Exorcismo


Ela era só uma garota normal, perfeita é o que uns diziam. Estudiosa e muito religiosa, como a tradição de sua família pregava. Doce, gentil, espirituosa, solidária, era uma garota certinha...
Pena que os olhos humanos não veem os corações dos mesmos. O dela estava destroçado, morto, triste... A fé? Meu caro, não se engane pelas aparências! Ela era uma garota de pouca fé. Carregava o lindo crucifixo de prata junto ao peito como tradição e não por fé.
Foi por ter pouca fé que tudo mudou. A doce e gentil menina se rebelara. Não ia mais à igreja aos domingos, xingava, maltratava os outros e a si mesma. Enclausurava-se dentro do seu quarto às vezes e não saia mais. Às vezes, também, mutilava-se, cortando mais e mais sua pele e sua carne.
Seus pais se horrorizavam com o que ela fazia consigo mesma, cogitavam a hipótese da loucura! Homens de pouca fé...  Por que os homens de hoje em dia não enxergam de acordo com as obras designadas de Deus? Tudo são homens de pouquíssima fé...
Num raro momento de lucidez desta pobre alma infantil, ela estava entre amigos numa velha livraria e abrira um livro que não chamaria a atenção pela sua capa. Ele era velho, páginas amareladas com o tempo, manuscrito de tinteiro e pena e com muitas palavras estranhas segundo a época que vivemos.
Eram estas:

Deus, patrono et Jesu Christi, I nomine tuo da mihi virtutem exorcismus.

Exorcizamus te, omnis immundus spiritus, omnis satanica potestas, omnis incursio infernalis adversarii, omnis legio, omnis congregatio et secta diabolica, in nomine et virtute Domini Nostri Jesu Christi, eradicare et effugare a Dei Ecclesia, ab animabus ad imaginem Dei conditis ac pretioso divini Agni sanguine redemptis. 

Imperat tibi sacramentum Crucis, omniumque christianæ fidei Mysteriorum virtus. Imperat tibi excelsa Dei Genitrix Virgo Maria, quæ superbissimum caput tuum a primo instanti immaculatæ suæ conceptionis in sua humilitate contrivit. Imperat tibi fides sanctorum Apostolorum Petri et Pauli, et ceterorum Apostoloru . Imperat tibi Martyrum sanguis, ac pia Sanctorum et Sanctarum omnium intercessio.

Ela começou a ficar com a visão turva. Não controlava mais seus movimentos, apenas algo dizia para continuar lendo. Ouvia gritos e ranger de dentes. Ela via o sofrimento no inferno ao mesmo tempo em que lia as palavras em língua morta. Seu crucifixo de prata queimava por debaixo da sua blusa, perto dos seus seios e marcava a sua pele mutilada.
Ela estava suspensa entre dois mundos: o inferno, na qual sua alma foi roubada, e a Terra, onde lia aquelas palavras em latim presentes um diário antigo de um padre legionário de Roma. Sua voz se engrossava, as faces dos outros se deformavam diante de seus olhos. Aquelas palavras se tornavam familiares aos seus ouvidos e seu entendimento, mas, internamente, uma batalha de vida ou morte se travava. Continuou:

Humiliare sub potenti manu Dei; contremisce et effuge, invocato a nobis sancto et terribili nomine Jesu, quem inferi tremunt, cui Virtutes cælorum et Potestates et Dominationes subjectæ sunt; quem Cherubim et Seraphim indefessis vocibus laudant, dicentes: Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth.

Todos os presentes ali fitavam a pobre garotinha antes sem fé. Seu contorcionismo não planejado, sua voz de outro mundo, seus olhos se revirando até sua face mudando.
Contudo, o que eles não viram, foi o espírito demoníaco que dominara a pobre garotinha sem fé em um momento frágil de sua vida e, a tola, em busca da fortaleza, abrira as portas para que o demônio entrasse e não mais saísse. E, naquela hora, tal espírito estava saindo e vagando novamente pela Terra.
Mas, o que poucos ainda sabem, é que não são as relíquias que espantam o mal, mas sim a fé daqueles que carregam. Você não precisa carregar crucifixos junto ao peito se sua fé é uma chama grande e acesa. Será esta chama que irá te satisfazer, crucifixos é para lembrar que existe esta chama dentro de você e que você precisa sempre alimentá-la, sempre mantê-la acesa segundo as normas de Deus proposta na Sagrada Bíblia.
Não se exiba como um homem de fé como os fariseus; sejais humildes, pois são os humildes que é feito o Reino dos Céus. Humildes são grandes homens na fé e espanta qualquer mal por apenas acreditarem no bem.
Pobre garotinha antes sem fé! Aprendera a acreditar em Deus quando este marcara sua fé e seu destino em sua pele.

