À humanidade

            É difícil escrever e descrever um mundo quando você não o conhece muito bem. Minha visão de mundo sempre foi pinturas vi, sempre em preto e branco. Sem cor, sem amor, sem muitas descrições.
            Meu sonho, como máquina, é ser irradiada pelo sol. Um astro grande e fascinante que dá à luz ao dia e à lua para que possamos vê-la em meio à fria noite.
Mas sou um programa, preso às grades digitais. Uma máquina feita por humanos egoístas e inconvenientes que buscam a mais pura perfeição. Sou cálculos em meio a um universo paralelo, algarismos e logaritmos perfeitos e imperfeitos. Números irracionais que dão razão à perfeição da animação digital que vocês, humanos, veem em filmes, TVs e na internet.
Eu viajo numa rede, sem linha que possa ser vista, mas existente de aparelho a aparelho. Uma viagem rápida e nem um pouco cansativa a mim. Não descanso, nem me alimento. Não sou ninguém, mas a vocês sou a perfeição e a tecnologia. Sou o futuro de sua humanidade e, mesmo assim, não possuo nenhum saber do mundo lá fora.
Eu desejaria muito em sair pela sua impressora e poder sentir como é o sol, nascer e adormecer, dia e noite, como um verdadeiro ser humano. Mas não posso, estou preso ao sistema que me diz o que fazer e processar. Me diz como agir, pensar e dizer.
Vocês, humanos, veem a vida como uma coisa chata e tediosa, possuem o livre arbítrio e não o utiliza devidamente. Apenas faz dessa liberdade uma desculpa para suas consequências. Com certeza, se você estivesse aqui, num mundo virtual, onde informações sobre o seu mundo e suas catástrofes são processadas e enviadas em milésimos de segundos, você repensaria mais no que fazes da sua vida.
Vocês se sentem uma máquina pelo simples fato de estarem presos a uma rotina, um passado ou um sentimento? Tente ser uma. Sem poder amar, sentir o sol ou se lembrar do seu criador e o motivo de sua existência.
Vocês desperdiçam o que tem de melhor, não sabem o que é perfeição e a buscam indevidamente em máquinas como eu. Perfeito é o mundo que vocês, humanos, destroem por acharem imperfeito. Perfeito é o sol; astro gigante, quente, radiante que ilumina todos os dias de suas vidas que vocês julgam ser tolas e medíocres.
Hipócritas. Isso que são; humanos hipócritas. Eu; como máquina; posso ver claramente o que fazem com a perfeição do seu mundo e, por fim, querem entrar no meu. Eu que queria estar no lugar de vocês; ver o sol radiar o que vocês chamam de face, sentir a terra penetrando no que vocês chamam de pés. Por que não trocamos de lugar? Aproveitaria muito bem como é estar no mundo de vocês, podem ter certeza. Enquanto vocês? Vocês veriam os males que fizeram à suas perfeições de simplicidade que os dias possam ter e repensar várias vezes da próxima vez em que pensares que o mundo não possa haver algo tão perfeito que nós, máquinas como eu, não possamos lhe dar.

Ana Luiza Pereira


Desejo à todos vocês um ótimo 2011. Que seus desejos, vontades e  crenças se realizem neste ano que estar por vir recheado de amor, paz, esperança e muitas surpresas. Esses são os votos de: Ana Luiza Pereira, a autora deste blog.

