Carta ao passado

Querido passado,

O que queres de mim? Quero  deixar-te para trás e viver feliz, mas me chamas e me fazes olhar para trás ao invés de olhar ao redor. Estragas meu futuro ao querer fazer parte dele e não apenas ficar no lugar que é seu por direito: no passado.
Fazes muito mal ao lembrar-me das desgraças feitas, embora estas desgraças me tornaram quem sou. Porém, algumas delas me dói ao lembrar-me, fazendo que uma lágrima invisível percorra meu rosto, enquanto engulo secamente a vontade de chorar, afinal, não irei mais chorar por ti, passado.
Agradeço-te por me tornares quem sou, mas entenda que meu futuro não depende de você, ao contrário, depende de que você vá embora. Fique no passado e não voltes mais. Não me dê dores de cabeças e desavenças por ti.
Já não me humilhaste o suficiente? Já não me degradaste e me definhaste a ponto de querer morrer? Ou queres brincar comigo? Fazer de mim uma marionete inconsciente e tola em suas mãos frias? Pois eu respondo não. Não quero isso.
Meu futuro me chama e me obriga a seguir sem olhar para trás. Meu futuro guarda minha felicidade, mas, para ser feliz, preciso deixar no passado aquilo que já me fez chorar. Então, fique aí! Seguirei em frente para o meu futuro sem medo de ser feliz e te deixarei no seu devido lugar, no passado, para que tanto eu quanto você aprendamos que, em certas coisas, melhor não se mexer e não brincar. Fique que eu irei.

Atenciosamente,

A pessoa que sonha em ser feliz.

Ana Luiza Pereira

Relato de dia das mães

Hoje foi um dia das mães incomum. Fui ao velório de um dos meus tios-avô. Ao chegar, vi o corpo num caixão coberto de flores e a bandeira do seu time do coração, Botafogo, estirada sobre o corpo e, ao lado, minha tia na cadeira de rodas, meia fraca, quieta, com um espanto visível por ter que se despedir do seu amor, mas sempre orante, sem derramar nenhuma lágrima. Imagino a dor dela, ao se despedir do marido no dia que deveria ser dela, mãe, cercada de filhos e netos tristes, ela se mantém forte apesar da idade. Ela me lembra muito minha falecida avó, guerreira, adorável e forte. Olho ao redor e vejo meu avô aos prantos de saudade e de medo da morte, de deixar sua família para trás desamparada. Olho mais ainda ao redor e vejo mais parentes da minha extensa família chegando, amigos, todos que amam minha tia Araci e amam e conheceram a elegância do tio Ruy. Sentiremos saudades de ti, tio! 

Ana Luiza Pereira

O vaso da vontade

Sempre tive a vontade
de gritar,
de falar,
de dizer
o que já disse e
digo
e não canso
nem de pensar,
por quê? Não há.
Só a vontade que
me consome,
me instiga
e eu vou dizer:
Eu te amo,
hoje
e sempre!

Ana Luiza Pereira

Conjugando "Brasil"


A situação do Brasil é tão triste que merecia um verbo próprio.
Um verbo sinônimo de caos, onde tudo vira pizza, cerveja e futebol.
Enquanto isso não acontece, conjugamos verbo "Brasil" assim:

Eu me enfureço
Tu não fazes nada
Eles nos roubam

Nós protestamos
Vós votais no malandro
Eles riem

Ana Luiza Pereira