Apenas sou


Não sou tudo, mas não sou nada. 
Sou apenas alguém. 

Um alguém redigido nas palavras que acredito serem fiéis e verdadeiras aos meus sentimentos. 
Um alguém preso na linha tênue do imaginário e do real tentando transpôr o que sente e o que vê. 
Um alguém que vive por metáforas e se comunica através delas. 
Um alguém que observa e nem sempre participa. 

Um narrador dos segredos intrínsecos do ser mais confuso da terra: o homem. 
Um narrador personagem que não sabe o que quer e o narrador observador que sabe demais. 

Sou apenas eu, tentando ser você e te descobrir por meio das palavras mais tocantes e vívidas. 
Sou apenas seus sentimentos e suas palavras. 
Sou um parasita na sua mente desvendando o mistério humano onde Sócrates e Platão não conseguiram mais transpassar seu pensamento. 
Sou a conversação de filósofos internos, onde quem ganha nem é sempre a razão dos fatos. 
Sou transposição dos medos e a vivência da revolução. 
Sou desejos dos prazeres e as mudanças de hábitos.
Sou o segredo que ninguém sabe e a morte que ninguém viu.
Sou precedentes e as más intenções de cada um.
Sou aquilo que você vê mas não o que você pensa ou diz.
Sou uma criança morta nas dores de amor e viva nas alegrias da vida. 
Sou um esqueleto humano enfrentando preconceitos e compartilhando histórias. 
Sou um excluso interno e incluso externo na sociedade que me cerca. 
Sou a opinião de alheios que, às vezes, lhe agrada, outras lhe entristece. 
Sou a decepção da família que não convivo.
Sou a família dos meus amigos e o amigo da minha família. 
Sou a cabeça dura maleável com o tempo. 
Sou lágrimas e suor do rosto que não tenho e o mistério das vozes que me falam.
Sou personagens e figurantes de histórias contadas vividas por alguém que não sou eu.
Sou o passado e o presente das memórias. 

Não importa quem eu seja, apenas sou... 
Mas não sei ser aquele alguém que se delimita.

Ana Luiza Pereira
Texto incluso no livro Raízes literárias 2 (2012).

Um comentário:

  1. Posso dizer que, depois de muito tempo sem visitar seu blog, você melhorou muito. O tempo não te deixou acomodada, ele te fez bem, deixando seus escritos mais maduros, agora, falando como quem tem propriedade nas palavras.
    Parabéns, de verdade.

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