Mais uma sobre saudade

Todos os anos, nesta mesma data, eu escrevo.
Escrevo para suprir a saudade que sinto,
escrevo para não chorar.
Às vezes demora minutos, horas, outras demoram dias...
É difícil escrever quando lhe faltam palavras o suficiente para descrever.
Palavras não constroem corpos capazes de abraçar-nos nas noites geladas de inverno.
Na verdade, palavras só constrói passados.
Lembranças que se tornam distantes e sofríveis.
Lembranças que sorrimos e desejamos revivê-las.
Só as palavras e as lágrimas me restam.
Esta semana toda eu chorei pela falta de um corpo no meu leito,
de um beijo de boa noite, uma música de bom grado e um conselho de boa mãe.
Esta semana toda imaginei como seria se ainda pudesse conversar com esta pessoa que se foi.
Por mais que a minha mente tenha se esvaziado e se perdido no tempo,
meu corpo sente falta e chora.
Chora pela boa mãe que sabia de tudo e não contava nada...
Chora pelo exemplo de silêncio que se foi...
Como quero ser como ela!
Por mais que me restam palavras para descrever,
ainda tenho o exemplo na minha lembrança.
Este exemplo não se apaga, não se esvai...
A saudade vem e me remexe, mas ela passa...
e só ficará as boas coisas que essa boa mãe fez por minha grande família.

Ana Luiza Pereira

Opinião: protestos e a política atual

Vejo as pessoas manifestando suas opiniões quanto aos protestos, sinto-me na obrigação de cidadã brasileira fazer o mesmo:

Bato palma para quem vai às ruas lutar pelo os seus direitos, mas com objetivo de serem ouvidos. Os protestos atuais estão tomando proporções fora de controle. Com o objetivo inicial alcançado, os ideais dos protestos vêm se perdendo, tornando apenas uma bagunça e dando mais motivos para a mídia julgar o povo que sai para a rua em plena Copa das Confederações. E o vandalismo? Há duas hipóteses: ou são grupos infiltrados ou são grupos que querem combater a PM fogo com fogo. Então, pergunto: para quê? É respondendo essa pergunta que me indigna.

O brasileiro é o típico povo que só percebe a burrada que faz depois de tê-lo feito. Há anos atrás quando anunciaram onde seriam sediados os locais para a Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas, o brasileiro bateu palma, mesmo sabendo que teria que mudar quase toda a infraestrutura, construindo novos estádios e vilas olímpicas. Cadê a indignação do povo quando soube disso tudo há anos atrás? Ao invés disso, fizeram festa e soltaram fogos. Ainda assim, bato palmas para os que tiraram a venda dos olhos e lutam por uma causa, e não aos vândalos que depredam o patrimônio público, sabendo que é do nosso bolso que será restaurado.

É dizendo que apoio e bato palmas às pessoas que vão aos protestos, com uma causa, que alguns me perguntam o porquê, responderei aqui: que democracia é essa que vivemos? Vivemos num governo onde a "democracia" é apenas o nosso voto e não nossa voz. A própria Constituição Brasileira, por mais antiga e inadequada, em certos aspectos, que seja, diz: "O poder emana do povo", enquanto o povo engolia cada caso de corrupção governamental a seco, sem nada fazer, sem nada falar. É o povo que paga, através dos impostos e inflações absurdos, milhões para os deputados para eles lutarem por uma proposta como a do PEC-37. Vale a pena? Vivemos uma repressão quase que ditatorial, o governo cala nossas bocas abafando casos. A verdade é que vivemos numa sociedade onde a mídia é controlada e controladora, muitos engolem as histórias das mídias e, bem, os outros acordaram...

Aqueles que acordaram, vão às ruas, gritam com cartazes nas mãos e compartilham hashtags nas redes sociais, hashtags como #VemPraRua e o #OGiganteAcordou bombeiam as timelines dos twitter e do facebook e lembram muito a Primavera dos Povos. Contudo, sempre há pessoas para avacalhar, fazendo dos movimentos e ideais uma piada: vandalizando, roubando, espancando ou colocando dizeres que não tenham nada a ver em cartazes; só para serem filmados e aparecerem nas mídias. Por isso, digo que estamos vivendo um breve momento anárquico. Pense: o governo nos vira as costas e nada faz, apenas comanda a polícia repressora, assim como era na ditadura, enquanto isso, o povo "faz o que bem entende" nas ruas.

A verdade é que a anarquia que aprendemos nas aulas de história é completamente impossível, pois a ordem natural de uma sociedade sem governo é a autodestruição. O povo necessita de uma "ordem" preestabelecida, as pessoas precisam de um governo que rege leis para que elas consigam viver e sobreviver. Sem leis, é o instinto animal presente no ser humano que o moverá, gerando caos e confusão, como está tendo agora nos protestos. Admito ser adepta ao anarquismo, mas como sei que há diferenças drásticas entre a utopia e a realidade, sou adepta ao anarquismo que retira um governo autoritário do poder e instala a VERDADEIRA DEMOCRACIA, na qual, os ricos não mandam, mas o povo que busca ser ouvido.

Vivemos numa guerra de ideologias dicotômicas: de um lado o governo dos ricos ditadores que reprimem e, de outro, as pessoas anarquistas que gritam seus ideais. E, nos resta apenas escolher: sermos inertes ou qual lado devemos ser, mas não se esqueça que somos nós que fazemos a história, pois "Eu vejo o futuro repetir o passado / Eu vejo um museu de grandes novidades / O tempo não pára" (Cazuza).

