Um Diário De Uma Alma - O Julgamento


Entrei numa grande sala pouco iluminada de almas fluorescentes “mortas” presas por correntes no teto. Demônios vestidos de guardas por todos os lados. À frente, um verdadeiro tribunal comandado por Hades e, cada passo que eu dava, me aproximava do meu lugar de ré.
Lúcifer era lindo demais para ser um simples rei dos demônios, na verdade, eu nem desconfiei que ele fosse um. Seu cabelo arrepiado e negro deixando a vista seus olhos verdes que cintilavam de ódio, orgulho e falsa soberania. Sua beleza é algo imensurável, jamais vista em homem algum da Terra ou descrita em algum livro. Era uma beleza angelical. Uma beleza de anjo caído.
Fiquei estatizada olhando nos olhos de superioridade de Satã naquele palanque, tentava lembrar desesperadamente de alguma passagem bíblica que falasse de beleza angelical. Falhei. Então comecei a fitar quem estava abaixo do mais alto poder: os três juízes.
Abaixo do lugar de Plutão estavam os três juízes. Um loiro com armadura de um branco impecável com detalhes em ouro e uma máscara também branca com os mesmo detalhes, mas com uma pedra azul celeste na parte dos olhos. Um rapaz moreno de cabelo castanho com armadura e máscara cinzas com detalhes negros e ônix nos olhos da máscara. E um moreno de armadura e máscara negro como seu cabelo, com detalhes de uma prata brilhante como os diamantes nos olhos da máscara.
Inferno é mesmo um lugar de perdições!
Sentei no meu lugar de ré.
- Começa agora o julgamento da ré Kara Silva. – disse o juiz do purgatório.
- Bem, vejamos... – disse Hades folheando as páginas de um grande livro – Comecemos.
- Kara Silva, morta no dia 23/05/2011. Esfaqueada por Thiago Pedro de Sousa. Nasceu dia 28/11/1994, católica pecadora; egoísta, orgulhosa, mentirosa, preguiçosa, já se entregou aos 7 pecados capitais e mais n pecados durante seus 16 anos de vida. – anunciou o juiz do purgatório.
- Verdade isso? – perguntou-me o juiz do céu.
Abaixei a cabeça e assenti.
Eu realmente tinha manchas em meu passado terrestre. Pecados e pecados... E, mesmo que pareça egoísmo, muitos deles valeram apena.
Mesmo assim, eu não entendia: por que eu não tinha manchas na minha alma?
- Está decidido! Ficarás no inferno. – disse o juiz do inferno.
- Tudo bem... – disse de cabisbaixo.
Um demônio se aproximou de mim para me levar para fora do recinto.
- Calma Lúcifel! Este julgamento ainda não acabou! – disse uma voz vinda de uma luz branca que cegava meus olhos.

Continua...

