"Chorai por vós mesmas e por vossos filhos!"

     Hoje, Domingo de Ramos, um domingo especial para nós, católicos, domingo que dá início ao martírio de Cristo que culminará em sua morte na cruz. Como liturgia, além de nos lembrar a sua entrada glorificada na Betânia, a liturgia vislumbra sua paixão. Como alguém que nasceu e foi criada dentro da Igreja, conheço as leituras de hoje de cor e consigo recitar a maior parte de cabeça. Contudo, não sei se pela idade ou pela época em que vivo, uma parte do Evangelho me chamou a atenção hoje e diz: 

"Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se e disse: 'Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que si dirá: 'Felizes as mulheres que nunca tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram'. Então começarão pedir às montanhas: 'Caí sobre nós!' e às colinas: 'Escondei-nos!' Porque, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?" (Lucas 23, 27-31)

    

    Esse pequeno trecho me levou a pensar em duas coisas muito atuais: primeiro, já estamos no tempo em que as mulheres não querem mais ter filhos, juntamente com o discurso presente na sociedade que elas são mais felizes e bem-aventuradas do que àquelas que escolheram ser mães; segundo, vivemos numa época que tanto as que escolhem ser mães quanto as que não escolhem são "apedrejadas" pelas suas escolhas.

    Vocês podem dizer que eu estou "viajando", mas pense como uma mulher em idade fértil que está se preparando a ser mãe: É comum ouvir do mercado de trabalho que eu seria muito mais feliz se eu nunca ter filhos, pois os filhos me "atrasarão" e eu não conseguirei crescer em meu emprego fora de casa, pois há uma vida que dependerá financeira, mas principalmente, emocionalmente de mim e de minha presença. Enquanto isso, o trabalho que, também requere nossa presença 100% em corpo e espírito, nos diz que é impossível conciliar a vida do lar com a vida do trabalho, cabendo, então a escolha de ser ou não ser mãe.

    Por tal motivo, está cada vez mais comum ouvir de mulheres, casadas ou não, em idades férteis, que elas não querem ter filhos, que sua felicidade está no trabalho, que elas não possuem ou não se veem tendo o tal do instinto materno e que querem se dedicar totalmente a seus trabalhos e seus sonhos. Respeito isso, mesmo que eu não seja assim.

    Eu escolhi ser mãe em algum dia e deixo claro isso nos meus trabalhos, portanto ouço muitas críticas tentando me desmotivar de minhas escolhas. Da mesma forma, é comum ouvir das minhas amigas que escolhem e falam abertamente que não querem ser mães, falarem que recebem críticas pela sua escolha, que seriam mais felizes e realizadas parindo um filho.

    Jesus acertou. É muito mais fácil pedir para que as montanhas caiam sobre nós e que as colinas nos escondam, pois é duro conviver a todo momento sendo criticadas. Olha o que fazem conosco? Deve ser por isso que Ele também nos fala para chorar por nós mesmas e por nossos filhos, pois está cada vez mais difícil ter filhos (pelas questões econômicas, casamentos que pouco duram etc) e está cada vez mais complexo ser mulher na sociedade moderna. Então, após todo esse devaneio, peço-vos, por favor, que respondam a indagação de Jesus: se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?


Ana Luiza Pereira

O que é capricho? O que é necessidade?

    O que é capricho? E o que é necessidade? Eu tinha um professor na faculdade que dizia que "necessidade é comer, respirar e cagar", e ele não está errado. Ao amadurecermos, percebemos que aquilo que víamos como nossas necessidades se subvertem e não passam mais de mero capricho. Eu, por exemplo, sempre senti uma necessidade enorme de escrever. Escrevia páginas e páginas, livros longuíssimos... parecia ter uma criatividade infinita. Hoje, peno para escrever 5 linhas... E cá estou eu desabafando com uma pena e um papel.

