Um Diário De Uma Alma - O Reencontro



Era ele. Mal podia imaginar... Ele me olhava como se eu não fosse desse mundo, ele não me reconhecia, mas minha luz o cegava. Sua luz... era tão ofuscada.
“Nada mudou... Você é o mesmo! O mesmo rosto, o mesmo jeito... a mesma luz ofuscada que eu tentei reacender.” – pensei.
- Oi? – tentava ele se comunicar, me sentia um E.T. em meio ao inferno.
- Kaique? – não resisti, tinha que tirar qualquer dúvida que meu coração podia ter que aquele não era ele.
- Sim... – respondeu ele. Minha vontade de chorar perante seus pés foi imensa, fazer-lhe lembrar de quem eu era, o que passamos, as promessas que fizemos... Mas eu devia me lembrar do porquê que estava ali... – Me conhece? Qual o seu nome criatura divina? – perguntou ele pasmo.
- Sou conhecida como Beatriz, mas como humana, me chamavam de Kara. – disse. Eu não conseguia mentir para ele, nunca consegui. Era sempre assim: não conseguia esconder o que acontecia comigo, o que me abatia, me preocupava, não conseguia mentir, xingá-lo e, mesmo que por muitas vezes eu quisesse e fosse do meu feitio, eu não conseguia brigar com ele. Era mais forte... Só conseguia amá-lo. Amá-lo e sorrir com ele. Seu sorriso me alegrava, me consolava... Mas eu nunca entendi porque éramos assim.
- Estou aqui para guiá-lo até o purgatório e o céu, aonde viverá a eternidade de sua vida em paz e ao lado dos anjos. – disse.
Ele me olhava maravilhado. Eu realmente me sentia uma E.T. ou que se eu estivesse feia, cheirando mal... Enfim, me achava anormal.
- Venha, temos muito que descer. – disse estendendo-lhe a mão.
Ele pegou-a. Minha vontade era de abraçá-lo como nunca abracei ninguém, e chorar em seu ombro, tentando de maneira tosca que ele me consolasse.
Descemos. O silêncio pairava pelo ar. Meu coração estava inquieto... eu tentava ao máximo me controlar. Tentava não olhar sua face, ela me remetia a perguntas como: “o quanto de dor que ele sente? Será que posso apaziguar seu coração?”. Seus olhos fúnebres me entristeciam, aquele silêncio me corroia, mas sua presença me alegrava. E, nada mais me importava se ele estivesse ali, do meu lado, para sempre.
Quando chegamos ao rio, ele havia mudado. Muitas almas sanguinárias estavam por ali manchando, poluindo aquele rio de almas de vermelho. Mais almas estavam a agonizar de dor, seus gritos aflitos eram ensurdecedores...
Estava ali um barqueiro que guiava e monitorava as almas do rio e uma Parca gorda e curvada. Ele era magrelo, puro osso eu diria, com uma capa preta até os pés e que cobria seu rosto de crânio rachado. A Parca era gorda e corcunda, sua voz era fina e irritante, sua pele era podre e ela só tinha um olho que compartilhava com suas irmãs Parcas que não estavam ali.
Aproximei-me para pedir carona naquela embarcação.
- Com licença. – pedi.
- Ora, ora. Quem há muito não o vejo, barqueiro? É a alma que foi salva por Uriel... Eu tive o grande prazer de tecer o fio de sua vida, sabia Kara? Mas de que adiantou? Você foi salva! Não agonizas aqui. Então, o que fazes aqui? – disse a Parca.
- Vim falar com Minos. Agora é minha vez de salvar alguém da aflição que é o inferno. – respondi.
- A quem vieste salvar? – perguntou Décima.
Apontei-lhe Kaique.
- Perdes seu tempo, querida. Este não tem salvação. Eu lembro bem de quando teci seu fio da vida... Puro ódio e sangue. Certamente, ele ajudaria as almas assassinas deste rio a manchar mais de vermelho. – disse.
- Eu acredito na bondade das pessoas. Vou até os confins dos mundos, se for preciso, para salvá-lo. – disse fitando Décima. Ela percebeu minha secura com aquele assunto e se afastou de mim.
Vir-me-ei ao barqueiro e pedi-lhe:
- Poderia nos levar até Minos?
- Você e a Parca? – perguntou-me.
- Não. Eu e a alma que irei salvar. – disse.
- Você sim, mas ele terá que ir com a correnteza deste rio. – disse-me.
- Suplico-lhe, barqueiro. Não tenho tempo a perder... Já perdi tudo que amava! Não me faça perdê-lo também...
- Tudo bem... Mas quero algo em troca. – disse o barqueiro me analisando.

