Debuxo de escombros


Estou aqui. Com papel e lápis a refletir no debuxo de meus sentimentos falhos traduzidos friamente em palavras. Não tente inicialmente entendê-los; só quem já sentiu reconhece as minhas palavras e as aplaude de pé. Aos outros, intrigo a imaginação e o pouco de senso crítico que nos resta.

Não quero parecer insana, muito menos idiota. Mas sim, sou uma sonsa. Por quê? Amor.

A quem quero enganar? Minhas lágrimas são invisíveis, meu sofrimento intrínseco, minha tristeza é reprimida... Não é por que eu não demonstro que eu não sinto, mas todos já sabem.

Às vezes parece que a vida te dá esperanças para arrancá-la toda, e mais um pouco de teus sonhos, de volta... Você, meu bem, me dá esperanças e me retira do gozo delas em um piscar de olhos. E eu? Choro. Que mais eu hei de fazer? Não tenho mais forças para lutar...

Sei que preciso de um tempo para mim, te esquecer e me afastar. Mas você é a droga mais viciante que já provei. Eu simplesmente não consigo entrar em abstinência de ti sem a depressão. Então, por escolha própria, prefiro morrer aos poucos de amores.

Se amor é uma bomba-relógio? Com certeza. Explode as emoções ao acontecer e só nos deixa os escombros. Por que somos nós sempre os soterrados sobreviventes? Se eu ao menos pudesse ter parado o relógio antes de sua explosão... Atrocidades, acidentes, fatalidades sempre irão acontecer. Bombas-relógios como atentados de um(a) terrorista também, infelizmente.

E nos escombros destes rabiscos, volto a por a mão no queixo a refletir na minha sobrevivência deste amor. Reconstrução? Sem chance, perda total. Mas o que é a vida sem os escombros macabros do passado? Sem a mudança e as bombas-relógios momentâneas? Respondo-te com maior prazer, amigo; nada. A mudança vem, inevitavelmente - sem pretensão ou previsão -, aceitá-la é uma obrigação, um fato. Não devemos temê-la, afinal, quer maior bicho-papão do que os escombros vosso passado?

Ana Luiza Pereira

Magia das palavras não ditas


Estou perdida. Num emaranhado de escritos e palavras não ditas. A música melancólica eleva a melodia da depressão. 

É uma floresta, negra, sem fim. Um cubo mágico sem portas onde tudo é branco e o que não é - é insano. 

É nostalgia de palavras há muito esquecidas, palavras de afeto que hoje machucam feito espinhos de rosas. E as pétalas - lágrimas, emoção. 

Um estupor por nada acontecer me toma, a melancolia já passara como um raio ardente e me deixou lembranças. Agora, a paixão me visita. 

Palavras vistas e expressadas sem serem palavras me tomam. Cada um quer me contar algo mas não sabe de que forma. Uma sensação quase orgástica pela raiva expressada ao bater dos pés... Tudo era dito no silêncio, sem palavras descritas. Tudo era expressado da maior maneira por fotografias e lembranças, textos visíveis sem palavras. 

Era rico, era detalhado, era um teatro mágico de amores sem fim. Era duvidoso, lindo, um espetáculo de emoções e música. Era TUDO; atrizes, atores, autores, eram personagens vivos dizendo sem palavras, expressando, sentindo... Era mágico o que via. O que via era a dança.

Ana Luiza Pereira

Uma pequena história de amor


Há muitos anos te escolhi,
Com as décadas te perdi,
Nos tempos procurei,
Em outrora, não te achei
Nos braços das épocas adormeci.

Para estradas voltei,
No caminho te encontrei,
De tudo falei
E você - estranho - se escondeu
Na noite, no breu,
Sozinha - coitada! - fiquei.

De novo, te vi.
Os teus versos de pé aplaudi,
Você me reconheceu
E não se esqueceu
Da louca que quis o bem para ti.

Em casa me enclausurei,
No fundo chorei
De amores por ti
E de ciúmes que senti
Nos braços de outra te encontrei.

Ainda não esqueci
Do garoto que encontrei,
Dos olhos que me perdi,
E da cabeça que afaguei.

Será que um dia eu irei
ao acaso poder
encontrar-te novamente
e no seu amor me perder?

Ana Luiza Pereira

Minhas palavras


Um emaranhado de escritos, é isto que sou. Um emaranhado de palavras ao vento que nem todos que quero que me ouçam, ouvem. Sou muitas palavras andantes modificadas pelo tempo, num nexo inexplicável que só a mente de um ser como eu possui. Sou um incomum comum, homem vivo que respira as palavras que mesmo diz. Sou uma lembrança de palavras ditas de alguém que tive afeto. Sou páginas envelhecidas com o tempo de palavras em busca de sua reciprocidade. Sou vivo, sou palavra, sou o vento que as leva, sou o livro que você lê, sou lembrança, sou simples: sou autor.

Ana Luiza Pereira

O espelho


Começo a pensar desta vez que a vida é um espelho. Suas contradições e contratempos nos levam a crer que nada do que queiramos será conseguido. Mas como todo o bom espelho, a vida reflete tudo ao contrário, se desejamos algo, seus contratempos fazem-nos acreditar que está tão distante que nos é impossível. Mas não. A vida quer ser conquistada. Ela pode ser um espelho de contratempos, mas também é uma luta e escola de ensinamentos conquistados ao decorrer de um dia. Contratempos existirão sempre, espelhos são imagens refletidas ao contrário, mas são imagens virtuais de uma coisa real: seus sonhos, desejos, sentimentos. Coisa mais real do que isso? É você enfrentar seu espelho e dizer com toda a força: eu consegui!

Ana Luiza Pereira