    Na verdade, descobri recentemente que, em certos momentos de nossa vida, certos caprichos se tornam igualmente necessários, afinal, o que te impede de surtar todos os dias? Qual hobby te ajuda a por a cabeça no lugar?

    Sabe o dito? "Só Deus sabe como está a cabeça do palhaço"? Só você sabe o que é necessário para você e não os outros. No final das contas, nada é realmente um capricho, se te ajuda a ficar bem mentalmente.


Ana Luiza Pereira

Perceber-se adulto

 Perceber-se adulto é muito estranho.
Parece ser do nada, saber?
As responsabilidades se tornam maiores
e o mundo parece cada vez menor.
Seus medos mudam,
o medo do escuro se torna medo da morte.

E você percebe que seus grandes heróis não passam de humanos,
erram e, além de machucarem a si mesmos,
podem também machucar você.
Você percebe que algumas coisas ficarão "mal resolvidas"
e tá tudo bem.
Você percebe que algumas amizades não são para você.
E percebe que você está vivendo sua melhor fase,
então tá tudo bem não manter mais certas amizades.
(Na verdade, o ditador "melhor só que mal acompanhado" fará muito sentido)

Sua vida muda aos poucos e, 
quando menos você percebe, 
ela já deu um 360.
E, ainda assim, coisas estão "presas" no mesmo lugar:
Seus gostos se mantém 
e você tem mais coragem de percorrer certos caminhos e sonhos.

Enfim,
amadurecer é muito estranho,
mas muito legal.

Ana Luiza Pereira

Carta de uma filha ausente

 Pai,

    Acho que vai ser o primeiro dia dos pais sem você. Estou tão triste por isso... Já chorei horrores, mas não temos culpa por eu estar tão doente como estou hoje.

    Mesmo assim, me sinto tão culpada por não te reverenciar hoje... Não brincar com a sua careca e nem comer seu tradicional churrasco. Ao invés disso, estou só em casa com dores infernais e arranjando a coragem necessária para voltar no hospital em pleno dia dos pais e pedir alguma solução, já que os remédios não parecem estar funcionando.

    Queria seu abraço de pai, mesmo sabendo que você não sabe lidar bem com doentes, fica muuuito nervoso e não sabe o que fazer para acudir. Mas, sabe?, um breve abraço seria bom.

    Eu sei, eu sei... logo irei e sempre haverá o próximo dia dos pais. Só que eu sou uma pessoa ansiosa que quer as coisas AGORA, porque fico pensando que não haverá próximos e que devemos aproveitar o hoje (carpe diem).

    Por isso, estou escrevendo minha indignação e tristeza nesses pensamentos desconexos. Desculpe, pai, não fui uma boa filha esse ano, espero melhorar para o próximo.

Ana Luiza Pereira

Frases avulsas de uma adolescente dos anos 2000

Se eu fosse levar em conta tudo o que se diz, eu nada teria feito.

Somos humanos, mudamos sempre, a cada minuto, foi mal.

Desculpe se não sou como pensavam que eu seria, mas nem tudo está nas nossas mãos e pensamentos.

Aturar ADP (ataque de pelanca) por ciuminho porqque esqueceu de dar valor na hora certa é pedir para ser canonizada... 

Não tenho pena do mundo, ele não teve pena de mim.

Me dê motivos para sorrir que te farei meu motivo de viver.

Nunca peça para eu me lembrar de algo que disse a anos atrás... Nem sei o que fiz ontem!

Todos temos sempre algo a dizer, mas nos calamos por motivos maiores. Muitas das vezes, medo.

"A vida é muito fácil somos, nós que complicamos tudo para nos complicar" - Essas palavras me fizeram não jogar tudo pra trás.

Engraçado como as pessoas falam "amor pra lá", "amor pra cá" mas, na realidade, não tão nem aí pra você porque estão com outra pessoa.

Sabe aquele momento que você menos espera e ele vem falar com você? Pois é, esse momento não existe.