Ana Luiza Pereira

Fatos sobre mim


Eis um fato: eu não sei por que escrevo.

Às vezes eu acho que é para expor o que sinto, outras por obrigação, outras vezes é porque as músicas, livros, ou até mesmo o computador, me entediou.

Na verdade, razões não importam. Prefiro os sentimentos, os atos, e tudo mais. Tudo minuciosamente imaginado por mim e, sempre tentando em vão transpassar a vocês que leem.

Outra coisa é fato: sempre admirei Anne Rice e Clarice Lispector. Anne Rice pela sua riqueza de detalhes num conto vampiresco. E Clarice Lispector por ser introspectiva, abranger e compreender cada sentimento fazendo com que acreditamos que ela nos entenda tão profundamente e verdadeiramente.

Tal dupla dinâmica de estilo gótico melancólico eu aderi a mim. E, portanto, reproduzo no meu jeito de pensar e agir, refletindo sempre nos meus textos.

Procuro uma forma de me libertar das rédeas da ignorância para, assim, poder concentrar numa forma de compreender a mim e aos outros ao mesmo tempo. Poder, então, ajudá-los da melhor forma possível.

Ana Luiza Pereira

Sentido Próprio do Mundo


Nunca parei para pensar no sentido das coisas, a não ser das coisas relacionadas à minha vida. Talvez por egoísmo, dúvida ou achar que era perda de tempo. Na verdade, é por que nunca tive tempo e maturidade o suficiente para pensar nisto.
Minha vida, minhas coisas... tudo tem seu sentido no mundo. Até o próprio Mundo carrega seu sentido próprio.
Eu não penso no Mundo como um amontoado de coisas supérfluas separadas, mas como um conjunto unitário, nele se abrange várias coisas que, nem sempre, damos a devida importância, mesmo estando presentes em nossa jornada.
Eu penso no Mundo e me lembro da Vida. Não da minha, ou da sua, mas da vida em si presente em cada célula deste planeta. Coisa que nos parece minúscula, mas a mais importante que temos.
E, qual o sentido da vida senão o de nos ensinar? Nossos pais nos educam, mas a vida, sim, ensina o certo e o errado, bom e ruim, às vezes, de maneira que não queríamos ter aprendido. Afinal, o que vale não é quantas vezes você caiu, mas quantas vezes você teve forças para se levantar após a queda.
Enfiamo-nos em buracos escuros, alguns chamados de ódio ou depressão, drogas ou violência, mas a vida tem seguido sempre seu propósito; mostrar que cada caminho obscuro terá o seu retorno à luz, sempre terá alguém a oferecer-lhe ajuda e a te lembrar que o que é realmente bom e belo na vida é a sua simplicidade.
Para você, estou levando essa de “sentido da vida” para o lado clichê, mas para mim, cada vida é um “mundinho egoísta particular” e, juntos, formam o Mundo (ou, “universo de mundos egoístas”) que conhecemos; que damos ou não sentido ao escolhermos o bom ou ruim.
Pense; não destrua o seu mundo com seus atos! Para, depois, destruir o nosso com suas consequências.

Ana Luiza Pereira

A beira da loucura


As lágrimas me tomam. Eu sei; sou fraca, me deixo dominar pela dor e ser abraçada pelo medo.
Qual medo? Ah... O de sempre. Aquele de te perder...
Eu te amo meu amor e, sinceramente, não compreendo uma pessoa conseguir não fazer o mesmo (se é que ela exista). É inegável o meu amor. (Também incontrolável e selvagem, eu diria, mas isso não convém...)
Vejo as coisas fugindo do nosso controle, coisas que me deixam com mais medo e que fazem as lágrimas lavarem ainda mais esta face machucada. Vejo pessoas amaldiçoando nosso amor, dizendo coisas tipo: “esse relacionamento não dará certo!”; “Ele(a) não te merece! Fulano(a) sim!”...
Ò meu Deus! Estou em desespero! E, será que não bastam apenas tais motivos? As vozes ao redor, vozes amigas, me pedem para parar ou ter calma mas não passam de sussurros aos meus ouvidos.
Encolhida no meu canto, aos prantos desenfreados, amaldiçoo as coisas novamente. O medo me toma, a dor me mutila, as lágrimas me lavam.
Não há mais nada o que fazer... Esperar, talvez. Mas, sei; logo terei que te ver ir. E, com lágrimas nos olhos, poderei finalmente me entregar a mais traiçoeira loucura... Não digo a doce loucura; que é te amar infinitamente, esta loucura me deixa sã!, mas a traiçoeira loucura: a cruel loucura da insanidade. Afinal, o monge teve razão em me chamar de louca, pois é isso que sou: uma louca/insana apaixonada por ti e não sabe viver sem, se mutila com os medos ou circunstâncias e que chora desesperada de dor.
Alguém poderá me lembrar qual é a linha tênue da loucura apaixonada e da loucura insana? Acho que precisarei de um psicólogo... Livros, aí vou eu!