Ana Luiza Pereira


Um Diário De Uma Alma - Inferno


            Seus olhos era a última coisa que lembrava em meio à escuridão que parecia eterna.
            Comecei, então, a sentir que era puxada. Eu era levada a algum lugar...
            Ouvia gritos agonizantes, ranger de dentes, o arrastar de correntes das vítimas da morte, eu vi a fome de perto. Seria mais um pesadelo? Flashes horrendos de pessoas sofrendo vinha por trás dos meus olhos. Reconheci algumas e chorei por aquelas pobres almas, nem todas mereciam tamanho sofrimento.
            Será que eu me juntarei a elas?
            Vi uma floresta de árvores horrendas cheias de harpias. Essas árvores berravam pela dor daquelas garras, mas ninguém as ouvia. Apenas eu; uma pobre alma decadente.
            Mergulhei num grande rio de almas sofredoras e deixei-me levar...
            Tudo escureceu. Pensei por um segundo estar finalmente acordando daquele pesadelo no meu quarto, mas não.
            - O que aconteceu? – perguntou desnorteada assim que abro os olhos.
- Você caiu feio! – respondeu-me alguém.
- Onde estou? Quem é você? – pergunto.
- Me chamo Morte e você está no último círculo do inferno.
- O quê? Inferno? – pergunto assustada.
- Sim, inferno. O lugar onde as pessoas sofrem, queimam e agonizam pelos seus pecados.
- Eu não entendo! Como vim parar aqui? Por que eu vim para cá?
- Fácil! Você morreu esfaqueada pelo seu amigo, embora todos na terra achem que fora suicídio, e caiu até aqui para ser julgada.
- Como assim: “julgada”? E por quem?
- Julgada pelo meu patrão e os três juízes; do céu, do purgatório e do inferno. Eles que escolherão para onde você irá.
- E quem é o seu patrão?
- O diabo.
Estremeci. Ainda era medrosa demais para encarar Lúcifer; olhos nos olhos, cara a cara.
- Agora só vos resta esperar seu julgamento.
Sentei-me em algo que nem sei o que é e esperei o tempo passar. Cada segundo ali parecia anos.
- Você não devia estar buscando mais almas? – perguntei a Senhora Morte.
- Estou na minha hora de lazer...
- Ficando aqui observando as almas agonizarem?
- Não exatamente. Na verdade, nem passo minhas horas de lazer aqui. – respondeu-me a Morte.
- Então, o que fazes aqui?
- Quero ver um final de um julgamento.
- Qual?
- O seu.
Calei-me. Quem era eu para contestar a morte?
Vi muitas almas ali fazerem o mesmo. Almas marcadas, almas manchadas. Almas possuídas pelo o pecado do ódio, mentira, luxúria, orgulho, preguiça, inveja e a avareza.
Almas pecadoras que necessitavam de perdão. Não o de Deus, mas o perdão delas mesmas e quem elas afetaram. E, por mais que algumas (muitas, por sinal) esperneassem, elas não obtinham.
- Não! Por favor! Sejas misericordioso! – disse a alma da mulher sendo arrastada para fora de um grande portão.
- Não sou seu deus para ser “misericordioso”. – disse Satanás de dentro da sala.
Espantei-me com aquilo.
- Kara Silva. – chamou-me um demônio que estava de guarda.
Estremeci. Meu destino como morta estava ali.
- Boa sorte. – desejou a Morte.
- Obrigada. – disse me levantando.
Não sei se isso era um deboche ou foi realmente um desejo de sorte. Mesmo assim, levantei-me orgulhosa e fui.

Continua...

Ana Luiza Pereira


Um Diário De Uma Alma - A Morte


            Um dia de segunda: chato e normal. Eu? Triste e depressiva. Mais depressiva ainda depois dos últimos acontecimentos; ele não era o psicopata perigoso que todos falavam... Não a mim! Mesmo assim, as circunstâncias nos separaram mais uma vez. “Você é louca! Ele não é para você! Ele é um ASSASSINO!” – é o que eu ouvia falar. Mas eu não ligava, estava apaixonada demais que transformei seus defeitos em qualidades; “ele só quer me proteger...” – é o que eu respondia mentalmente. Mesmo assim, tudo me afetava de tal modo que abri os portões dos meus sentimentos para a tristeza.
            Havia uma faca ao meu lado. Eu podia muito bem cortar os meus pulsos para acabar, esta dor acabar, ou cortar a cebola que fazia meus olhos cheios de bolsas lacrimejarem. Preferi cortar a cebola.
Odiava ter que cozinhar todas as segundas de manhã. Eu, sempre lerda cortando os ingredientes, sempre queimava a comida ou ME queimava. Eu, literalmente, odiava as aulas de A&B de segunda!

            Como sempre, tive que aturar gracinhas de colegas e professora por este comportamento habitual meu.
            O dia passou tedioso em todas as formas.
            Fui, aos suspiros de tédio, guardar meu material no armário. Encontro um velho amigo lá. Sorrio e abraço. Puxo conversa tentando ser simpática e fugir da minha tristeza, mas ele, sério demais, me dava respostas curtas.
            Quando, enfim, terminei de guardar o material no seu devido lugar, dei um abraço nele como despedida. Mas então, senti; uma dor pungente em meu estômago. Me distanciei. Vi a faca que cortei cebola encravada nos meus órgãos.
            Por quê?
Caí por terra. Sentia meu sangue se formar em poça ao meu redor.
Por quê?
Minha visão escurecia, saia de foco. Era este o meu fim (ou o meu começo)...
Por que, Thiago? Por que me mataste?

Continua...


Ana Luiza Pereira


Como uma criancinha triste...