Na net = pessoa descolada. Na vida = pessoa estranha. #tristeverdade

Preciso dormir e acreditar que nada aconteceu ou que amanhã será melhor, pois é, sou assim...

Necessito de provas, provas que é real essa porra que sempre me fode chamada amor.

Não existe coisa melhor do que o tempo se vingar por você...

Motivos para viver:                                                                                       e porque amo você.

"Você é muito chata!" VOCÊ TEM BIGODE E MESMO ASSIM EU NÃO PERGUNTEI SE VOCÊ SAIRÁ DE MULHER BARBADA NO CARNAVAL!

Ser melhor amigo é assim: você se droga, mas quem é o drogado é o seu amigo escandaloso pra cacete!

O problema é que todos gostavam mais da Ana que se diminuía para ser pedestal dos outros. Contudo, nesse meio tempo eu aprendi que está a serviço do homem não é ser objeto do mesmo deixando que ele faça de você o que bem entender, estar a serviço do homem é estar sob a mesma missão (submissão) e isso poucas pessoas fazem.

Sei que não sou deus e nem Lúcifer para querer ser deus, sei que meus atos não são os melhores, mas é como sou; super-protetora, capaz de tudo por quem amo e prezo. Pena que muitos não entendem ou aceitam esse meu jeito de ser... 

Ana Luiza Pereira

Frases escritas nos anos de 2008-2009. 


O dito pelo não-dito

 Até quando o não-dito precisa ser dito?

Até quando esperaremos que as pessoas que nós conhecemos interpretará corretamente nossos silêncios?

Até quando nos chatearemos por dizermos 'sim' querendo dizer 'não' e a pessoa não ver isso?

Sabemos que as escolhas do outro estão além do nosso controle,

 mas então por que nos afeta tanto?

Me sinto cansada dessa situação de interpretar-se apenas os ditos e não suas pausas.

Da mesma forma, meu lado racional me diz que o oposto seria igualmente prejudicial. 

Talvez não para mim, mas para o outro.

"Equilíbrio" é a chave.

Mas uma chave muito difícil de se encontrar entre o molho de milhares.

Enquanto não se encontra o "equilíbrio",

 o embate sempre se fará presente e será culpado dos extremos cansaços que sinto.

É isso... 

Escrevi para por meus pensamentos em ordem

 e se me esqueci de algo, me desculpe.


Ana Luiza Pereira 

Escolhas

    Às vezes, simplesmente paro e penso nas escolhas... Você já sentiu vergonha de algo que fez? Da escolha que tomou? Da vida que viveu? Por quê? Já parou para pensar que foi o melhor que você poderia fazer com o conhecimento que tinha?

    Talvez este seja o maior erro e a maior dádiva ao se envelhecer: você reconhecer. Vez em quando é bom passar a limpo as escolhas que tomei nos últimos meses ou anos, me cobro ao pensar o motivo de não ter tido essa ideia antes, justo agora que a situação passou, mas a realidade é essa: eu era outra naquela situação e, por isso, só conseguia fazer o que fiz com o que eu tinha. Hoje, eu sou um alguém diferente, que observa a situação passada por um outro ângulo, mais amplo, menos limitado, e tenho mais conhecimento do que pode ser feito. Então, não há motivos de me envergonhar das decisões que tomo, sendo elas conscientes, eu estou fazendo sempre o melhor que eu posso.

    Mas e quando você não decide? Mas e quando decidem por você? 'A não-escolha já é uma escolha' - ouvi isso uma vez e, de fato, é verdade. Você pode se sentir entre a cruz e a espada, você pode não querer se indispor com ninguém e, portanto, paralisar-se de medo, mas até a sua paralisia é uma escolha. Seu corpo também fala e não é só sua mente que precisa escolher, sua paralisia ou fuga é uma escolha de manutenção de sua vida, de um status quo, mesmo que seja uma escolha subconsciente. 