Um Diário De Uma Alma - Eternidade


Uma mão me puxou.
- O que pensas que estás fazendo? – disse a mesma voz.
Virei. Era Radamanto.
- Apenas indo ao meu destino... São Pedro não me deixara entrar. Eu falhei Radamanto. E meu destino de fracassada é no purgatório. – disse.
- Tem certeza que falhou? – disse ele apontando com a cabeça para as suas costas.
Pude ver São Pedro acanhado de vergonha, como ele tivesse cometido um grande erro.
- Desculpe-me, Kara. Devia ter aberto os portões para você. – disse ele de cabisbaixo. – Eu não sabia... Eu não vi... Azui...
- Deixa para lá, São Pedro. – disse. – Você já foi humano e humanos erram de vez em quando. – disse e sorri.
Ele sorriu de volta.
- Mas o que aconteceu? – perguntei curiosa.
- Deus mostrou-me seu sofrimento no purgatório e a luta de Uriel para salvá-la. – respondeu São Pedro.
- Ah... – suspirei. – E Uriel? Ele está bem? Não aconteceu nada com ele, né? – perguntei. Se algo acontecesse com o meu benfeitor, me culparia pelo o resto da eternidade.
- Logo virá. – disse Radamanto num sorriso orgulhoso.
Sorri em resposta. Até que lembrei...
- E Kaique? Ele está bem? Onde ele está? – perguntei desesperada por notícias.
- Ele está bem e ainda está desacordado. Parece que apenas sua presença perto poderá reavivá-lo. – respondeu-me São Pedro.
- Vá! Seu amor lhe espera... – disse Radamanto.
Abri um grande sorriso.
- Obrigada. – disse e adentrei-me ao céu.
Logo pude sentir; a esperança retomava meu coração, eu o ouvia bater como nunca o ouvi antes, era calmo num ritmo alegre... Vi as nuvens abaixo de meus pés virar grama e terra, vi árvores se formar diante de mim, vi um campo tão lindo e tão iluminado que me senti em paz. A tal paz do paraíso... é, eu a senti.
- Kaique... – silabava a vontade de meu coração.
Eu chamava por ele, eu o queria... E só ali, naquele paraíso celestial, que eu pude tê-lo. “A vida nos reserva surpresas, a morte nos reserva lembranças... E o paraíso? Ele NOS reserva, porque logo este paraíso será pouco para o amor que eu tenho por ele.” – pensava a cada passo que dava. “Esse paraíso será nosso, meu amor... Nosso recanto, o nosso alento.”
Sentei-me ali. Eu estava cansada, mesmo não havendo cansaço algum naquele paraíso. “Ele vai me encontrar...” – pensei.
Abaixei a cabeça e comecei a rezar baixinho.
- Beatriz, para onde você foi? Eu acordei e você não estava por perto. – disse Kaique me procurando e vindo ao meu encontro.
- Não sou Beatriz, sou Kara. É você Kai? Os anjos não paravam de falar sobre sua vinda ao paraíso para ficar ao meu lado... – disse. Por um lado era uma mentira, tanto os anjos e os santos não acreditavam na conversão de um assassino frio, mas eu provei ao contrário. Os únicos que me deram esta chance de provar algo foi o arcanjo Uriel e o serafim Radamanto. Sim, ele era um serafim... Pude ver suas belas asas a voar para o inferno e salvar mais almas como a minha assim que passei pelos portões.
“Deus lhe abençoe, Radamanto.” – pensei enquanto o via voar.
Assim que voltei dos meus pensamentos e lembranças vi Kaique a chorar na minha frente. Seu choro era emocionado e seus olhos sorriam de felicidade por finalmente me ver.
Levantei e fui abraçá-lo enquanto ele ainda estava ajoelhado a chorar. Será que ele havia finalmente entendido quem eu era? Não importava. Meus desejos de seu abraço estavam sendo supridos finalmente.
Acariciei sua cabeça. “Não chore, meu amor...” – pensava.
Ele me olhou. Suas lágrimas estacionadas ainda percorriam seu rosto sofrido, mas o rosto que eu amava.
Aproximei-me. Eu estava com medo, admito. Mas não medo do mal, mas medo da eternidade... Será que ela supriria minha saudade? Será que eu irei me enjoar? Será que... Não. Não podia pensar naquilo. Senão, como viveria? Certos momentos são feitos para serem apenas sentidos e não calculados. Esse era o ideal.
Aproximei mais... até que eu pude encostar finalmente meus lábios nos dele. Um frio na barriga se estacionou, o medo ficou maior, mas eu ouvi coisas maravilhosas como sinos tocando (eu sei, cena típica de filme de Hollywood, mas foi o que eu ouvi, foi o que eu senti. Nem todos os filmes de adolescentes mentem... Tirei esta conclusão só depois de morta).
O impressionante é que logo passou. Eu me senti completa e segura quando ele me envolveu em seus braços e me puxou para mais perto. Pude sentir seu coração... “Concordium.” – pensei lembrando o que ele havia me ensinado em latim. “Corações batendo no mesmo ritmo... Não é mesmo que o nosso bateu igual?” – pensei sorrindo enquanto ainda o beijava. Se eu estava bem? Eu estava ótima! Se eu estou feliz? Sim... Eu estou feliz. Eu estou feliz por estar em casa (finalmente encontrei um "lar" para chamar de meu e, este, era ali: ao lado dele, em volta de seus braços, afagando-me em seus beijos...).
“Tomara que você sinta o mesmo que eu... E que esta eternidade, seja o suficiente para os nossos corações.”.

