Dear God


Numa estrada solitária, era assim que era minha vida. Ela era cheia de manchas; ódio, sangue, rancor... Eu não tinha piedade das almas que rastejam por esta Terra, nem sequer pensei em ter. Sempre vivi sozinho, cruzando as estradas da vida, encontrando almas para torturar e motivos para matar.
             Até que um dia eu a encontrei. Não sei como ou porque, mas sua beleza era diferente de todas as outras que gostei. Ela era iluminada e fizera um milagre que nenhuma outra conseguira; eu sorrir. Eu ficava diferente perto dela, sua luz me irradiava e seu sorriso me contaminava. Se ela fosse uma doença, eu estaria em estado terminal.
            Sabe aquela tão conhecida “luz do fim do túnel”? Eu tinha certeza que essa luz era ela. Enquanto eu; rodeado de trevas e rancor, tentava correr as milhas e milhas que me separavam dessa luz, mas não conseguia. As trevas me puxavam, porém sua voz me apaziguava.
“Eu te amo, Kaique. Estarei aqui a te esperar...” – é o que sua voz me dizia antes de dormir. Ah... Como queria dormir em teus braços, minha querida. Estar do seu lado, rir com você, cuidar de você e me deixar ser iluminado pela sua luz. Você me lembrou a sensação de como é ser amado, não quero perdê-la novamente.
Querido Deus, sei que nunca fui muito de rezar e crer, mas se caso exista; por favor, cuide dela enquanto eu estiver longe. É a única coisa que lhe peço. Todos nós precisamos de uma pessoa que possa ser verdadeira com você e, olha!, eu encontrei a minha a milhas de distância. Porém a vida me obrigou deixá-la  nessas milhas de distância e, mesmo que eu deseje estar do seu lado, eu sou um solitário fraco e cansado e estou sentindo sua falta de novo...
Toda vez que eu acordo e vejo essa estrada da vida abandonada, sem ninguém... e sem ela para me acolher. Não há ninguém aqui, tudo está fechado. Todos dormem em seus alentos enquanto eu estou sem o meu. Sei que não ajuda muito, mas pensar em tudo que passamos parece superar a distância que há entre nós.
Querido Deus, por favor, proteja meu alento enquanto eu estiver fora...
Por mais que eu procure, eu não consigo encontrar. Os caminhos que me levam a ti são estreitos e eu não consigo passar. Depois de muito tempo, desperdiçando minha vida nessas trevas, eu finalmente encontrei a minha luz; eu encontrei você e alguma coisa disse que era para ficar aí. Mas sou um solitário egoísta e fui embora sem me despedir devidamente. Tenho saudades do seu chamego e abraços... Sinto falta de te ver, como sinto falta de você!
Estou sozinho nas trevas que me rondam, sozinho..., vendo toda a minha esperança começar a desaparecer...
Querido Deus, ela morreu. Como o Senhor pôde fazer isso comigo? Eu pedi, implorei-lhe para cuidar dela enquanto eu estiver longe... E agora? Minha luz do fim do túnel mudou... Por mais que eu corra para esta luz, vejo que não é mais ela com seu sorriso, mas o inferno que me espera.

Ana Luiza Pereira 

Inspirada na letra da música Dear God do Avenged Sevenfold.

Killer Night


            Meia-noite. É o que soava os sinos do relógio da igreja. Noite escura e de luar brilhante e redondo.
            A rua mal iluminada, nenhuma alma em sã consciência andava pelas ruas e vielas mal iluminadas de Fromhell. NINGUÉM ousava por os pés naquelas ruas, NINGUÉM ousava sequer dizer seu nome, NINGUÉM queria vê-lo...
            Seus olhos sedentos, seu sorriso maléfico, seus pensamentos demoníacos. Ele dançava... ao som dos gritos, arfares, pavores e desespero de suas vítimas.
            O que ele fazia? Mutilava seus corpos, estraçalhava seus órgãos, transava com cadáveres.
            Por que ele fazia? Não se sabe. Uns dizem que é por pura maldade, outros que ele enlouqueceu, outros diziam que ele é a própria reencarnação do diabo.
            Um trovão ecoou pelo céu. Raios e relâmpagos reluziam ao som dos seus passos e gargalhadas satânicas por aquela viela escura.
            O que ele deixava para trás? Mais um corpo de uma mulher.
            A chuva apagava as provas que ele deixara assim como levava o rastro do seu sangue para os esgotos.
            Será que alguém conseguirá neutralizá-lo? Só as noites poderão dizer...