    Então retorno à questão crucial: por que se envergonha das suas escolhas? Você não é perfeito e pode (e deve) se permitir errar, pois só assim é que se aprende a viver. Não tenha vergonha do que você fez, envergonhe-se se quiser continuar a ser quem foi, mas isso... Isso a vida não permite que você seja para sempre.

Ana Luiza Pereira

Carta ao futuro marido

 Bebê,

Eu fiquei por dias pensando no que escrever... Então, resolvi falar sobre essa reta final. Os últimos meses foram desafiadores, mas agradeço por você ser minha âncora. Me mantive sã para conseguir chegar no dia de hoje e dizer-te sim no altar.

Está animado? Eu admito que só de pensar nisso me sinto feliz. E eu consigo enxergar um futuro tão brilhante juntos. Não irei mentir; teremos muitos altos e baixos e esses nove anos não foram nada mais que uma prévia. A única diferença é que dessa vez estaremos na mesma casa, compartilhando todas as alegrias e angústias.

Eu te agradeço por me escolher e ser a pessoa que eu mais preciso nas minhas piores horas, tentarei fazer o mesmo por você. Juro te amar com todo o meu ser e cultivar nossa relação dia-a-dia. Prometo estar do seu lado e te apoiar quando se sentir ansioso ou inseguro com algo e ser sempre sincera com o que eu acho e sinto.

Quero caminhar de mãos dadas todos os dias, poder repousar a cabeça no seu ombro e demonstrar afeto sem me importar com o que dirão. Quero trilhar meu caminho com você até o fim dos meus dias.

...e hoje é o começo de toda essa história juntos.

Te amo!

Te vejo no altar,

Ana Luiza Pereira

Carta à ex-amiga

Oi, você!

Eu não queria estar aqui escrevendo-lhe esta carta. Você escolheu isso. Você rompeu uma coisa linda, devastou e criou no lugar cactos espinhentos que me abraçam e me machucam. Dei-te a escolha de se retratar (mais de uma vez), de salvar essa coisa linda que tínhamos. Mas você foi rude, disse-me coisas que nunca pensei que sairiam de sua boca e o que mais de incomoda é o quanto você não tem ideia disso. 

Você se faz de santo, mas me magoou tão profundamente que hoje só vejo o demônio em você. Não falo isto diretamente, pois sei que sou covarde e que você novamente me atacaria sem ao menos tentar me entender. Não quero ser atacada, não quero mais brigas, mais remorso e rancor, já estou machucada demais com os que tenho.

Eu não quero mais te ver, não quero mais dirigir-lhe a palavra com você, nem quero pensar em você. As pessoas em minha volta já estão cansadas dessa história, dessa mágoa, pois eu estou incomodada e só tenho elas para me abrir. 

A verdade é que escrevo-lhe para dizer-te adeus. Colocar um ponto nessa história. Não me procure, não me escreva, não me olhe se me ver na rua, nem dirija-me a palavra. Espero, um dia, poder te perdoar, livrar-me deste peso que arranca o coração e admirar as flores do cacto que você plantou.

Siga seu caminho em paz que eu seguirei o meu,

Aquela que já foi sua grande amiga.

Ana Luiza Pereira

Esperando na janela

O ano era 1946, o auge dos meus 15 anos. Vivia na janela, paquerando os rapazes da roça. Queria muito sair dali, papai era homem muito duro, xucro e tradicional; filha nenhuma poderia namorar sem sua supervisão, nem sequer sair para onde quer que fosse, nem para a missa.

Ele chegou à mineira (melhor jeito para descrever, já que morávamos na roça de Minas Gerais), seu nome era Milton, filho mais velho de 9 irmãos, tinha feições morenas, não bruscas, mas também não ligava para a beleza. Ele conversava comigo pela janela quase todos os dias até a hora de papai chegar e fechá-la, alegando que "todos acordariam cedo para trabalhar". As poucas vezes que não estive na janela ou ele não fora pelas andanças de sua família, trocávamos cartas.