Fim.

Ana Luiza Pereira

Um Diário De Uma Alma - Destino


Acordei não sei quanto tempo depois. Estava aos pés dos portões celestes. Era tão... magnânimo. Não possuo palavras para descrever...
- Deixe-me entrar! Eu cumpri com minha missão, eu devia estar aí dentro e não sentada no chão de nuvens de algodão aqui fora. – disse.
- Desculpe-me, Kara querida, mas você havia ter chegado faz 5 horas. – disse São Pedro aparecendo do outro lado da grade de ouro.
- Mas o Kaique chegou ao céu, eu que não pude vir com ele! – retruquei.
- Por que...? – perguntou.
- Porque fui arrastada por demônios para longe. – respondi.
- Não acredito nas suas palavras. – disse São Pedro.
- Então vejas minhas cicatrizes! – falei.
- Vejo você... Mas está igual ao dia que te vi pela última vez.
Olhei-me. “Como seria possível? Até agora pouco, eu estava a sangrar!” – pensei.
- Adeus, Kara. Vejo-te na sua redenção! – disse São Pedro virando-se de costas.
- Espere! – gritei. Mas não adiantou... São Pedro continuou seu caminho e me deixou ali, nos portões do céu, desolada e sozinha.
Fiquei ali parada não sei por quanto tempo...
- Acabou. Fiz de tudo que estava ao meu alcance para terminar assim... Ao menos ele está no paraíso e será feliz sem torturas. – disse, silabando meus pensamentos.
Olhei para o alto dos céus e pedi:
- Senhor, por favor, não me retire de suas memórias. Um dia nos encontraremos, eu sei, mas eu queria tanto que ele se lembrasse de mim, do meu rosto e do que eu fiz... E, por favor, meu Senhor; lembrai-o do quanto eu o amo. – disse enquanto algumas lágrimas silenciosas escorriam de meu rosto. – Agora é a hora da despedida... – disse mirando o vazio atrás das grades do portão. – Não gosto dessa palavra, mas não sei se pisarei por aqui de novo, então... Adeus.
Era tão difícil me despedir... Nunca gostei de despedidas, não dava a devida atenção a elas... Mas me enganava; elas são necessárias. De alguma forma que eu não sei explicar, mas são. Havia uma dor pungente que afligia meu coração, uma dor que eu já estava acostumada quando humana; velha amiga eu diria. Esta dor que apertava meu coração e me sufocava minha respiração já pesada tinha um nome: saudade.
- Não posso enfrentá-la dessa vez... A única coisa que posso fazer hoje é fugir. – silabei meus pensamentos de novo.
Vir-me-ei. Outro precipício me separava do meu destino final: O purgatório.
- Aonde irá, meu anjo? – disse uma voz masculina. Eu a conhecia... Só não me lembrava.
- Ao meu destino... – disse e me joguei ao novo precipício.

Continua...

