatais, a letra levemente inclinada como se preguiçosa. Um perfeito desenho sobre um papel que fora branco e pautado.

Ali, no lugar de uma melodia de uma música de ninar, estava um poema, um desenho e seu nome. Em outra folha, desenhara as notas em melodia. Pergunto-me se um dia ensinara essa canção a alguém.

Minha atenção se volta novamente para as letras preguiçosas, as invejo. Trabalho perfeito sem o mínimo de esforço. Enquanto eu, me esforcei para ter letra igualmente perfeita e falhei.

Suas curvas me remontam a saudades cada vez mais distantes. Queria te ver, mas só consigo ouvir a melodia de ninar e os conselhos escritos em sua perfeita caligrafia.

Ana Luiza Pereira

O peso do mundo

Acordei hoje com o peso do mundo sobre meu corpo. Olho ao redor para ver onde está: cadê o sentimento que me prende à cama? Cadê o amor que motiva a levantar?

Não vejo. Não sei onde está, mas sinto estar ali, onde sinto e não vejo. Talvez se tivesse outros olhos ou quem sabe outro coração...

Faço um esforço quase inumano para levantar, caso contrário, fico aqui o dia todo dormindo. Quero sonhar com coisas boas e não ficar presa com o sentimento do mundo pesando sobre meu corpo.

Respiro e encontro forças para mais um dia, mais uma vez. Um passo de cada vez e assim tilho o meu caminho.

Ana Luiza Pereira

Carta à criatura indecisa

Cara criatura,


    Estás parada no meio do caminho há tanto tempo que creio que já tornaste pedra com limo. “Sim” ou “não”, “certo” e “errado”, “esquerda” ou “direita” - são todas escolhas que não fazes. Ficas à beira da estrada para seguir o fluxo de uma vida que não é a tua.
    Escolhas são difíceis e a pior parte é a consequência - disso tu tens muito medo. Contudo, toda escolha feita com convicção é mais suportável de lidar com as consequências.
Estou cansado de te ver parado no meio do caminho de tua vida. A escolha deve ser feita ou a farão por ti.
Mesmo que queiras parar e analisar, pensar delicadamente em cada detalhe e circunstância, o tempo passa. A escolha é urgente e até se abdicar é uma escolha.
Faça.
Aja.
Movimente-se.

Tire o limo e não sejas mais pedra no meio do caminho, pois alguém vai passar e poderá tropeçar em ti.

Ana Luiza Pereira

A paz

Queria que a paz do ambiente contaminasse meu interior, mas a paz não é contagiosa e não pode me contaminar. Respiro a paz e desejo que ela me respirasse também.

Observo a paz como se observasse uma grande pintura. Picasso, Monet, Manet, Dalí, Rembrandt, Van Gogh... A paz possui vários retratos e nenhum deles é o meu.

O bom de estar em momentos assim é poder acreditar novamente que a paz existe. Está logo ali, alcançável, mas trabalhosa. Penosa, mas não doentia. A paz não é uma doença que existe, mas a parte mais saudável que apenas vive, e sobrevive às inúmeras batalhas. 

A parte ruim da paz é o silêncio, quase que absoluto, que se instaura no lugar. Silêncio bom para uma cabeça inquieta começar a gritar e não mais parar. Nem fazer barulho silencia a voz que há em minha cabeça.

Por fora, o silêncio aterrador. Por dentro, o barulho ensurdecedor. E, mesmo no paradoxo dessa paz, eu mergulho fundo nos meus pensamentos mais sombrios.

Logo, não sei mais onde estou só sei que estou: viva, respirando, existindo, e que lá fora, em algum lugar, há paz e eu posso encontrar, um dia, de novo dentro de mim.

Ana Luiza Pereira

Briga com o espelho

Há dias que eu brigo com o espelho. Evito olhá-lo, porque sei que vai me julgar. O reflexo quer ser perfeito, anseia por isso, mas eu não sou. Portanto, temos sempre razões para brigar: não passei rímel o suficiente, o delineador borrou, o batom está fora do contorno... futilidades. Tem certeza que vai assim? Você está horrorosa! Quem vai querer te cumprimentar desse jeito? Sua acidez me incomoda.

Você já se olhou no espelho enquanto chorava? A sensação do espelho te responder com xingamentos ao invés de consolo. A raiva em olhar um reflexo tão feio, carnal e humano. Por isso, há dias que quero despedaçar o espelho, atingir o reflexo com um soco, machucar o "Senhor Perfeito" como suas palavras me machucam.

Tem vezes que não ligo, saio mesmo assim, do jeito que estou. Não sou perfeita, por que meu reflexo tem que ser? Nem o mundo do contrário, esse mundo através do espelho de Alice, ele não é perfeito.

