"Agosto é o mês do desgosto" - é o que sempre dizem. Eu acredito. Agosto traz lembranças dolorosas, lembranças que preferia esquecer, mas sobrevivem nítidas em minha memória.
A cada agosto, renasce em mim um medo: reviver aquela parte da minha vida que eu chamo de negra; de ter um funeral para ir e não conseguir chorar por estar preocupada demais com os outros à minha volta. Eu não deveria guardar tanto... Deveria ter aprendido nessa época o quanto guardar é tóxico. Deveria me transbordar mais e deixar os outros de lado, mas não consigo... Se o mundo fosse dividido em caixas como "altruísta" e "egoísta", estaria mais dentro da caixa de altruísmo que sambando no meio das duas.
Mas, no final das contas, estou aqui: morta de medo de um futuro que não prevejo e machucada por um passado distante. A criança que observou e guardou tudo aquilo ainda vive, e chora dentro de mim, principalmente a cada mês de agosto.
Sinto-me exausta e infeliz por reviver esses momentos em minha cabeça. "Durma. Amanhã é outro dia e você vai se sentir melhor" - já ouvi e menti para mim dizendo isso incontáveis vezes. Uma boa noite de sono não nos faz esquecer; uma boa noite de sono só nos distancia do dia que a ferida se abriu; uma boa noite de sono deixa a dor suportável de se aguentar.... Contudo, haverão dias... Dias que não importarão as boas noites de sonos e a dor se tornará tão forte como naquele fatídico dia.
E assim vou vivendo cada agosto da minha vida... Sempre com o gosto do desgosto que senti quando esta dor que me dilacera começou.
Ana Luiza Pereira
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