E assim foi nosso namoro, até que em novembro de 1948 dissemos sim no altar. Tinha meus 17 anos e estava realizando meu sonho de sair das asas duras de papai. Sabia que Milton era pobre e nosso início não foi nenhum pouco fácil. Engravidei logo e, apesar de seu emprego, mal tínhamos para comer. Nos finais de semana, Milton andava com seus irmãos para as tocadas da vida, sempre com um banjo debaixo do braço e ficava eu com nosso filho, fosse no ventre ou no colo, costurando vestidos e grinaldas para complementar a renda da casa.

Existem outras mais histórias nesses entremeios, mas isto é coisa para outra hora...


Ana Luiza Pereira

Memória contada por Berenice Caldeira Pereira (minha avó).

Amendoeira do meu tio

 E foi aqui que me criei:

Em meio às rodas de samba e seresta;

Música feita com vozes fortes, afoxés feitos a mão, violões de amigos, colheres de pau, chocalhinhos de arroz e batucadas de mesa;

Debaixo de uma árvore tão comum, em frente a uma simples venda;

Tudo isso corre por minhas veias e sinto falta desta época.

O "tio" de referência desta roda foi meu avô e o buraco que ele deixou não pode ser tapado.

Ficam as lembranças de sua amendoeira e o canto incessante de um rio, o Rio de Piracicaba (a música da família).

Saudades.


Ana Luiza Pereira

Contra-fluxo

Eles dizem 'autoridade',
Eu digo 'ditadura'.

Eles dizem jargões,
Eu observo atos.

Eles querem provas,
Eu quero política.

Eles dizem 'liberalismo',
Eu digo 'privatização'.

Eles não pensam e falam,
Eu falo e penso.

Eles leem e espalham,
Eu leio e comento.

Eles dizem 'doutrinação',
Eu digo 'educação'.

Eles dizem levianamente,
Eu digo criticamente.

Eles fazem o fluxo,
Eu o contra-fluxo.

Seguimos em caminhos diferentes,
Alguns em cada lado.

Alguns seguem em embate eterno,
Outros seguem montando e mostrando o caminho,
Caminho que acham e escolheram como certo.

Mas seja no fluxo ou contra-fluxo,
No caminho "certo" ou "correto",
O objetivo é um mundo melhor.

Portanto,
Seguir seu caminho e respeitar o próximo é fundamental em qualquer embate.
O desrespeito é motivo para guerras mesquinhas e autodestruição.

Se eles xingam,
Você observe,
Pois eles engolirão as próprias palavras.

Não dê motivos a quem não os merece.
Siga seu caminho e faça do mundo um lugar melhor.

Medo da morte

O que se fazer quando se tem medo? É difícil responder essa pergunta sem recorrer à resposta científica: ou corre ou se paralisa. Paralisar-se de medo e fingir-se de morto é uma tática cruel se pensarmos bem, já que o medo que nos paralisou é o medo da morte. Fugir, dar com sebo nas canelas, correr sem olhar para trás também não é uma das melhores táticas, já que estamos apenas adiando nosso pretensioso fim.

Afinal, quem não possui medo da morte? Quem não paralisou ou correu diante das diversas formas que a morte encontra para nos encarar? Dos animais mais irracionais aos humanos mais inteligentes, todos pensam em como prolongar a vida e suas amarguras. Criogenia, remédios, procedimentos médicos, medicina oriental - são todas formas de prolongamento de nossa dor.

Bem, o que eu quero dizer com todo esse papo fúnebre de vida e morte? Eu quero dizer que eu tenho medo. Medo de encarar a morte diante do luto que enfrento. Medo de ser da próxima pessoa na fila de Zé Maria. Eu não suporto a dor da perda e tenho medo de encarar a morte. 