Contudo, há raros dias que fazemos as pazes. Sua acidez e busca incansável pela inalcançável perfeição continua, mas eu preciso dele. Preciso do espelho para me sentir minimamente bela de novo, desejável, enquanto busco fazer as pazes comigo mesma.

Ana Luiza Pereira

Tempo

Existem as batalhas,
os dias de luta.
Todos esses dias são infindáveis,
o tempo não passa e o dia seguinte é igual ao ontem.

As feridas não se cicatrizam.
Não há tempo para isso,
nem aquilo.
Simplesmente não há tempo, só luta.

Existem os dias de paz.
Raros como ver um dodô nos dias de hoje.
O tempo prega peças nesses dias:
uma hora se passa em um minuto
e até o piscar dos nossos olhos parece perda de tempo.
Tempo precioso
que nunca parece ser bem gasto.

Contudo, sinceramente, existem apenas dias.
A noção do tempo e o rótulo de "guerra" e "paz" somos nós que damos.
Nossa percepção muda de um dia para o outro
e nunca é igual, mesmo quando separamos em caixinhas.

São apenas dias, é apenas tempo.
A guerra e a paz estão em minha cabeça
e eu as projeto em algo, como nessas horas eternas.
Se eu não as projetasse, como seria o tempo?
Bem, creio eu que o mesmo.
Apenas minha percepção de observá-lo e vivenciá-lo mudaria novamente.

Ana Luiza Pereira

Ouça o que eu digo

Ouça o que eu digo:
Este século vive um grande mal.
Qual mal?
Um mal à espreita.
Os maiores males de um século vivem dentro daqueles que constroem a história do mesmo.
O mal não tem forma, face, lugar, cor, religião...
O mal só existe, 
resiste, 
insiste...

Ouça o que eu digo:
O bem é mais difícil de se encontrar.
Para que exista o bem,
necessita-se de sua face reversa,
contrária,
contraditória.
O bem não tem moradia, pois é andarilho.
Ora, se o mal mora em nós, o que o bem é além de revolução?

Ouça o que eu digo:
Estender a mão é mais difícil que apontar o dedo.
Qualquer ato de bondade é revolucionário,
pois o mundo vive um grande mal.

Ouça o que eu digo:
O maior mal do mundo não é a tecnologia,
mas quem a usa.
Não é a religião,
mas quem a prega.
Não é o poder ou o dinheiro,
mas quem usurpa.

O maior mal do mundo é o ser humano,
ser nojento,
repulsivo,
doentio e doente.
Ser que se julga consciente, mas não usa a consciência,
não ajuda o mundo, o outro e nem a si próprio.

O mundo corre perigo com esse "mal do século"
e não há muito o que se fazer, 
pois a doença se espalhou rápido demais.
Ouça o que eu digo.

Ana Luiza Pereira

Boas-vindas, novamente, velha amiga!

Boas-vindas novamente, velha amiga!

Quanto tempo faz? Ultimamente você só tem passado por mim e ido embora. Deixa seu rastro de raiva, (auto)destruição e solidão profunda em sua passagem e eu sinto, como um cordeiro manso recebendo pauladas do abate.

Fazia tempos que você não me puxa pelo pé, afundando-me na areia movediça dos meus piores sentimentos. Fazia tempo que não escrevia sobre isso com caneta, papel, suor e lágrimas. Recordo-me dos tempos áureos, em outrora, quando essa prática me era recorrente. Escrever me fazia bem e eu sinto falta dessa paz... Pena que ela só é acompanhada da sua tormenta.

Sei que não está feliz com o meu silêncio, esse gelo que dou era para demonstrar o quanto fiquei forte mesmo com você me abalando profundamente. A raiva? Eu sinto. Esmurro paredes e chão até passar. A dor? É real. A angústia? É vívida. Retira-me dos mais doces sonhos, tira meu sono, minha fome, a vontade de viver e a capacidade de respirar.

Estou pedindo mais ajuda dessa vez. Você é grande demais para continuar combatendo sozinha. Contudo, você vive à espreita dos meus piores momentos para me arrebatar de volta à sua tormenta.

Posso te tratar como velha amiga, pois já conheço seus truques e artimanhas. Não existe um pó de pirimpimpim que possa me salvar de ti, mas existe a ação e a escolha. A escolha de dizer "NÃO". Dói escolher ir contra sua corrente, ainda mais porque é uma escolha diária e estou cansada dela. Porém, ninguém pode escolher por mim.

Sou fraca e vou me dar a chance de fraquejas, chorar, berrar e surtar sem problemas ou julgamentos, mas a luta continua no dia seguinte e vai continuar até o fim dessa vida. Não haverá vencedores nessa guerra, lutaremos até à morte e morte por exaustão. Contudo, não permitirei você vencer esse combate. Se prepare para o "até logo".

Ana Luiza Pereira