Ouça o que eu digo

Ouça o que eu digo:
Este século vive um grande mal.
Qual mal?
Um mal à espreita.
Os maiores males de um século vivem dentro daqueles que constroem a história do mesmo.
O mal não tem forma, face, lugar, cor, religião...
O mal só existe, 
resiste, 
insiste...

Ouça o que eu digo:
O bem é mais difícil de se encontrar.
Para que exista o bem,
necessita-se de sua face reversa,
contrária,
contraditória.
O bem não tem moradia, pois é andarilho.
Ora, se o mal mora em nós, o que o bem é além de revolução?

Ouça o que eu digo:
Estender a mão é mais difícil que apontar o dedo.
Qualquer ato de bondade é revolucionário,
pois o mundo vive um grande mal.

Ouça o que eu digo:
O maior mal do mundo não é a tecnologia,
mas quem a usa.
Não é a religião,
mas quem a prega.
Não é o poder ou o dinheiro,
mas quem usurpa.

O maior mal do mundo é o ser humano,
ser nojento,
repulsivo,
doentio e doente.
Ser que se julga consciente, mas não usa a consciência,
não ajuda o mundo, o outro e nem a si próprio.

O mundo corre perigo com esse "mal do século"
e não há muito o que se fazer, 
pois a doença se espalhou rápido demais.
Ouça o que eu digo.

Ana Luiza Pereira

Boas-vindas, novamente, velha amiga!

Boas-vindas novamente, velha amiga!

Quanto tempo faz? Ultimamente você só tem passado por mim e ido embora. Deixa seu rastro de raiva, (auto)destruição e solidão profunda em sua passagem e eu sinto, como um cordeiro manso recebendo pauladas do abate.

Fazia tempos que você não me puxa pelo pé, afundando-me na areia movediça dos meus piores sentimentos. Fazia tempo que não escrevia sobre isso com caneta, papel, suor e lágrimas. Recordo-me dos tempos áureos, em outrora, quando essa prática me era recorrente. Escrever me fazia bem e eu sinto falta dessa paz... Pena que ela só é acompanhada da sua tormenta.

Sei que não está feliz com o meu silêncio, esse gelo que dou era para demonstrar o quanto fiquei forte mesmo com você me abalando profundamente. A raiva? Eu sinto. Esmurro paredes e chão até passar. A dor? É real. A angústia? É vívida. Retira-me dos mais doces sonhos, tira meu sono, minha fome, a vontade de viver e a capacidade de respirar.

Estou pedindo mais ajuda dessa vez. Você é grande demais para continuar combatendo sozinha. Contudo, você vive à espreita dos meus piores momentos para me arrebatar de volta à sua tormenta.

Posso te tratar como velha amiga, pois já conheço seus truques e artimanhas. Não existe um pó de pirimpimpim que possa me salvar de ti, mas existe a ação e a escolha. A escolha de dizer "NÃO". Dói escolher ir contra sua corrente, ainda mais porque é uma escolha diária e estou cansada dela. Porém, ninguém pode escolher por mim.

Sou fraca e vou me dar a chance de fraquejas, chorar, berrar e surtar sem problemas ou julgamentos, mas a luta continua no dia seguinte e vai continuar até o fim dessa vida. Não haverá vencedores nessa guerra, lutaremos até à morte e morte por exaustão. Contudo, não permitirei você vencer esse combate. Se prepare para o "até logo".

Ana Luiza Pereira

Cotas

No meu sangue não há cotas.

Sou misturada de mil raças e ainda tem espaço para mais umas,
Miscigenada desde os índios e colonizadores imigrantes desta terra.

Tenho o sangue de tanta gente 
que a percentagem de cada lugar seria quase a mesma,
Me caracterizando ainda mais brasileira

Tenho o sangue do mundo e ninguém tem o sangue igual ao meu.
Quando eu tiver descendentes, ainda assim, o sangue não seria igual...
Será um sangue mais misturado, 
miscigenado, 
mais brasileiro.

No meu sangue não há cotas, 
mas há sangue.
Sangue dos verdadeiros donos desta terra:
Todos massacrados,
torturados,
estuprados.
Meus cabelos iguais à índia que teve que casar com um colonizador,
à força "do amor".
Meu sangue me caracteriza filha
de uma nação onde a madeira que deu o nome de seu país
tem a mesma cor da pele dos verdadeiros donos desta terra.

Meu sangue também tem senzala e casa de engenho.
Também tem o som abafado dos tambores
e banquetes em casas de fazenda.

Meu sangue não há cotas, 
mas tem história para contar...
História escrita com o próprio sangue
de pessoas que poderiam ser da família, um dia.
Sangue de presos e torturados,
silenciados
e sangue de torturadores com as mãos no fuzil sujas de sangue.

Meu sangue não há cotas
e tem mais história de imigração 
que as páginas de livros de história.
Minha pele não é branca, mas é a cor da pele que morreu de fome,
morreu de guerra,
morreu no sol.
Vislumbrou uma oportunidade de tentar ser feliz em outra terra 
e tentou.
Minha pele tem a cor de quem trabalhou desde pequeno no sol
e tem mãos calejadas e grossas.

Meu sangue é de imigrantes
de vários países colonizadores
e de países colonizados,
sofridos,
misturados.

Meu sangue não há cotas
e, se tivesse, 
eu não seria filha do Brasil.

Ana Luiza Pereira

Imigrantes

Sou barro, venho dele e volto para ele
Carrego a marca da emigração
E para a imigração, vou voltar...

Ana Luiza Pereira

Realismo

O realismo do corpo
A cara pensativa
A pele arrepiada
Os pelos à mostra
O sangue no rosto
O vívido olhar de raiva
E o pensamento de quem sabe o que estar sozinho

Tudo isso representado em esculturas
Que parecem mais humanas que nós
Mais vívidas e com mais histórias para contar

Por que, afinal, o que define o ser além do real?
Do toque
Da história
Da experiência e vivência
Do amor
O que nos falta em amor, estátuas como essas a representam

Nós somos a amostra da falta da arte
E elas meras espectadoras de nossa decadência
Isso é o realismo
Ou melhor, a merda da realidade que vivemos. 

Ana Luiza Pereira