Contra-fluxo

Eles dizem 'autoridade',
Eu digo 'ditadura'.

Eles dizem jargões,
Eu observo atos.

Eles querem provas,
Eu quero política.

Eles dizem 'liberalismo',
Eu digo 'privatização'.

Eles não pensam e falam,
Eu falo e penso.

Eles leem e espalham,
Eu leio e comento.

Eles dizem 'doutrinação',
Eu digo 'educação'.

Eles dizem levianamente,
Eu digo criticamente.

Eles fazem o fluxo,
Eu o contra-fluxo.

Seguimos em caminhos diferentes,
Alguns em cada lado.

Alguns seguem em embate eterno,
Outros seguem montando e mostrando o caminho,
Caminho que acham e escolheram como certo.

Mas seja no fluxo ou contra-fluxo,
No caminho "certo" ou "correto",
O objetivo é um mundo melhor.

Portanto,
Seguir seu caminho e respeitar o próximo é fundamental em qualquer embate.
O desrespeito é motivo para guerras mesquinhas e autodestruição.

Se eles xingam,
Você observe,
Pois eles engolirão as próprias palavras.

Não dê motivos a quem não os merece.
Siga seu caminho e faça do mundo um lugar melhor.

Medo da morte

O que se fazer quando se tem medo? É difícil responder essa pergunta sem recorrer à resposta científica: ou corre ou se paralisa. Paralisar-se de medo e fingir-se de morto é uma tática cruel se pensarmos bem, já que o medo que nos paralisou é o medo da morte. Fugir, dar com sebo nas canelas, correr sem olhar para trás também não é uma das melhores táticas, já que estamos apenas adiando nosso pretensioso fim.

Afinal, quem não possui medo da morte? Quem não paralisou ou correu diante das diversas formas que a morte encontra para nos encarar? Dos animais mais irracionais aos humanos mais inteligentes, todos pensam em como prolongar a vida e suas amarguras. Criogenia, remédios, procedimentos médicos, medicina oriental - são todas formas de prolongamento de nossa dor.

Bem, o que eu quero dizer com todo esse papo fúnebre de vida e morte? Eu quero dizer que eu tenho medo. Medo de encarar a morte diante do luto que enfrento. Medo de ser da próxima pessoa na fila de Zé Maria. Eu não suporto a dor da perda e tenho medo de encarar a morte. 

Mas como enfrentar um medo constante de um sentimento tão abstrato e uma certeza tão clara (a morte é o fim do ciclo de uma vida)? Fácil, continue vivendo. Viva um dia de cada vez, sinta na pele o sol e a chuva que renova o ciclo da terra, resolva cada dia um problema por vez... Viva cada instante de forma única e não desperdice seu tempo com coisas supérfluas. Cada dia é um dia novo e a morte não pode nos parar até chegarmos ao nosso fim. 

Vá em paz, tia...

Há alguns anos, presenciei ao sepultamento de um dos meus tios-avô. Ele sempre falou pouco, era comedido e eu sempre o vi como uma figura altiva e de respeito. Mas não havia em si uma proximidade, o carinho que me levou ali era pela minha tia, sua esposa e irmã do meu avô, que seguiu o velório todo sentada ao lado do caixão rezando o terço em silêncio. 

Lembro-me da capela (a mesma de hoje), da sala, do caixão aberto e de nós conversando sobre o tio Ruy enquanto alguém cantava "Peixe Vivo" ao lado do caixão. Lembro de comentar como minha tia Aracy começou a lembrar minha falecida avó, em seu silêncio, oração e feição. 

Minhas lembranças, então, foram mais para o passado; quando, aos 6 anos, a mesma tia fez minha roupa de coroinha com a bainha especialmente grande para que eu pudesse crescer e só fazer ajustes no tamanho. Lembrei de como ela me chamava, docinho de coco, e de como ela brigava bastante comigo por não visitá-la sempre. Lembrei das orações de novena de natal em sua casa e das suas plantinhas no quintal que ela regava com muito carinho.

Lembrei... e o que mais marcou foi o exemplo. O exemplo da mulher forte que ela foi. O exemplo de conseguir ser fortaleza com silêncio e oração diante de tanta dor que a vida lhe dava. 