Continua...

Ana Luiza Pereira



O Valor de Um Sorriso (escrito por Anônimo)


Não custa nada e rende muito.
Enriquece quem o recebe,
sem empobrecer quem o dá.
Dura somente um instante,
mas seus efeitos perduram para sempre.
Ninguém é tão rico que dele não precise,
ninguém é tão pobre que não possa dar a todos.
Leva a felicidade a todos
e a toda parte.
É o símbolo da amizade, da boa vontade.
É o alento para os desanimados,
repouso para os cansados,
raio de sol para os tristes,
ressurreição para os desesperados.
Não se compra nem se empresta.
Nenhuma moeda de ouro
pode pagar o seu valor.
Não há ninguém
que precise tanto de um sorriso
como aquele que não
sabe mais sorrir.

Anônimo

Um Diário De Uma Alma - Suicidas


Cai novamente. Senti como se a Morte me levasse até lá... Era imensa aquela sensação de Dejá vu.
Ouvi a voz suave de Radamanto sussurrar que ele não iria me guiar; que ele voltaria, mas que Lúcifer não estava ali.
“Menos mal...” – pensei só por ouvir a parte de Plutão.
Caí. Os portões do inferno estavam a minha frente: grande demais para que eu pudesse empurrá-los, grossos demais para que eu pudesse ultrapassá-los...
“E agora?” – pensava. O desespero batia à minha porta...
- Sou uma alma iluminada, saberei o que fazer... – disse correndo ao encontro do grande portão.
Nada. Nada conseguiu movê-la, nem sequer arranhei ou consegui ultrapassá-la como nos quadrinhos.
O tempo passa... E eu não tinha esse tempo para perder.
Procurei algo que pudesse abri-la, uma maçaneta, talvez. Mas nada encontrei.
O tempo passa...
O desespero estava à porta de meus olhos... Comecei a bater àquela porta loucamente, até que... um demônio abriu-a.
Corri desesperada para dentro do inferno, tinha que encontrá-lo! Eu precisava! Corri antes mesmo que os guardas dos portões me parassem e me perguntassem o que faria ali. Eles até que me seguiram, mas eu corri tanto que os despistei facilmente.
Quando dei por mim, não sabia onde estava e qual caminho seguir. Eu só tinha a certeza que tinha que seguir e tinha que ser rápida, pois um passo em falso nos trancaria nós dois no inferno.
- Por que nada nesta minha vida foi fácil? – disse me sentando ai mesmo – Sempre tive que cair, levantar, persistir e desistir? Por que nada é de “mão beijada”? Tudo na vida e na morte precisa de dor, lágrimas e sofrimento? – indagava-me tentando achar um caminho entre as árvores que já foram suicidas.
- Talvez porque não damos valor àquilo que seja dado a “mão beijada”, talvez porque tudo que se é conquistado nos dá orgulho, ou, talvez, porque algumas pessoas gostam de sofrer, sentem prazer em ver as pessoas chorarem, sentem prazer de chorar por futilidades... – respondeu-me uma alma suicida em forma de uma árvore horrenda.
- O que houve contigo? – perguntei.
- Sou um suicida, este é o meu lugar. – respondeu.
- Por quê?
- Tenho que sofrer nas mãos das harpias para pagar pelo meu suicídio... É o que todas as árvores aqui fazem; à noite agonizam de dor pelas garras das harpias em nossas cortiças. – disse.
Chorei. Ele iria ser assim... Eu não queria que ele se tornasse assim.
- Por que choras doce alma? – perguntou a árvore.
- Porque alguém que amo está predestinado a sofrer aqui; como uma árvore suicida. E eu não quero isso... Vim aqui, até os confins do inferno, com a missão de salvá-lo, mas a cada lugar que olho, eu perco as esperanças de conseguir... O tempo que me deram passa, e eu não posso perdê-lo... – expliquei.
- Entendo... – disse a árvore com um tom de piedade.
- Eu tenho que prosseguir... – disse cambaleando ao levantar. – Tu sabes por qual caminho eu devo seguir até chegar a Minos? – perguntei.
- A oeste. Logo chegarás ao rio de almas, e as Parcas estarão lá para guiar-te até Minos. Boa viagem alma reluzente. – disse a árvore, com certeza, se fosse humano, ele sorriria a mim.
- Obrigada. – agradeci, retomando meu caminho.
Logo saí do labirinto de árvores achando um caminho por entre elas. Tinha certeza que se seguisse por ali, chegaria não só a Minos, mas também a Kaique.
Comecei a andar, afinal, seria longa aquela caminhada... Mas uma voz me chamou, vir-me-ei para ver do que se tratava, até que...