Ana Luiza Pereira

Dor passada


Hoje não foi um dia fácil para mim...
Vendo as dores de um amigo, tentei reanimá-lo do jeito que pude. Às vezes eu conseguia, em outras não. Sempre o machuquei no final... O que importa é que o silêncio e a ausência de suas palavras, reações e atos me incomodava, me recordava e, acima de tudo, me matava.
Tomei suas dores como minhas, afinal de contas, elas eram.
Entre sua ausência de espírito ao meu lado, mas com uma certa “saturação” de nossas presenças, sempre do lado do outro tentando apoiar e ser forte, deixei-me levar pelo recordar do silêncio... Má ideia. Ele me recordava coisas que não queria recordar. Digo que tristezas me fazem forte, mas aquelas só me feriam mais...
Olhei meus pulsos, vi as claras cicatrizes do meu cúmulo. Sim, já estive no fundo escuro do poço onde não há mais alguma luz. Já fiz o cúmulo, já ultrapassei limites dos seres humanos, já conheci a plena insanidade, a plena perversão, o pleno ódio, a pura depressão e, talvez, o pleno conhecimento (por uns instantes).
Recordei quando tais cicatrizes dos pulsos sangravam por motivos idiotas e me levaram a ações mais idiotas como aquela ou até pior. Talvez você entenda o que eu esteja falando, pois, por mais fictício que meus textos sejam, eles carregam um pedaço de mim. Ou talvez tu já tentastes ou pensastes em cometer tais atos, mas, é mais provável, que não.
Você apenas leu em livros e pensa que entendes de tudo sobre isso... Mas eu lhe digo: estás errado. Você não esteve na pele de um louco prestes a se suicidar ou a se mutilar... Pode haver milhões de motivos para isto! Idiotas para você, mas totalmente compreensíveis e plausíveis para quem sente.
Não quero para ninguém. A dor de estar no poço é muito grande e torturante... Quase impossível de se suportar!
Ah... Tive vontade de chorar naquele exato momento! Mas contive. Contive tudo durante anos! Não confio em ninguém demasiadamente e sempre contive vários segredos, sonhos, fantasias, coisas importantes ou fúteis sobre mim. Até hoje não aprendi a quem se deve confiar a tal ponto... Por isso, meu melhor amigo é o papel e a caneta, ou até mesmo a tecnologia do computador, onde posso escrever e me libertar, onde posso ser eu mesma sem julgamentos ou culpa. Onde posso me expressar apesar... Apesar do mundo lá fora me dar medo o suficiente para que eu me tranque aqui, neste quarto, e fique dias a escrever o que imagino e sinto.
Não reclamo de minha vida agora, mas de minhas lembranças que, neste momento de solidão e silêncio, me atordoa e me machuca. Fiquei por longos minutos (que mais pareciam horas) a fitar as cicatrizes de meu corpo. Cicatrizes que eu mesma fizera em mim em momento de grande depressão.
Mas, meu amigo, o mesmo das dores e do silêncio, me resgatara destas más lembranças. Rimos, brincamos, dissemos tudo com sinceridade. Mas não foi o suficiente, a pontada do peito e minha cabeça chamuscada de imagens de minha dor me deixavam tonta e ignorante ao dizer certas coisas; o machuquei mais...
Agora, aqui. Após uma “longa” conversa com ele. Onde tudo, talvez, foi esclarecido. Minhas lágrimas descem... Compartilho a dor dele. Até mesmo lembrei-me da minha antiga! Dor, na qual, eu carrego e ninguém, nem mesmo o mais fraterno dos meus amigos, poderão me ajudar e amenizá-la. Dor que transformou minha vida em drama! Um ótimo Best seller empilhado nas estantes empoeiradas das livrarias baratas.
Desculpe-me se machucardes com minhas palavras, não é minha intenção... Apenas procuro um novo modo de fugir desta maldição de dor novamente. Desculpe-me ser fraca, mas vejo-me entregando-me a dor mais uma vez... Quem sabe até onde ela pode me levar de novo?

Ana Luiza Pereira