Hoje, eu dei adeus a essa mulher. Adeus não, mas um até logo. Porque eu acredito que um dia iremos nos ver de novo e ela vai novamente me agraciar com suas histórias e exemplos. Vá em paz, Tia Aracy.


Ana Luiza Pereira

Enlutada

 Segunda e minha cabeça já amanheceu cheia

Dei de cara com o chão antes que o sol raiasse

Meu instinto dizia que a semana seria incomum

E foi...

Dois tios, de primeiro e segundo grau.

Um, uma senhora com seus 90 anos que abraçou a morte como velha amiga.

Outro, um senhor acima de 70, com a cabeça tomada pela falta de lembranças e o estômago pelo câncer.

Escrevo, pois acho que não conseguirei me despedir...

Escrevo, pois acho que não irei aos seus enterros...

A responsabilidade de um adulto me impede de me despedir, seja em vida ou em morte.

Sinto-me frustrada, pois eu também quero isso.

Impondo minha vontade, viro uma grande pedra no sapato

De outras pessoas que querem que eu assuma as responsabilidades de um adulto.

Prefiro dormir...

Não é um sono dos justo,

É um sono de chateação, um sono de quem não quer chorar por isso.

Mas, ainda assim, eu choro, como estou chorando agora...

Choro, chateada e enlutada, por não saber dizer adeus 

E por não poder dizer adeus na hora certa.


Ana Luiza Pereira

Agosto

"Agosto é o mês do desgosto" - é o que sempre dizem. Eu acredito. Agosto traz lembranças dolorosas, lembranças que preferia esquecer, mas sobrevivem nítidas em minha memória.  


A cada agosto, renasce em mim um medo: reviver aquela parte da minha vida que eu chamo de negra; de ter um funeral para ir e não conseguir chorar por estar preocupada demais com os outros à minha volta. Eu não deveria guardar tanto... Deveria ter aprendido nessa época o quanto guardar é tóxico. Deveria me transbordar mais e deixar os outros de lado, mas não consigo... Se o mundo fosse dividido em caixas como "altruísta" e "egoísta", estaria mais dentro da caixa de altruísmo que sambando no meio das duas.


Mas, no final das contas, estou aqui: morta de medo de um futuro que não prevejo e machucada por um passado distante. A criança que observou e guardou tudo aquilo ainda vive, e chora dentro de mim, principalmente a cada mês de agosto.


Sinto-me exausta e infeliz por reviver esses momentos em minha cabeça.  "Durma. Amanhã é outro dia e você vai se sentir melhor" - já ouvi e menti para mim dizendo isso incontáveis vezes. Uma boa noite de sono não nos faz esquecer; uma boa noite de sono só nos distancia do dia que a ferida se abriu; uma boa noite de sono deixa a dor suportável de se aguentar.... Contudo, haverão dias... Dias que não importarão as boas noites de sonos e a dor se tornará tão forte como naquele fatídico dia.


E assim vou vivendo cada agosto da minha vida... Sempre com o gosto do desgosto que senti quando esta dor que me dilacera começou. 


Ana Luiza Pereira 

In patris corde, filii gaudem

O Papa Francisco instituiu desde de dezembro de 2020 o ano que é conhecido como “Patris corde” (coração do Pai), como uma forma de exaltar a figura de São José, figura tão importante para a Sagrada Família, mas pouco mencionada nas Escrituras. O que mais sabemos de São José foram histórias que sobreviveram às épocas desde a evangelização dos continentes: era Santo, o mais justo entre os descendentes de Davi, trabalhava de carpinteiro, ensinou o ofício a Jesus, era exemplo de honestidade e trabalho duro e morreu antes do primeiro milagre de Jesus nas bodas de Canaã. Dizem até que morreu nos braços do filho.

Por providência, ele não viu seu filho sofrer e morrer na terra, mas estava junto com o Pai Eterno quando isso aconteceu. Ambos pais de Jesus, ambos exemplos e ambos ensinam.

