Tempo

Existem as batalhas,
os dias de luta.
Todos esses dias são infindáveis,
o tempo não passa e o dia seguinte é igual ao ontem.

As feridas não se cicatrizam.
Não há tempo para isso,
nem aquilo.
Simplesmente não há tempo, só luta.

Existem os dias de paz.
Raros como ver um dodô nos dias de hoje.
O tempo prega peças nesses dias:
uma hora se passa em um minuto
e até o piscar dos nossos olhos parece perda de tempo.
Tempo precioso
que nunca parece ser bem gasto.

Contudo, sinceramente, existem apenas dias.
A noção do tempo e o rótulo de "guerra" e "paz" somos nós que damos.
Nossa percepção muda de um dia para o outro
e nunca é igual, mesmo quando separamos em caixinhas.

São apenas dias, é apenas tempo.
A guerra e a paz estão em minha cabeça
e eu as projeto em algo, como nessas horas eternas.
Se eu não as projetasse, como seria o tempo?
Bem, creio eu que o mesmo.
Apenas minha percepção de observá-lo e vivenciá-lo mudaria novamente.

Ana Luiza Pereira

Ouça o que eu digo

Ouça o que eu digo:
Este século vive um grande mal.
Qual mal?
Um mal à espreita.
Os maiores males de um século vivem dentro daqueles que constroem a história do mesmo.
O mal não tem forma, face, lugar, cor, religião...
O mal só existe, 
resiste, 
insiste...

Ouça o que eu digo:
O bem é mais difícil de se encontrar.
Para que exista o bem,
necessita-se de sua face reversa,
contrária,
contraditória.
O bem não tem moradia, pois é andarilho.
Ora, se o mal mora em nós, o que o bem é além de revolução?

Ouça o que eu digo:
Estender a mão é mais difícil que apontar o dedo.
Qualquer ato de bondade é revolucionário,
pois o mundo vive um grande mal.

Ouça o que eu digo:
O maior mal do mundo não é a tecnologia,
mas quem a usa.
Não é a religião,
mas quem a prega.
Não é o poder ou o dinheiro,
mas quem usurpa.

O maior mal do mundo é o ser humano,
ser nojento,
repulsivo,
doentio e doente.
Ser que se julga consciente, mas não usa a consciência,
não ajuda o mundo, o outro e nem a si próprio.

O mundo corre perigo com esse "mal do século"
e não há muito o que se fazer, 
pois a doença se espalhou rápido demais.
Ouça o que eu digo.

Ana Luiza Pereira

Boas-vindas, novamente, velha amiga!

Boas-vindas novamente, velha amiga!

Quanto tempo faz? Ultimamente você só tem passado por mim e ido embora. Deixa seu rastro de raiva, (auto)destruição e solidão profunda em sua passagem e eu sinto, como um cordeiro manso recebendo pauladas do abate.

Fazia tempos que você não me puxa pelo pé, afundando-me na areia movediça dos meus piores sentimentos. Fazia tempo que não escrevia sobre isso com caneta, papel, suor e lágrimas. Recordo-me dos tempos áureos, em outrora, quando essa prática me era recorrente. Escrever me fazia bem e eu sinto falta dessa paz... Pena que ela só é acompanhada da sua tormenta.

Sei que não está feliz com o meu silêncio, esse gelo que dou era para demonstrar o quanto fiquei forte mesmo com você me abalando profundamente. A raiva? Eu sinto. Esmurro paredes e chão até passar. A dor? É real. A angústia? É vívida. Retira-me dos mais doces sonhos, tira meu sono, minha fome, a vontade de viver e a capacidade de respirar.

Estou pedindo mais ajuda dessa vez. Você é grande demais para continuar combatendo sozinha. Contudo, você vive à espreita dos meus piores momentos para me arrebatar de volta à sua tormenta.

Posso te tratar como velha amiga, pois já conheço seus truques e artimanhas. Não existe um pó de pirimpimpim que possa me salvar de ti, mas existe a ação e a escolha. A escolha de dizer "NÃO". Dói escolher ir contra sua corrente, ainda mais porque é uma escolha diária e estou cansada dela. Porém, ninguém pode escolher por mim.

Sou fraca e vou me dar a chance de fraquejas, chorar, berrar e surtar sem problemas ou julgamentos, mas a luta continua no dia seguinte e vai continuar até o fim dessa vida. Não haverá vencedores nessa guerra, lutaremos até à morte e morte por exaustão. Contudo, não permitirei você vencer esse combate. Se prepare para o "até logo".

Ana Luiza Pereira

Cotas

No meu sangue não há cotas.

Sou misturada de mil raças e ainda tem espaço para mais umas,
Miscigenada desde os índios e colonizadores imigrantes desta terra.

Tenho o sangue de tanta gente 
que a percentagem de cada lugar seria quase a mesma,
Me caracterizando ainda mais brasileira

Tenho o sangue do mundo e ninguém tem o sangue igual ao meu.
Quando eu tiver descendentes, ainda assim, o sangue não seria igual...
Será um sangue mais misturado, 
miscigenado, 
mais brasileiro.

No meu sangue não há cotas, 
mas há sangue.
Sangue dos verdadeiros donos desta terra:
Todos massacrados,
torturados,
estuprados.
Meus cabelos iguais à índia que teve que casar com um colonizador,
à força "do amor".
Meu sangue me caracteriza filha
de uma nação onde a madeira que deu o nome de seu país
tem a mesma cor da pele dos verdadeiros donos desta terra.

Meu sangue também tem senzala e casa de engenho.
Também tem o som abafado dos tambores
e banquetes em casas de fazenda.

Meu sangue não há cotas, 
mas tem história para contar...
História escrita com o próprio sangue
de pessoas que poderiam ser da família, um dia.
Sangue de presos e torturados,
silenciados
e sangue de torturadores com as mãos no fuzil sujas de sangue.

Meu sangue não há cotas
e tem mais história de imigração 
que as páginas de livros de história.
Minha pele não é branca, mas é a cor da pele que morreu de fome,
morreu de guerra,
morreu no sol.
Vislumbrou uma oportunidade de tentar ser feliz em outra terra 
e tentou.
Minha pele tem a cor de quem trabalhou desde pequeno no sol
e tem mãos calejadas e grossas.

Meu sangue é de imigrantes
de vários países colonizadores
e de países colonizados,
sofridos,
misturados.

Meu sangue não há cotas
e, se tivesse, 
eu não seria filha do Brasil.

Ana Luiza Pereira

Imigrantes

Sou barro, venho dele e volto para ele
Carrego a marca da emigração
E para a imigração, vou voltar...

Ana Luiza Pereira