Continua...

Ana Luiza Pereira


(A)Normais


EU SOU DIFERENTE. Vivo loucamente esta tediosa vida.

Fujo das "normalidades" por opção. Cada um com seu cada um.

Faço a moda, minhas roupas... Normalidades não está mais na moda.

Meu estilo é de acordo com o que penso, amo e critico. Por isso, ele muda constantemente, assim como eu (quando não estou satisfeita, sempre mudo de opinião e jeito).

Vejo os "normais" serem normais. Terem seu padrão de pensar, agir, amar e criticar. Sua moda e suas músicas são TOP. Mas só são TOP por serem tão normais que banalizaram, e todos os que ouvem, gostam e, por gostarem, dizem que amam.

Mentira dos normais.

Os anormais, assim como eu, amam de verdade o que ouvem, fazem sua moda, pensam e agem de acordo com que julgam ser certo, sendo este "certo" dentro ou fora dos padrões normais.

É assim que sou. Vivo muito bem assim, obrigada. E, não tente me mudar, você não vai conseguir. Isso só me dá pena... Pois quando os anormais dominarem, quem serão os normais para imitarem?

Ana Luiza Pereira


Confesso


Lágrimas e silêncio. Por tantas vezes chorei baixinho para que você não ouvisse e se preocupasse. Lágrimas de dor, de chateação. Sim, por muitas e muitas vezes senti dor por te amar; a dor da distância é a principal. E sim, já me chateei várias e várias vezes. Mas nada que  momentos de reflexão me disse a resposta daquilo que tenho certeza: Eu te amo.

Já cogitei a hipótese da loucura, confesso. Mas se ser louca  é ser feliz prefiro ser louca e feliz ao seu lado. Confesso já ter cogitado a hipótese da separação e depois tentar te esquecer. Mas meu respirar não teria sentido sem a sua existência.

Meu infinito... ele teve endereço certo no instante que te achei. Meu mundo... ele achou a sua respectiva órbita no instante que achei meu astro rei: você.

Enfim, você é meu TUDO (deves estar cansado de ouvir isto), mas por ser meu TUDO, meu medo é de ser roubado e eu voltar a ser um NADA.

Sinto ciúmes; principalmente de todas que podem estar do seu lado enquanto milhas nos separam. Me preocupo; só vendo você bem que eu estarei bem também e meu coração terá paz.

Mas, confesso, eu não sei mais o que pensar. Estava deixando você me guiar com sua luz e amor, mas nem isso minha cabeça ciumenta deixa mais.

Então, confesso a você: meu amor por você não está mais nas suas mãos, deixei-o com o destino. Se me amas de verdade, vá buscá-lo o que te pertence. Com certeza, estarei aqui. Te esperando, com um sorriso nos lábios pronta para recompensar seu esforço.

Ana Luiza Pereira