Durante a preparação da Páscoa, o coração de Jesus já estava triste e agitado. Uma semana antes, ele foi aclamado rei em cima de um burrico, com ramos de oliveiras e gritos de “Hosana ao Filho de Davi”. Ninguém sabia do que se passava no coração de Jesus, exceto o Pai Eterno.

Na Vigília Pascal, após a ceia, Jesus clamou para o Pai que queria que o “cálice fosse afastado”, mas entendia que a vontade de quem é Pai se sobrepõe a vontade de um filho. Jesus sabia que o Pai ensinava a todos os seus filhos, usando o filho mais amado como exemplo de cordeiro imolado. 

O Pai também estava lá e ouviu dizer “Eloi, Eloi, lamá sabactâni?” (“Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?”) e chorou ao último suspiro do filho amado, cortando as cortinas do templo e fechando os céus com nuvens.

Contudo, no coração do Pai guarda a alegria do filho. E não há alegria maior do que a Páscoa do Senhor e a Ressurreição de Jesus Cristo. O Pai e o Filho se tornam um nesta vitória sobre a morte caracterizada pelo sepulcro vazio. 

Todavia, esta mensagem de reflexão não serve apenas para mais um Páscoa que vivenciamos. Estamos em uma época pandêmica, onde sepulcros estão repletos de pais e filhos que perdemos para um vírus. Estamos dentro de nossas casas, rezando, pedindo e implorando para que este cálice seja afastado de nós e nossas famílias. Gritamos com raiva contra Deus Pai, perguntando o porquê de nos abandonar a mercê da morte. Acha mesmo que Deus não está triste? Ele é Pai e um Pai que ama seu filho, se entristece com a dor do filho, mesmo quando tem que ensiná-lo o caminho certo.

Porém, mais uma vez, Deus veio nos ensinar a ter esperança num sepulcro vazio e numa vitória sobre a morte. Uma Páscoa é mais do que chocolates e mesa cheia, é a esperança de uma superação de um momento de trevas que nos parece tão insuperável quanto pareceu a Cristo e que ele pensou naquela Vigília Pascal. Mas ele vigiou e foi feito a vontade de Deus, assim também devemos nós vigiar para não cairmos em tentação que a vitória chegará. A alegria do filho irá chegar no coração do Pai também.


Ana Luiza Pereira 

A toupeirinha

Há muito tempo, numa floresta, havia uma escola que reunia os animais mais adversos que por ali morava:m pássaros, onças, borboletas, crocodilos, tatus, bichos preguiças – todos tinham suas tocas e ninhos ali perto.

Um dia, uma pequena toupeira entrou na escola com uma sede por conhecimento, mas possuía uma grande vergonha da sua aparência e sua dificuldade, já que toupeiras são praticamente cegas à luz do dia.

A professora, uma jovem onça, fazia de tudo para ajudar seus alunos no dia a dia: tirava dúvidas, explicava milhões de vezes, colocava a matéria no quadro, dava a devida atenção a quem a chamava… E a toupeirinha sempre lá atrás, quietinha, sem nunca incomodar ninguém. Nem sempre ela enxergava o que estava no quadro, mas sempre prestou muita atenção nas explicações da professora.

Aconteceu que, um dia, por conta de uma conversa interminável na hora da explicação entre o papagaio, o crocodilo e o sabiá, a professora se irritou, rugiu para todos, até para o bicho preguiça que dormia. Então, ela decidiu dar um teste surpresa com toda a matéria que tinha acabado de falar e valendo metade da nota.

A maioria da sala se desesperou: a conversa tinha atrapalhado até quem estava querendo prestar a atenção na aula. Danada mesmo foi a toupeirinha, que sempre se manteve quieta e atenta, conseguiu fazer o teste sem demora de tão fácil. A professora corrigiu surpresa, dando-lhe um dez e parabéns. A toupeira, então, saiu da sala desfilando o seu triunfo.

Após a aula, a turma foi perguntar à toupeirinha como ela tinha conseguido terminar o teste tão rápido e ela simplesmente respondeu: “Eu sei me calar e prestar a atenção nos sons, por isso, sei quais sons são mais importantes que outros e é por isso que eu fui bem”


Ana Luiza Pereira

Ignorância é força?