Eu me separo, vocês não percebem
Eu grito, vocês não me ouvem
Eu peço, vocês não fazem
Eu faço, vocês copiam
Eu me importo, vocês não estão nem aí

Vocês se importam comigo?
Vocês ligam para mim?
Por que não me ouvem?
Por que fazem isso comigo?
Eu fiz algo de errado?

Eu simplesmente me sinto insignificante
Às vezes, apenas preciso de gestos simples
Sabe? Apenas um convite para uma conversa descontraída
Apenas um convitezinho
Mas vocês parecem que não percebem minha necessidade
E deixa-a passar como se não fosse nada,
Mesmo que para mim seja tudo.

Sou uma criança, as vezes fico no meu canto esperando
Um pequeno gesto, um pequeno convite.
Mas nada acontece
E isso me entristece
Tenho que sempre procurar ser 'amada' por quem parece não se importar
É chato! É irritante! Incomoda!
Me entristece...

É por isso que me isolo,
É por isso que me rotulam...
É por isso que sou a boba que vocês tanto desmerecem.

Ana Luiza Pereira

O Casamento de Dalila e Keroppi


Ela era simples. Bonita para ele, feia para os outros. Dalila era apenas uma cadela; chorosa num parque. Ela não chorava porque era só, pois ela era muito bem cuidada pelo seu dono, mas chorava porque ninguém a olhava. Só porque perdera um olho num acidente, começara a se achar feia e que ninguém a olharia como ela é, sem ligar para a sua aparência.
Mal sabia ela...
Do outro lado do lago, havia um sapo. Lindo, sapeca e travesso sapinho. Ele tinha uma dona, mas mal olhava para ela quando estava naquele parque. Ele olhava para o outro lado do lago; ele olhava para a triste Dalila. Ele sempre ficava admirado, estagnado, entorpecido com a linda cadelinha. Não entendia sua tristeza:
- Por que choras, ó linda cadelinha? – perguntou o pequeno sapinho ao se aproximar pulando ao seu lado.
- Me chamo Dalila, pequeno sapinho. Choro porque sempre que venho aqui, neste parque alegre, e me vejo neste espelho d’água, lembro que nunca serei feliz, nunca mais serei igual. Não com esta aparência feia que tenho. – respondeu a cadelinha tristonha.
- Por que ligas tanto a aparência? Sabe o que vejo? Uma linda e fofinha cadelinha que se entristece por nada. A beleza não está na aparência, cadelinha, mas em seu jeito e sorriso.
A cadelinha sorriu.
- Qual o seu nome, pequeno sapinho?
- Me chamo Keroppi. Sou um humilde sapinho que passa os dias a te observar, mas nunca havia entendido quando ponha-se a chorar. – disse Keroppi galanteador.
Os dois começaram a conversar e todos os dias se encontravam todos os dias naquele parque para conversar. Sempre ansiavam a próxima conversa e se preocupavam quando, por algum motivo, o outro faltava.
Seus amigos começaram a brincar com eles chamando-os de namorados. Até que um dia Keroppi confessou aos amigos: ele queria beijá-la. Dalila que se aproximava, vagarosamente, ouviu o que o sapinho disse e, vermelhinha, confessou ter o mesmo desejo que Keroppi. Os dois conversaram e confessaram seus amores um pelo outro.
Dalila, medrosa, contou ao seu dono a sua linda história de amor. Mas ele não gostou nada, proibindo os dois de se verem. A dona de Keroppi fez o mesmo, porém descobriu através de uma carta de Dalila.
Mas eles desobedeciam. Sempre davam um jeito de se verem.
Até que um dia, Keroppi levou-lhe uma rosa:
- Querida cadelinha, o destino nos juntou, então, nossos donos não poderão nos separar. Será que comigo aceitarias se casar?
- Claro, meu sapinho! Contigo irei casar, pois já és meu principezinho, irei para sempre e amar.
E os dois então fugiram, para longe se casar. Para sempre se amaram com o suave sabor do recomeçar...

Ana Luiza Pereira


"I do swear that
I'll always be there
I'd give anything and everything and I'll always care
Through weakness and strength,
Happiness and sorrow,
I will love you with every beat of my heart"


From this moment on - Shania Twain