Consciência

A consciência não tem me "estragado".
Vendo hoje coisas sobre mim e o que sinto, percebi:
Escreve aquele que tem desejo de conexão.

O tempo me fez perceber que eu nunca estive só,
Estou rodeada de conexões como um átomo tem prótons, nêutrons e elétrons.
Então, por que sinto?

Sentir demais afeta as conexões.
Acha que eu não sei que tenho uma mãe que reza o terço baixinho pensando na razão que me fez chorar baixinho enquanto dormia?
Um namorado que deseja muito saber e entender o que sinto sento que não há motivos para isso?

O tempo me envelhece e me dá a consciência que preciso de ajuda.
Sou jovem demais para desistir da felicidade que me foi reservada.
Tenho consciência para ir lutar.

Consciência que não tinha,
Que negava e que se culpava por não lutar.
Essa é quem fui.

Outro ensinamento que o tempo me deu: o sucesso não define quem você é, apenas o fracasso.
Você segue em frente depois de um sucesso, porque ele não tem nada a oferecer além da glória.
O fracasso é a sua queda, é o ensinamento que te molda para a glória e, então, você seguirá em frente.

Estou curtindo meu fracasso agora.
Procuro nele o ensinamento que ele tem para me oferecer.
E, um dia, saborearei novamente a glória de um sucesso.

Ana Luiza Pereira
Texto escrito em algum momento do ano passado.

Última peça

Existe um pequeno curta de animação da produtora Mad House chamado "Death Billiards"que culminou em um anime de 12 episódios chamado "Death Parade". Tanto o curta quanto o anime são lindos, explêndidos, caracterizados pelo suspense psicológico. 

Logo que eu vi, ele me marcou; a música de abertura dançante e a catárse de sentimentos da música de encerramento. Lembro da frustração de sempre esperar uma semana para o próximo episódio e de rever e chorar sempre nas mesmas cenas.

Ambos são baseados em lendas sobre "o que acontece quando a gente morre?". Segundo essa versão, você para em um lugar parecido com um bar, onde o barman que te serve é um juiz e precisa escolher, secretamente, baseado na sua essência se sua alma é digna de reencarnar ou cair no vazio. Carregado extremos emocionais de personagens mortos julgados por um juiz aparentemente sem emoções; digo que é essencial a todo o psicólogo ver ambos, pois nada mais é do que análise de personagens no seu pior momento. Afinal, é na morte que descobrimos nossa essência? Quem, de fato, somos? Há teorias que dizem que sim.

Eu sei o que acontece durante a morte e sempre há duas versões: ou você aceita a vida que teve, mesmo com todas as mazelas e todas as alegrias ou você se apega à vida. Não há outra escolha. Os que desejam viver com afinco, ficam aqui até mesmo depois da própria morte e os que aceitam viram lembranças lindas. 

Contanto, por que não aceitar a morte? Ela é a última peça de nossas vidas, o último ato, pois a cortina se fechou para você. O que você vai levar da vida? O fim sempre é dramático, pois é um fim. Mas, será que a sua história merece um recomeço? Toda a vez que vejo de novo e de novo esse anime me pego perguntando isso. Perguntas filosóficas retóricas para tentar responder se eu mesma seria digna de pena. 

Entre tantos eus, não sei qual assumiria na hora de minha morte. Talvez, ninguém veja meu pior lado, apenas eu pense que o vi e o conheço. Talvez, eu não seja digna de pena por ser tão triste e contaminada que as pessoas estão cansadas de darem chance para alguém como eu. Talvez... Eu desperdicei minhas chances? Ainda consigo mudar? Será que sou mesmo a melhor versão de mim? Não... Mas tento. Será que vale tentar? Que isso vai me dar algum crédito no final, alguma felicidade ou esperança? Não sei. Talvez eu só descubra quando for a minha vez de observar a última peça.

Ana Luiza Pereira

Caligrafia

Mexi em coisas antigas hoje: documentos, livros, papéis... Coisas frágeis, delicadas, desgastadas com o tempo.

Na antiguidade dessa fragilidade, observo sua caligrafia: cada volta, cada subida e descida de consoantes dentais, velares e palatais, a letra levemente inclinada como se preguiçosa. Um perfeito desenho sobre um papel que fora branco e pautado.

Ali, no lugar de uma melodia de uma música de ninar, estava um poema, um desenho e seu nome. Em outra folha, desenhara as notas em melodia. Pergunto-me se um dia ensinara essa canção a alguém.

Minha atenção se volta novamente para as letras preguiçosas, as invejo. Trabalho perfeito sem o mínimo de esforço. Enquanto eu, me esforcei para ter letra igualmente perfeita e falhei.

Suas curvas me remontam a saudades cada vez mais distantes. Queria te ver, mas só consigo ouvir a melodia de ninar e os conselhos escritos em sua perfeita caligrafia.

Ana Luiza Pereira

O peso do mundo

Acordei hoje com o peso do mundo sobre meu corpo. Olho ao redor para ver onde está: cadê o sentimento que me prende à cama? Cadê o amor que motiva a levantar?

Não vejo. Não sei onde está, mas sinto estar ali, onde sinto e não vejo. Talvez se tivesse outros olhos ou quem sabe outro coração...

Faço um esforço quase inumano para levantar, caso contrário, fico aqui o dia todo dormindo. Quero sonhar com coisas boas e não ficar presa com o sentimento do mundo pesando sobre meu corpo.

Respiro e encontro forças para mais um dia, mais uma vez. Um passo de cada vez e assim tilho o meu caminho.

Ana Luiza Pereira

Carta à criatura indecisa

Cara criatura,


    Estás parada no meio do caminho há tanto tempo que creio que já tornaste pedra com limo. “Sim” ou “não”, “certo” e “errado”, “esquerda” ou “direita” - são todas escolhas que não fazes. Ficas à beira da estrada para seguir o fluxo de uma vida que não é a tua.
    Escolhas são difíceis e a pior parte é a consequência - disso tu tens muito medo. Contudo, toda escolha feita com convicção é mais suportável de lidar com as consequências.
Estou cansado de te ver parado no meio do caminho de tua vida. A escolha deve ser feita ou a farão por ti.
Mesmo que queiras parar e analisar, pensar delicadamente em cada detalhe e circunstância, o tempo passa. A escolha é urgente e até se abdicar é uma escolha.
Faça.
Aja.
Movimente-se.

Tire o limo e não sejas mais pedra no meio do caminho, pois alguém vai passar e poderá tropeçar em ti.

Ana Luiza Pereira