Mas como enfrentar um medo constante de um sentimento tão abstrato e uma certeza tão clara (a morte é o fim do ciclo de uma vida)? Fácil, continue vivendo. Viva um dia de cada vez, sinta na pele o sol e a chuva que renova o ciclo da terra, resolva cada dia um problema por vez... Viva cada instante de forma única e não desperdice seu tempo com coisas supérfluas. Cada dia é um dia novo e a morte não pode nos parar até chegarmos ao nosso fim. 

Vá em paz, tia...

Há alguns anos, presenciei ao sepultamento de um dos meus tios-avô. Ele sempre falou pouco, era comedido e eu sempre o vi como uma figura altiva e de respeito. Mas não havia em si uma proximidade, o carinho que me levou ali era pela minha tia, sua esposa e irmã do meu avô, que seguiu o velório todo sentada ao lado do caixão rezando o terço em silêncio. 

Lembro-me da capela (a mesma de hoje), da sala, do caixão aberto e de nós conversando sobre o tio Ruy enquanto alguém cantava "Peixe Vivo" ao lado do caixão. Lembro de comentar como minha tia Aracy começou a lembrar minha falecida avó, em seu silêncio, oração e feição. 

Minhas lembranças, então, foram mais para o passado; quando, aos 6 anos, a mesma tia fez minha roupa de coroinha com a bainha especialmente grande para que eu pudesse crescer e só fazer ajustes no tamanho. Lembrei de como ela me chamava, docinho de coco, e de como ela brigava bastante comigo por não visitá-la sempre. Lembrei das orações de novena de natal em sua casa e das suas plantinhas no quintal que ela regava com muito carinho.

Lembrei... e o que mais marcou foi o exemplo. O exemplo da mulher forte que ela foi. O exemplo de conseguir ser fortaleza com silêncio e oração diante de tanta dor que a vida lhe dava. 

Hoje, eu dei adeus a essa mulher. Adeus não, mas um até logo. Porque eu acredito que um dia iremos nos ver de novo e ela vai novamente me agraciar com suas histórias e exemplos. Vá em paz, Tia Aracy.


Ana Luiza Pereira

Enlutada

 Segunda e minha cabeça já amanheceu cheia

Dei de cara com o chão antes que o sol raiasse

Meu instinto dizia que a semana seria incomum

E foi...

Dois tios, de primeiro e segundo grau.

Um, uma senhora com seus 90 anos que abraçou a morte como velha amiga.

Outro, um senhor acima de 70, com a cabeça tomada pela falta de lembranças e o estômago pelo câncer.

Escrevo, pois acho que não conseguirei me despedir...

Escrevo, pois acho que não irei aos seus enterros...

A responsabilidade de um adulto me impede de me despedir, seja em vida ou em morte.

Sinto-me frustrada, pois eu também quero isso.

Impondo minha vontade, viro uma grande pedra no sapato

De outras pessoas que querem que eu assuma as responsabilidades de um adulto.

Prefiro dormir...

Não é um sono dos justo,

É um sono de chateação, um sono de quem não quer chorar por isso.

Mas, ainda assim, eu choro, como estou chorando agora...

Choro, chateada e enlutada, por não saber dizer adeus 

E por não poder dizer adeus na hora certa.


Ana Luiza Pereira

Agosto

"Agosto é o mês do desgosto" - é o que sempre dizem. Eu acredito. Agosto traz lembranças dolorosas, lembranças que preferia esquecer, mas sobrevivem nítidas em minha memória.  


A cada agosto, renasce em mim um medo: reviver aquela parte da minha vida que eu chamo de negra; de ter um funeral para ir e não conseguir chorar por estar preocupada demais com os outros à minha volta. Eu não deveria guardar tanto... Deveria ter aprendido nessa época o quanto guardar é tóxico. Deveria me transbordar mais e deixar os outros de lado, mas não consigo... Se o mundo fosse dividido em caixas como "altruísta" e "egoísta", estaria mais dentro da caixa de altruísmo que sambando no meio das duas.