        “Nós não precisamos de nenhuma educação” , disse a banda Pink Floyd em uma de suas músicas mais celebradas. Mas, o que seria educação? Os membros da banda Pink Floyd enxergam educação como uma ferramento de manipulação do pensamento da massa, ferramenta esta criada pelo Estado e distribuída entre os mais pobres.
Acredita-se no poder da educação como ferramenta transformadora, mas o pobre não tem acesso à mesma educação do rico. Assim, o rico consegue (se manter) o status de “ser pensante”, capaz de governar e ter poder, enquanto o pobre continua sendo ignorante.
Acredita-se no poder da ciência e do pensamento científico, mas, assim como descrito em 1984 de George Orwell, a ciência é danificada de todos os lados pela falta de subsídios e também vira ferramenta de manipulação da massa.  Neste livro, a ciência é usada para fins da Polícia do Pensamento que mantém os membros do Partido sob constante vigilância, portanto, pesquisas científicas subjacentes não interessam ao Estado e não receberiam subsídio suficiente para continuar a existir. Pode-se dizer que o mesmo acontece com o Brasil ao cortar o financiamento das instituições públicas de pesquisa científica, como o CAPES, assim, o dinheiro que sobra irá para as pesquisas que mais ajudarão o governo atual a se manter no poder, enquanto outras deixarão de existir.
Ao mesmo tempo, isso cria um efeito adverso: o pensamento científico adquirido na escola torna-se desacreditado pelas classes mais baixas, ignorantes pela falta de acesso à educação adequada. Esse é o Efeito Dunning-Kruger que explica como a ignorância torna a pessoa mais confiante e, por conseguinte, mais manipulável por não possuir senso crítico e informação. Logo, tal pessoa sob esse efeito é capaz de gritar a plenos pulmões que não precisa de educação, pois ela já sabe de tudo.

Ana Luiza Pereira

"Why do they always send the poor?"

       “Why do they always send the poor?” (Por que sempre enviam os pobres?) - esse é o primeiro verso de uma das músicas mais conhecidas da banda System of a Down. Como pode-se imaginar, o verso se refere a uma luta armada, uma guerra, como a maioria das canções escritas pela banda, cujos membros viram com os próprios olhos o que a guerra fez à sua nação. 

Analisando especificamente esse verso e seu tema, fica fácil definir uma resposta: a guerra é uma ferramenta de manipulação da classe pobre através do medo e do ódio, afinal, grupos extremistas nasceram com o desejo de uma vingança de um inimigo que os oprime e os massacra. A manutenção do poder da classe alta não se dá somente pela morte do pobre, mas pela esperança em um salvador. Ora, o Messias de um povo vem através da política de seu país, sempre com promessas e discursos absurdos, o salvador é eleito na vã esperança de uma resolução.

Contudo, o messias se torna salvador dos grandes que o apoiam: protege empresários e oprime o pobre restringindo sua liberdade e conhecimento. Ignorância se torna liberdade; não para quem é ignorante, mas a quem pode usar essa ignorância para manipular o apoio da massa. A informação se torna uma ferramenta tanto do manipulador quanto do manipulado, pois apenas o senso crítico do manipulado poderia libertá-lo de tal opressão. Todavia, a informação é usada como forma de disseminação do medo e do ódio, aumentando o apoio a quem não importa se o pobre está com fome e morrendo no meio-fio da rua.

O pobre, então, é uma bola de futebol jogada de um lado a outro no campo sem nunca conseguir vislumbrar o gol. Os pés dos dominantes oprimem, "aumentando o desejo do oprimido se tornar também opressor" (Paulo Freire). A consciência da guerra não muda o quadro do pobre, pois o seu destino continua sendo o mesmo: morrer, seja pela fome, seja pela luta. Sendo assim, é eminente intuir que enquanto houver a opressão ao pobre, mesmo que o pobre se torne membro da classe dominante algum dia, o ciclo irá sempre se repetir, seja por vingança ou por manutenção de seu poder. Ou seja, a guerra continua sendo a paz de quem a declara.


Ana Luiza Pereira