Ana Luiza Pereira 


O novo recomeço


"Cansei de lutar...", escrevia ela. "Cansei de lutar contra os fantasmas de nosso passado."

"Tenho ótimas lembranças no sobrado perto dos campos dourados de trigo. Lindo amor de verão foi aquele nosso, Joseph. Mas e agora? Você morreu... E eu preciso encarar este fato algum dia. 

Eu já me despedi pedindo perdão de joelhos abraçada com o orvalho que fez do nosso amor um túmulo, mas não foi da forma correta. 

Eu devia ter te perdoado, devia ter te beijado... Eu não devia ter te deixado ir naquela tarde chuvosa. Mal sabia eu que você voltaria, mas sem vida.

Fui uma tola por não ter feito aquilo. Me culpo até hoje pensando no que poderia ter acontecido. Fiquei meses sem falar uma palavra sequer... O mundo não sentiria tanta falta da minha voz quanto eu sentia falta de sua presença.

Mas uma coisa sua perda me fez aprender uma coisa: a recomeçar.

Eu nunca tive nada, apenas tive você, que, por ironia, perdi. A depressão me fez pensar em desistir, admito. Mas, suas lembranças me fizeram ver o quanto a vida é linda e me deram força para recomeçar.

O sobrado velho? Reformei. Deixei do mesmo jeito em que estava no dia em que nos conhecemos. Eu? Mudei. Voltei a ser sua doce e meiga Mary. Meu coração? Entreguei-o ao amor e a vida.

Me casei. Hoje, tenho uma linda filha chamada Gina com o xerife da cidade.

Voltei a sorrir, voltei a viver. Um pedaço de mim ainda sente falta de você, das nossas corridas no campo, da nossa infância. Mas quando a saudade vem me abalar, eu sinto sua presença e sinto que você, onde quer que esteja, estaria feliz por me ver sorrir.

Hoje, escrevo essa carta ao vazio para demonstrar o quanto você me faz falta, mas também para lhe agradecer pelos ensinamentos que sua morte me dera.

Feliz aniversário, querido Joseph."

Ela se aproximou da quente lareira e jogou a carta que acabara de fazer. "Quem sabe as cinzas não possa te entregar?", disse. "Te amo, Joseph! Obrigada por me ensinar o valor da perda e do recomeçar."

"Querida não vai dormir?", ouviu-se uma voz masculina do alto da escada.

"Boa noite, Joseph.", disse ela apagando as luzes da sala.

Ana Luiza Pereira

Complexidades

É tão difícil entender as complexidades,
que nem mesmo eu sei.

Às vezes, é algo tão simples e bobo
que transformamos em grande e monstruoso.

Às vezes, é algo óbvio,
mas que só se torna verdadeiramente óbvio
quando alguém nos conta o que é.

Às vezes, está "debaixo do nosso nariz",
mas nem sempre deixamos de ser cegos para poder enxergar.

Enfim, o que quero dizer é:
as complexidades não são complexas, complicadas ou difíceis.

Nada consegue ser complexo o bastante 
para que não haja alguém
que desvende, descubra ou entenda.

O problema não está nas coisas que julgamos complexas ou na vida,
o problema somos nós.

Somos nós que não achamos as palavras certas
para explicar que tais "complexidades" são,
na verdade, simplicidades da vida e do mundo.

Ana Luiza Pereira

A paz e a verdade


A paz...
Vem bem depois da guerra que é dor
Antes da dor vem muito horror
Governo mal organizado ou mais do que mal organizado
Se estivéssemos na monarquia seríamos criados

O poder de querer,
Querer e querer
Dinheiro e mais dinheiro,
Como se desse em um pinheiro

Corrupção do coração maldoso
Como se fosse gostoso
Que nem sorvete de chocolate,
E o cachorro late
Querendo um mundo melhor
Sem o pior;
Querendo paz
E nada mais.

Ana Luiza Pereira

Poesia vencedora do 5º Festival de Poesia do Colégio Dimitri Marques em 2005.