Tento ser

Tento ser algo que vejo, mas não consigo... Tento ser algo que admiro, mas dá errado... Tento ser aquilo que me veem, mas não me sinto completa... Tento ser aquilo que sinto, mas ainda não é o suficiente... Na verdade, é nessa busca incessante de "ser ou não ser" que me torno quem sou; dizendo sem dizer, sentindo sem sentir, vivendo e se esquecendo de aprender com as quedas. Sou um pouco de tudo, ao menos quero ser assim... Mas como ainda não sei quem sou, só busco deixar uma marca de mim em você. Só deixando várias dessas marcas você poderá dizer que valeu a pena... 

Ana Luiza Pereira

A carta da Rosa


  Querido Pequeno Príncipe,

Para quem é eternamente responsável por aquilo que cativas, sabe que procurar uma estrela especial entre uma imensidão de planetas e pessoas não é fácil. Mas para onde olho, vejo suas façanhas e seus novos amigos; o Rei absoluto que respeita seus subordinados, o homem vaidoso e narcisista, o beberrão sem razão, o contador avarento, o acendedor de lamparinas que trabalha incessantemente,  o velho sábio, outras rosas como eu, a raposa simpática... e, fatalmente, a cobra intereisseira.
Sei da sua preocupação quanto a mim, dos carneirinhos e bodes que quis por aqui para me proteger. Mas estou bem em meio as futuras raízes de baobá.
Sei que disse que és um tolo, mas estive errada. Tola sou eu de apenas me abrir para você no momento de sua partida. Sei que sou nariz em pé, mas eu realmente te amo meu pequeno grande garoto.
Ouvi das estrelas e dos pássaros que as rosas mais bonitas nascem fechadas para se abrirem com o tempo. Lembrei no exato momento de nós. Abro meu coração aqui para dizer novamente que te amo e amo seus cuidados. Seu nome é Príncipe porque reina em meu coração. E és pequeno para conseguir ocupar nele todo.
Volte, garoto! Sua aprendizagem está só no começo... És criança, vive e pensa como uma eterna criança inocente, por isso, aprende coisas que ninguém aprenderia. Mas sinto sua falta...
Escrevo essa carta para você, eterno Príncipe, para que volte para o seu asteroide e que comigo veja de novo o lindo pôr-do-sol.

Da sua,
Rosa.

Ana Luiza Pereira
Texto adaptado do livro O Pequeno Príncipe.


Patriota

Sou patriota entre aspas. Exijo respeito perante outros de nacionalidades diferentes, não gosto que nos humilhem por sermos um povo miscigenado e quase sem preconceitos. Porém, admito que eu mesmo humilho o meu país. Só serei patriota de fato quando o governo do meu país respeitar o povo que o pôs no poder.

Ana Luiza Pereira

Apenas sou


Não sou tudo, mas não sou nada. 
Sou apenas alguém. 

Um alguém redigido nas palavras que acredito serem fiéis e verdadeiras aos meus sentimentos. 
Um alguém preso na linha tênue do imaginário e do real tentando transpôr o que sente e o que vê. 
Um alguém que vive por metáforas e se comunica através delas. 
Um alguém que observa e nem sempre participa. 

Um narrador dos segredos intrínsecos do ser mais confuso da terra: o homem. 
Um narrador personagem que não sabe o que quer e o narrador observador que sabe demais. 

Sou apenas eu, tentando ser você e te descobrir por meio das palavras mais tocantes e vívidas. 
Sou apenas seus sentimentos e suas palavras. 
Sou um parasita na sua mente desvendando o mistério humano onde Sócrates e Platão não conseguiram mais transpassar seu pensamento. 
Sou a conversação de filósofos internos, onde quem ganha nem é sempre a razão dos fatos. 
Sou transposição dos medos e a vivência da revolução. 
Sou desejos dos prazeres e as mudanças de hábitos.
Sou o segredo que ninguém sabe e a morte que ninguém viu.
Sou precedentes e as más intenções de cada um.
Sou aquilo que você vê mas não o que você pensa ou diz.
Sou uma criança morta nas dores de amor e viva nas alegrias da vida. 
Sou um esqueleto humano enfrentando preconceitos e compartilhando histórias. 
Sou um excluso interno e incluso externo na sociedade que me cerca. 
Sou a opinião de alheios que, às vezes, lhe agrada, outras lhe entristece. 
Sou a decepção da família que não convivo.
Sou a família dos meus amigos e o amigo da minha família. 
Sou a cabeça dura maleável com o tempo. 
Sou lágrimas e suor do rosto que não tenho e o mistério das vozes que me falam.
Sou personagens e figurantes de histórias contadas vividas por alguém que não sou eu.
Sou o passado e o presente das memórias. 

Não importa quem eu seja, apenas sou... 
Mas não sei ser aquele alguém que se delimita.

Ana Luiza Pereira
Texto incluso no livro Raízes literárias 2 (2012).

Ele vs. Ela (XI)


Ele: Não chora! Vai lá lavar o rosto!
Ela: Não adianta! As gotas da água só vão se misturar com as minhas lágrimas...

Ana Luiza Pereira