A desilusão do sonhador

O vento sopra
e leva com a poeira 
sonhos que se tornam impossíveis.

Sonhos enferrujados no suor oxidante do sonhador,
sonhos da morte da esperança
- não o inseto -...

Os papéis com as metas se tornam borrados,
as tintas deles já se misturara por causa das lágrimas.
Suas rugas serão eternas por tal desilusão.

"Qual será meu Plano B?"
Revira os papéis, 
mas nada encontra além de sonhos 
que não poderá mais realizar naquele ano.

"Não desista!"
Ouve das vozes que tentam animar.
"Não era para ser esse ano..."
Mas o sonhador não quer saber...
Ele apenas se depara com o sua mão longe do seu objetivo
e só isso que o entristece saber,
e só isso que ele deseja saber.

Ana Luiza Pereira

Ursinho Pimpão


Lembro de quando pedi ao meu pai um ursão de pelúcia de aniversário. Tinha acabado de perder minha avó e mal recebia abraços involuntários dos meus pais e irmãos, provavelmente, era porque eu não pedia isso. Só sei que naquele momento, eu pensava que eu finalmente teria alguém para sempre abraçar, que ele supriria a falta que minha avó me fez (e ainda faz).

Muitas vezes deixei meu urso, cujo nome que eu batizara foi Odin (deus Nórdico, pai de Thor - nome do meu cachorro), de lado, mas todas as vezes que chorei querendo a presença da minha avó para me acalmar ele esteve ali.

Já o rasguei nos momentos de raiva porque nem tudo sai do jeito que se quer, mas depois consertava, pois eu preciso desse urso. Nos momentos de decepção ou de medo, durmo com ele; preciso de alguém silencioso ao meu lado, então, deito em seu colo e imagino as carícias da minha avó quando era criança. Muitas das vezes, isso funciona de tal forma que me sinto bem melhor.

A verdade, é que Odin é para mim, em muitos momentos, um ursinho Pimpão, não me deixando esquecer o lado puro que há dentro de mim. Afinal, por mais que deixemos nossa infância de lado, temos que guardar sempre o lado bom de ser criança conosco...

Ana Luiza Pereira

A verdade dos sentimentos

Eis que apresento a verdade que circunda todos os séculos: é burrice dizer que você está certo. Tudo muda... Sentimentos, então... Com sentimentos não há futuro nem imperfeições, apenas existe o agora, o imediato e um passado que já se tornara distante. E por serem assim que nos torna humanos, com momentos mais perfeitos do que a própria eternidade.

Ana Luiza Pereira

Das Vantagens de ser Bobo (escrito por Clarice Lispector)


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia. 
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.
Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.


Clarice Lispector

Acenda a luz (música do Rosa de Saron)


Já se sentiu tão fraco, sozinho flutuando pelo ar?
Sem nenhum lugar em vista pra pousar?
Já se sentiu vazio, perdido e procurando um cais seguro?
Um mundo em que pudesse se encaixar?

Pra acalmar sua alma, seus sonhos libertar
Mude as vozes que soam em você,
Há mais caminhos para percorrer
Conquiste tudo que é seu, sem medo de sofrer

Acenda a luz e deixe brilhar
Agora é sua vez de se encontrar
Acenda a luz e deixe brilhar
Se ame pra que eu possa te amar

Já se sentiu estranho, gritando sem ninguém pra escutar?
Como se o mundo inteiro fosse te julgar?
Já se sentiu pequeno, sem forças pra lutar, fingir?
Abra a porta se ela não se abrir

Não deixe ninguém insistir que você não sabe e pode conseguir
Não desista de nunca desistir

Rosa de Saron