Devolvo-te

Devolvo seus presentes;
Seus ursos e cordões,
Cartas e anéis
E a promessa de sermos um.

Mas não posso devolver nossas lembranças,
Lágrimas e risos,
Sentimentos intrínsecos
Desenvolvidos na cumplicidade de um relacionamento.

Devolvo-te o que posso devolver
Com o pedido de perdão por não ser o suficiente
E a promessa de seguir em frente,
Embora haja marcas em mim do nosso amor.

Ana Luiza Pereira

Não vi (Escrito por Gabriel Porcino dos Santos)


Não vi minha vida passar diante de meus olhos, pois estes estavam ofuscados.
Muito menos, as súplicas do meu coração, pois minha mente estava enebriada pela música.
E, em um devaneio, flagro me recordando de vís venenos como estes para existir: tempos onde a tua existência já me bastava.
Quem me dera se soubesse o que viria de vir...

Gabriel Porcino dos Santos

Mágico


Quando jovem, almoçava sempre com um senhor, mais ou menos com 60 anos, muito bem humorado e bastante amigo. Um dia descobri que ele já fora um mágico renomado quando era jovem, então pedi-lhe para me apresentar seus truques...

 Foi o da moeda, das cartas, do coelho, do desaparecer e reaparecer... Qualquer coisa que minha mente, ainda criança, podia imaginar aquele senhor fazia em seus truques. Aquilo me fascinava, era deslumbrante e eu ficava sem palavras, embora o sorriso não saísse de minha boca e o brilho de meus olhos. E ele não se cansava de dia após dia, repetir os mesmos truques e, às vezes, inventar uns novos.

Quando eu ficava muito curiosa, perguntava: "Como consegue fazer isso?". E ele, sempre paciente perante minha ansiedade de sempre querer ver mais de seus truques, respondia: "É a inexplicável mágica, criança. Se você acreditar, és capaz de fazer tudo". Toda a vez que eu ouvia aquela resposta simplesmente sorria e não parava mais de sorrir.

 Passou-se um, dois, três... O sábio senhor não aparecia mais. Uma semana depois soube que o velho senhor mágico que me fazia sorrir faleceu de alguma doença que hoje nem lembro mais e o sorriso que ele deixava se fora.

Fui ao seu enterro prestar minhas homenagens à família e em sua lápide o seguinte epitáfio fora escrito: "Mágicos não existem". Não entendi naquela época o porquê da contradição daquelas palavras com os atos do velhinho que conheci.

Hoje, mais ou menos na idade daquele senhor, digo que ele era sábio. De fato, mágicos não existem, truques são apenas truques que enganam nossos olhos e que podem ser desvendados a qualquer momento e ensinados a qualquer um. Ele fazia aquilo para obter sorrisos e não dinheiro. Hoje sei que o olhar apaixonado de um jovem a te admirar é muito reconfortante, embora seja muita responsabilidade. Ele queria simples momentos e a mágica que ele dizia era a vida, a inexplicável vida. Eu acreditei e fiz de tudo. Ainda bem que tive esse ensinamento para me guiar, por isso estou aqui: vim ensinar-lhes o mesmo. Dê asas aos a si e aos Ícaros dos seus pensamentos, acredites na vida e a olhe com seu coração que você descobrirá a magia em qualquer lugar e ser capaz de fazeres tudo.

Ana Luiza Pereira

Complexo de Édipo


Há um erro de fábrica da nossa humanidade que não há como reparar quando o assunto é procurar alguém para um relacionamento; o complexo de Édipo. Pare e pense; quantas vezes você reparou no alguém que você ama, já amou ou apenas se apaixonou algo que te lembrasse de algum parente próximo ou familiar que você simplesmente ame demais? Bem, eu te respondo que já perdi as contas.

A verdade é que alimentamos a necessidade de encontrar alguém que lembre quem nós amamos de fato. Não digo que maridos não amam suas esposas, ou vice-versa, mas digo que nossos pais ou aquela pessoa que nos criou é a primeira pessoa que nós amamos de fato. Ou, até mesmo, aquele tio que brincou com você quando criança. Às vezes, pode até ser outro tipo de complexo vinculado; como seria a minha mãe se ela não tivesse me abandonado?

Enquanto isso, a necessidade de procriação aumenta ao passar dos anos, até (no caso das mulheres de 30 anos) chegar ao ápice...

Não prolongando o assunto, coisas mínimas na personalidade ou no físico de quem estamos juntos como parceiros; como os olhos, o jeito de falar quando briga, etc., nos fascina e, se nós analisarmos, acharemos a resposta que lembra alguém: alguém que amamos de fato.

Ana Luiza Pereira

Vida de ilusões

Queria poder ter uma vida sem ilusões, mas a vida nos impõe ilusões desde criança. Pensamos que ser adulto é ser forte e invulnerável, mas cresci e vi que os adultos são bem mais humanos vitimizados que as crianças abandonadas (ao menos eles se fazem assim). Portanto, criei uma barreira guardando minha infantilidade e cultivando-a aos poucos. Já me chamaram de criatura estranha por ser assim, mas percebi nas crianças a fortaleza que um adulto precisa. Sua ingenuidade e inocência os fazem felizes, imbatíveis e extremamente fortes. Um adulto ao olhar com olhos de ressaca uma criança, sua ressaca se torna uma inveja da vida boa e de sua beleza interior. Podem me julgar de estranha, sou feliz apesar do medo de crescer. Amadurecer não significa perder a criança que você é, mas significa aprender com a vida; seja com olhos de criança forte, olhos de adolescente apaixonado ou olhos de adulto de ressaca.

Ana Luiza Pereira