R.I.P.

- Me leva para o "patinho"? - perguntei com voz infantil, errando propositalmente a palavra "parquinho", como eu costumava a fazer na primeira infância.

Ele suspira, deixa sua Bíblia cheia de anotações de volta na cabeceira e diz solenemente: "Vamos!". Apostamos corrida, mesmo que ele nunca corresse, apenas andasse. Fazia isso para que eu sempre ganhasse e me ver sorrir. Como de costume, fui direto ao balanço e ele fez a mesma piada ao dizer que iria me balançar tão alto que eu conseguiria pôr a mão no topo da árvore mais próxima. Eu sorria e sempre pedia que ele me empurrasse para ir mais alto e conseguir pôr a mão. Ainda espero conseguir fazer isso, como um sopro de esperança infantil que ainda habita dentro de mim.

Às quatro estávamos de volta, era hora do meu leite que minha avó preparava e repassava pelo muro. Ainda era na mamadeira, mas ninguém sabia além da gente.  Ele contava uma história: as minhas preferidas eram da Branca de Neve ou João e Maria com vozes de cada personagem e risadas de Bruxa. Ele vivia misturando as histórias: um dos três porquinhos que salvou a Branca de Neve de ser engolida pelo lobo mau. Sempre ria com isso. Dizia que não era assim a história e corrigia, contando a certa. "Ah! Que história mais sem graça..." - retrucava. Tinha tardes que dormia ao pé da sua cama e tardes que ele pedia para esquentar seu dedo frio no meu sovaco. 

Contudo, as manhãs eram as mesmas: sentava-se na varanda com sua Bíblia e cantava salmos. Quando eu estava em casa por algum motivo, trepava na janela para ver por cima do muro. Seu silêncio e sua oração me tocavam, mesmo sabendo o que eram, não entendia como ou o porquê de me sentir tão hipnotizada em ver um homem repetir o mesmo ritual matutino.

Cresci. Chorei, e vezes ele secou minhas lágrimas e afagou minha cabeça. Era sempre o homem da porta ao lado com quem eu podia contar. Conversávamos sempre sobre tudo: novelas, filmes, história, sentimentos, plantas... E Deus. Tínhamos visões um pouco diferentes, admito, mas sempre respeitamos um ao outro sem se exaltar. 

Acordo em meio às lembranças hoje, coração apertado e lágrimas nos olhos do homem que muito me ensinou e nada pediu além de um sorriso e uma oração. A saudade de tais lembranças simples, puras e singelas vêm em ondas inexoráveis. Sinto falta de sua resiliência e de sua alegria. Sinto falta do homem que parecia uma rocha à todos, até para mim que fui uma mera vizinha. Faz tempo que ele se foi, meu amado intercessor, e em meio às lágrimas de saudade ainda desejo que descanse em paz.

Ana Luiza Pereira
Uma homenagem feita pelos 5 anos de falecimento de Augusto Faria, meu vizinho, meu "Tio Augusto".

Ode à Erato

"χαλεπὰ τὰ καλά" [Nada bonito sem luta.] (Platão)

Um ode à Erato, musa diretriz da vida e do amor,
descendente da Mnimosis e dona dos lavores 
                                                                                                                mais belos rapsodiais.
Não ouço mais os aedos da filha do Crônida.
Erato calou-se dos seus lavores belos
aos ouvidos dos grandes e célebres rapsodos
"Donde vem seus cantos belos que o silêncio
se ouve agora na sua boca fechada?"
Há mais tristeza nesses tempos
em que Erato aprisionada em
apaixonadas redes dos pretendentes 
                                                                                             da filha do Crônida.

Bravo guerreiro, este, que desafiara
os mais nobres deuses ao aprisionar
o aedo da filha da Memória para si.
Feras e pestes, a raiva dos deuses sobre
o corajoso Aqueu pairá sem falta.
Alvedrio, ouça, querido aqueu,
para que os seus músculos descanse
                                                                                                           no leito da deusa Afrodite;
sede ardil entre os homens e os deuses,
conquiste a confiança do Senhor do Olimpo,
se quiseres desposar a Musa, filha de
Mnimosine e Zeus, Senhor do Olimpo e 
                                                                                                    descendente de Titã.

Porém, não permitas nunca que o aedo se cale
na boca do poeta que da Musa espera o canto.
Com Erato o aedo é mais belo e áureo
como o mais puro amor da Pandemônia.
Vá, bravo aqueu, aprisione eros em suas
corajosas mãos e inspira a filha da Memória
a cantar mais belos sussurros aos rapsodos
                                                                                                        do mundo sem falta.

Ana Luiza Pereira
Escrito por volta dos anos 2014.

Pesadelo

A noite estava escura, um verdadeiro breu. No céu não tinha estrelas e nem a lua para alumiar, apenas as luzes dos postes clareavam o meu caminho. 