Mas, no final das contas, estou aqui: morta de medo de um futuro que não prevejo e machucada por um passado distante. A criança que observou e guardou tudo aquilo ainda vive, e chora dentro de mim, principalmente a cada mês de agosto.


Sinto-me exausta e infeliz por reviver esses momentos em minha cabeça.  "Durma. Amanhã é outro dia e você vai se sentir melhor" - já ouvi e menti para mim dizendo isso incontáveis vezes. Uma boa noite de sono não nos faz esquecer; uma boa noite de sono só nos distancia do dia que a ferida se abriu; uma boa noite de sono deixa a dor suportável de se aguentar.... Contudo, haverão dias... Dias que não importarão as boas noites de sonos e a dor se tornará tão forte como naquele fatídico dia.


E assim vou vivendo cada agosto da minha vida... Sempre com o gosto do desgosto que senti quando esta dor que me dilacera começou. 


Ana Luiza Pereira 

In patris corde, filii gaudem

O Papa Francisco instituiu desde de dezembro de 2020 o ano que é conhecido como “Patris corde” (coração do Pai), como uma forma de exaltar a figura de São José, figura tão importante para a Sagrada Família, mas pouco mencionada nas Escrituras. O que mais sabemos de São José foram histórias que sobreviveram às épocas desde a evangelização dos continentes: era Santo, o mais justo entre os descendentes de Davi, trabalhava de carpinteiro, ensinou o ofício a Jesus, era exemplo de honestidade e trabalho duro e morreu antes do primeiro milagre de Jesus nas bodas de Canaã. Dizem até que morreu nos braços do filho.

Por providência, ele não viu seu filho sofrer e morrer na terra, mas estava junto com o Pai Eterno quando isso aconteceu. Ambos pais de Jesus, ambos exemplos e ambos ensinam.

Durante a preparação da Páscoa, o coração de Jesus já estava triste e agitado. Uma semana antes, ele foi aclamado rei em cima de um burrico, com ramos de oliveiras e gritos de “Hosana ao Filho de Davi”. Ninguém sabia do que se passava no coração de Jesus, exceto o Pai Eterno.

Na Vigília Pascal, após a ceia, Jesus clamou para o Pai que queria que o “cálice fosse afastado”, mas entendia que a vontade de quem é Pai se sobrepõe a vontade de um filho. Jesus sabia que o Pai ensinava a todos os seus filhos, usando o filho mais amado como exemplo de cordeiro imolado. 

O Pai também estava lá e ouviu dizer “Eloi, Eloi, lamá sabactâni?” (“Meu Deus, Meu Deus, por que me abandonaste?”) e chorou ao último suspiro do filho amado, cortando as cortinas do templo e fechando os céus com nuvens.

Contudo, no coração do Pai guarda a alegria do filho. E não há alegria maior do que a Páscoa do Senhor e a Ressurreição de Jesus Cristo. O Pai e o Filho se tornam um nesta vitória sobre a morte caracterizada pelo sepulcro vazio. 

Todavia, esta mensagem de reflexão não serve apenas para mais um Páscoa que vivenciamos. Estamos em uma época pandêmica, onde sepulcros estão repletos de pais e filhos que perdemos para um vírus. Estamos dentro de nossas casas, rezando, pedindo e implorando para que este cálice seja afastado de nós e nossas famílias. Gritamos com raiva contra Deus Pai, perguntando o porquê de nos abandonar a mercê da morte. Acha mesmo que Deus não está triste? Ele é Pai e um Pai que ama seu filho, se entristece com a dor do filho, mesmo quando tem que ensiná-lo o caminho certo.

Porém, mais uma vez, Deus veio nos ensinar a ter esperança num sepulcro vazio e numa vitória sobre a morte. Uma Páscoa é mais do que chocolates e mesa cheia, é a esperança de uma superação de um momento de trevas que nos parece tão insuperável quanto pareceu a Cristo e que ele pensou naquela Vigília Pascal. Mas ele vigiou e foi feito a vontade de Deus, assim também devemos nós vigiar para não cairmos em tentação que a vitória chegará. A alegria do filho irá chegar no coração do Pai também.