Ana Luiza Pereira

Época de revolução

Saúdo à minha pátria que finalmente acordou o gigante há muito adormecido.
Saúdo essa gente que levantam vozes e cartazes para que ouçam suas opiniões valerem.
Saúdo o povo que lembrou-nos que os filhos desta terra não são covardes, como está no hino nacional.
Saúdo as pessoas que lutam pela liberdade.
Saúdo à todos que mostram que é possível trazer mudanças ao sermos pacíficos e rebeldes.
Saúdo aos que estão à frente!
Mas também eu vaio.
Vaio à mídia que manipula, não explica as razões do povo e só mostra o que dá IBOPE.
Vaio o Governo que não abre os olhos e não preza pelo povo que o elegeu.
Vaio aos que criticam sem conhecer as razões e a situação em que nossa gente se encontra.
Vaio aos que reprimem, seja por ordens ou não.
Minha boca se abre; e eu saúdo meu povo e vaio meu Governo.

Vivemos num governo democrático, em que o povo devia estar no poder.
Estamos assumindo agora!
Pode dar licença, Governo Vão, para que possamos passar e deixar nosso recado?
Ou prefere tapar os buracos de nossa deficiência e voltar a dormir nas poltronas de estádios?
Acorde, querido Governo, antes que ponhamos abaixo!
Está na hora de ouvir e não mais de falar lorotas em meias horas televisivas nos finais de semana.
Deixe o povo revolucionário passar e falar, mas aja!
Sua falta de ação futura será sua maior derrota...
Acorde, Brasil! Seu povo já acordou...

Ana Luiza Pereira

Ele vs. Ela (XII)

Ele: Admita que você está apaixonada por mim! risos

Ela: Como posso admitir tal injúria que apontas para amim, caro amigo? Admito sim, te amar e estar de sentinela quando me pedires um zelo, abraço, afago ou outrem. Mas paixão não habita mais este corpo que a Deus tento entregar todos os dias, apenas encantamento. Encanto pela vida e o que há de mais valioso nela, encanto por minha família e amigos. Se chamas isso de paixão, é o seu conceito e a sua verdade, mas saiba que de mim o sentimento é bem mais singelo.

Ana Luiza Pereira

Cante, Musa! Cante!

Cante, ó Musa, os amores daquele que cria.
Os amores da carne flagelada pela Pandemônia e seu eros.
Cante, Erato amada, ao som da lira límpida
à luz prateada da noite, o som dos amantes desgraçados,
dos corpos entrelaçados pelo amor mágico de Afrodite.

Cante, ó Musa, as tragédias de eros.
Cante aos ouvidos de quem ouve
os malefícios de amar demais, matando sua criação por um amor.
Cante, Melpoméne divina, histórias de amores que não eram para acontecer
e seus fins, trágicos ou alegres, com toda sua tensão e catarse.

Cante, ó Musa, as comédias dos antros,
O escárnios de demos, os movimentos dos hipócritas.
Cante, Thalía querida! Inspire os hipócritas dionisíacos
em seus escárnios a pólis e a diké
e a brincadeira do riso e movimentos.

Cante, ó Musa, ao deleite dos sons límpidos,
cante ao som da lira prateada ao ouvidos de quem faça ouvir.
Cante, Eutérpe, filha do Crônida, e faça esses homens,
em vorazes banquetes em honra a Zeus pai,
se deleitarem ao som da mais divina música que cantares.

Cante, ó Musa, as danças festivas,
inspires os mortais a não esquecerem as danças dionisíacas,
inspires os gineceus a dançarem como ninfas em densos bosques.
Cante, ó Terpsicóre, as alegrias e os sorrisos
entre ritos e movimentos de cultos aos deuses mais viris.

Cante, ó Musa, os acontecimentos com epopeias e liras.
Cante as forças dos deuses nas guerras
e sua bondade com os antros ferozes sedentos de sangue.
Cante, Kallíope grandiosa, com sua bela voz as épicas batalhas que os Dânaos,
com a ajuda magnânima divina, enfrentaram durante sua  existência.

Cante, ó Musa, os heróis que por aqui passaram,
cante seus corpos resplandescentes ao sol e sua virilidade,
cante, Klío, filha de Zeus, os feitos desses heróis que hoje
batem à porta do Hades à espera de um funeral honroso, pranteado,
enquanto na terra vilipendiam seus cadáveres.

Cante, ó Musa, os hinos desta terra que dá cereal para nossos estômagos
e vinho para nossas gargantas secas,
cante, Polimnía, os hinos dos homens aos deus,
que abençoam a terra e nos dão o que comer,
que nos aconselham e nos dão o que festejar.

Cante, por fim, ó Musa, as estrelas que por esses céus
nos cercam e nos presenteiam. Presentes de Zeus para iluminar
a noite mais sangrenta e escura que possa existir.
Cante, Ouranía celeste, as constelações que guiaram os argonautas
e que guiam os pastores em seus lavores terrestres.

Cante, Musas! Cantem todas!
Sem suas divinas vozes, de nada seremos, de nada criaremos.
Cante a nós, meros mortais, merecedores de pelas músicas e danças,
merecedores de belas histórias e amores,
merecedores de poesias líricas e bons hinos,
merecedores do bom teatro.
Cante aos antros seus feitos, filhas de Zeus pais, o Crônida.
Cante nossas histórias para o nosso bom deleite.
Inspire-nos, filhas da divina Memória! Fale aos nossos ouvidos,
para podermos ser heróis criadores e contarmos aedos no deleite de nosso banquete.

Ana Luiza Pereira