Já estava na minha rua. Minha casa estava logo ali à frente. Comecei a brincar comigo mesma enquanto andava reto, mochila à frente, sandália nos pés, relógio no pulso.

Na outra esquina saiu alguém, um homem vestindo casaco largo com uma listra verde claro grossa no meio de duas brancas, calça jeans claro, tênis escuro, cabelo castanho bagunçado e bigode no rosto. Nunca tinha visto aquele homem sem equilíbrio ao andar, mas ele me cheirava a perigo.

Tentei apertar meu passo, já estava no meio da rua para chegar em casa, mas acho que não saí do lugar. Via aquele homem vir em minha direção e o meu desespero aumentava. Ouvi um carro atrás de mim e fiz sinal para parar.

Graças a Deus, o golf prata parou. Era Zane, uma conhecida minha que dirigia, e dizia: "Entra rápido!". A porta detrás do banco do motorista, estava aberta e me joguei ali fechando logo a porta. Tinham mais duas ali, todas mulheres e todas conhecidas. Ela acelerou e ele também, mas ao perceber que me perderia ele puxou uma arma da calça e começou a atirar.

"Obrigada!" - dizia antes de acordar e ver rostos de anjos nas sombras. Será que morri? Olho para o lado e meus irmãos estavam ali dividindo o colchão comigo, respirando e vivos. Respiro aliviada. Ainda não morri, apenas sofri o susto da morte de alguém. E volto a dormir.

Ana Luiza Pereira

Vulcão

Sou um vulcão
Adormecido pelas friezas do dia-a-dia
Mas em constante perigo de erupção
de lava que lava a ferida

Sou constante raiva
Constante perda
Constante queda
Constante dádiva

Adormecer é meu mecanismo de não machucar
não sofrer
não ferir
não gerir
não perder
não chorar

A lava corrói dentro de mim querendo sair em forma de palavras
em forma de raiva
em forma de lágrimas
de forma incisiva

Mantenho-me quieta
parada
fechada
concreta

Por dentro há torpor
há ódio
há o decompor
de um choro melódico

Tudo isso é lava
vívida e remexida dentro do vulcão
Vulcão que sou eu
E o que sinto no meu coração

Ana Luiza Pereira

Conto dos irmãos

Era uma vez, três filhos de um mesmo pai e uma mesma mãe, cujas características de cada eram bem particulares:

A primogênita era uma amazona, guerreira cunhada no fogo e brasa no código das amazonas que perdeu sua cabeça e coração para um humano qualquer que a fez sofrer.

O segundo, o líder, cuja liderança jamais exerceu. Escondia-se na decisão de outrém e hoje tem dificuldades de liderar seus filhos.

A terceira, a sábia. Pouco se sabe sobre ela, mas dizem que aprendeu com seus irmãos o que deve ou não fazer. Contam as lendas que sua sabedoria é acompanhada de uma língua afiada e sincera, capaz de fazer chorar quem não souber ouvir a verdade.

Mesmo sendo irmãos, cada um tinha sua própria história, seu próprio caminho seguido:

A amazona, maior guerreira que esta cidade já viu, não soube vencer suas próprias batalhas interiores e particulares. Apaixonou-se por um homem comum e a sua inflência o transformou em um grande cavaleiro em batalhas. Contudo, um homem não é um cavaleiro enquanto não seguir o código de cavalaria, tornando-se apenas um arsenal humano. Por não seguir nenhuma vez o código, o coração da amazona se despedaçou.

O líder sempre teve seus instintos. Suas ações falavam mais que as palavras de incentivo que pronunciava. Contudo, tudo desmoronou quando pregava aquilo que não praticava; a verdade veio à tona e tudo o que restou ao líder foi a decisão de fazer a coisa certa. Desde então, uma parte de quem ele foi ainda vive e briga, de vez em quando, com a parte que se esconde na liderança de outrém.

A sábia, por sua vez, é eremita. Sabe da dor que pode causar e guarda muito para si. Reclusa em seu mundo, ela chora pela dor de guardar aquilo que a faz mal, mas se sentiria pior em ver que fez outros sofrerem pela verdade até então não dita. Não sabe controlar o tom de sua voz e nem a agressividade da sua língua, por isso, é sempre mal-interpretada. Prefere sempre a reclusão e a dor que a própria verdade dita e escancarada, mesmo sabendo das consequências que teria para si.

(Esta história ainda não tem um final claro, então a partir daqui serão suposições de uma autora em delírio de escrita:)

Mesmo com todas as diferenças e com todos os tabus, os irmãos ainda continuam unidos e continuarão mesmo com todas as falhas. Brigas? Sempre. Quais irmãos não brigam ao discordar com o outro? Mas o amor prevalece apesar da dor de cada um. As histórias podem ser diferentes, mas culminam no final do "e foram felizes para sempre", juntos, como irmãos.

Ana Luiza Pereira
Texto escrito em algum momento do ano passado.