Sonhei

Uma vez fechei os olhos e vi a mim mesma em muitas faces: a primeira de todas estava gritando e tudo quebrava, era a raiva pura e raiva de mim. Mais a frente, estava em posição fetal, escondia o rosto e não conseguia falar por chorar e chorar sem motivos aparentes, ou melhor, por motivos que ninguém é capaz de entendê-los. Um pouco adiante, vi-me morta; estava enforcada pelos meus próprios sentimentos e, por isso, não respirava, porque eu estava morta. A última de mim estava esfolada, não tinha rosto, pois não tinha pele, era apenas carne viva e a carne ardia nos cortes que um dia me fiz.

Quando voltei a mim, meu rosto estava tranquilo, mas meu íntimo em desespero. Ninguém sabia. Ninguém ousava perguntar: você está bem? Sim, sim - falo mentindo - é apenas um cisco que caiu no meu olho. E o silêncio volta a nos afogar em pensamentos e sentimentos que queremos evitar. A vida continua na pressa do dia-a-dia. E é assim um dia de crise da depressão: ninguém sabe, ninguém vê.

É assim que somos: enclausurados em nós e não compreendemos as mazelas do outro. Sofremos isso e aquilo, mas demostrar sofrimento é fraqueza. Então somos assim: íntimos vazios e desesperados com rostos mascarados numa tranquilidade falsa e risonha. Até quando viveremos vazios e deprimidos?

Ana Luiza Pereira

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