Ana Luiza Pereira 

A toupeirinha

Há muito tempo, numa floresta, havia uma escola que reunia os animais mais adversos que por ali morava:m pássaros, onças, borboletas, crocodilos, tatus, bichos preguiças – todos tinham suas tocas e ninhos ali perto.

Um dia, uma pequena toupeira entrou na escola com uma sede por conhecimento, mas possuía uma grande vergonha da sua aparência e sua dificuldade, já que toupeiras são praticamente cegas à luz do dia.

A professora, uma jovem onça, fazia de tudo para ajudar seus alunos no dia a dia: tirava dúvidas, explicava milhões de vezes, colocava a matéria no quadro, dava a devida atenção a quem a chamava… E a toupeirinha sempre lá atrás, quietinha, sem nunca incomodar ninguém. Nem sempre ela enxergava o que estava no quadro, mas sempre prestou muita atenção nas explicações da professora.

Aconteceu que, um dia, por conta de uma conversa interminável na hora da explicação entre o papagaio, o crocodilo e o sabiá, a professora se irritou, rugiu para todos, até para o bicho preguiça que dormia. Então, ela decidiu dar um teste surpresa com toda a matéria que tinha acabado de falar e valendo metade da nota.

A maioria da sala se desesperou: a conversa tinha atrapalhado até quem estava querendo prestar a atenção na aula. Danada mesmo foi a toupeirinha, que sempre se manteve quieta e atenta, conseguiu fazer o teste sem demora de tão fácil. A professora corrigiu surpresa, dando-lhe um dez e parabéns. A toupeira, então, saiu da sala desfilando o seu triunfo.

Após a aula, a turma foi perguntar à toupeirinha como ela tinha conseguido terminar o teste tão rápido e ela simplesmente respondeu: “Eu sei me calar e prestar a atenção nos sons, por isso, sei quais sons são mais importantes que outros e é por isso que eu fui bem”


Ana Luiza Pereira

Ignorância é força?

        “Nós não precisamos de nenhuma educação” , disse a banda Pink Floyd em uma de suas músicas mais celebradas. Mas, o que seria educação? Os membros da banda Pink Floyd enxergam educação como uma ferramento de manipulação do pensamento da massa, ferramenta esta criada pelo Estado e distribuída entre os mais pobres.
Acredita-se no poder da educação como ferramenta transformadora, mas o pobre não tem acesso à mesma educação do rico. Assim, o rico consegue (se manter) o status de “ser pensante”, capaz de governar e ter poder, enquanto o pobre continua sendo ignorante.
Acredita-se no poder da ciência e do pensamento científico, mas, assim como descrito em 1984 de George Orwell, a ciência é danificada de todos os lados pela falta de subsídios e também vira ferramenta de manipulação da massa.  Neste livro, a ciência é usada para fins da Polícia do Pensamento que mantém os membros do Partido sob constante vigilância, portanto, pesquisas científicas subjacentes não interessam ao Estado e não receberiam subsídio suficiente para continuar a existir. Pode-se dizer que o mesmo acontece com o Brasil ao cortar o financiamento das instituições públicas de pesquisa científica, como o CAPES, assim, o dinheiro que sobra irá para as pesquisas que mais ajudarão o governo atual a se manter no poder, enquanto outras deixarão de existir.
Ao mesmo tempo, isso cria um efeito adverso: o pensamento científico adquirido na escola torna-se desacreditado pelas classes mais baixas, ignorantes pela falta de acesso à educação adequada. Esse é o Efeito Dunning-Kruger que explica como a ignorância torna a pessoa mais confiante e, por conseguinte, mais manipulável por não possuir senso crítico e informação. Logo, tal pessoa sob esse efeito é capaz de gritar a plenos pulmões que não precisa de educação, pois ela já sabe de tudo.

Ana Luiza Pereira