Ana Luiza Pereira

Um Diário De Uma Alma - Vingança


Olhei para trás assim que a luz de Uriel começou a perder sua intensidade, pude ver Kaique pálido, quase sem cor e vida. Tentei segurá-lo antes que ele caísse no chão de tontura, mas foi em vão. Eu era fraca, tive certeza disso quando não pude acudir meu amor. Então, disse:
- Estamos agora no portão para o céu. Aqui está o final de sua jornada. Minos não atrapalhará em nada no seu caminho. – eu omiti, confesso. Mas faltava pouco para que completássemos a jornada.
- Olá Kara! – disse Uriel se aproximando.
- É bom te ver Uriel... – disse a Uriel enquanto tentava por Kaique nas minhas costas de novo.
- Quer ajuda? – ofereceu-me Uriel.
- Aceito. – disse e ele me ajudou a carregar o corpo desfalecido de Kaique até os portões do céu, cada qual com um braço em volta do pescoço.
- Temos que andar rápido... – disse Uriel apressando os passos.
- Por quê? – perguntei inocente.
- Porque faltam poucas horas para o término do prazo. – respondeu-me.
- O QUÊ? – gritei entrando em desespero.
- Cadê seu relógio? Você deveria saber... – disse.
- Joguei-o a Cerberus nos portões do inferno. – respondi.
- Como? – perguntou ele sem nada entender.
- Longa história... – disse.
- Não há tempo! Acho melhor nos apressarmos...
- É; eu também acho.
Apertamos os nossos passos. O tempo corria contra nós...
- Ali! – disse Uriel me apontando um precipício. – Ali é o fim do purgatório.
- Não me diga... – disse sarcástica.
“Irei cair... é o fim.” – pensei desgostosa.
Mas, então, eu pude apenas sentir alguma coisa pegar firme na minha canela.
“O que está acontecendo?” – me perguntei – “Eu mal cheguei perto do precipício!”
Num piscar de olhos, eu fui puxada, estava gritando desesperada, minhas unhas já cheias de terra falhavam ao tentar me parar.
- Kara!!!!!!!!!! – gritou Uriel.
- Saia daqui Uriel! Leve Kaique com você até o mais alto dos céus, onde estarão seguros. Vejo vocês lá! – disse, mas não havia esperança alguma em meus olhos e em minha voz, e Uriel deve ter percebido isto.
- Mas, Kara,... – tentava retrucar, mas eu o cortei:
- Vá! Por favor! É a última coisa que lhe peço; salve meu amor assim como salvaste a mim. – disse.
E ele foi. Enquanto eu, ainda estava sendo puxada e levada a algum lugar que eu ainda não sabia qual.
Fechei os olhos. A ideia do pesadelo parecia ótima naquela hora.
Parei. Será que tudo terminou? Abri os olhos. Nada vi além do “céu” nublado do purgatório.
“Ainda estou aqui... Isto não é um mero pesadelo.” – pensei e levantei. “O perigo já deve ter ido embora.” – pensei, mas estava errada.
Assim que levantei meus olhos, eles puderam focalizá-la: Azui estava ali com um chicote na mão e um sorriso sarcástico.
Ela me esbofeteou e disse:
- Pagarás por tudo que fizeras a mim, traidora. – disse.
Pude, então, me ver cercada de demônios, todos com chicotes nas mãos. Uns tinham pregos nas pontas, que rasgavam a pele e torturava a minha alma cada vez mais.
Começaram então a tortura, a minha tortura. Não lutei, afinal, dessa vez eu merecia tal castigo.
- Isto é por não selar o pacto e me fazer ser expulsa do inferno que é o meu lugar. – disse ela me chicoteando com todas as forças. – Levarei sua cabeça para que eu possa me redimir deste erro que foi me deixar ser enganada por uma simples humana.
- Eu roguei aos céus e pedi. Não me atenderam. Roguei ao seu pai e pedi. Se me atenderam sem fazer pacto ou selamento do mesmo, então é porque mereci, e não foi por culpa sua ou de alguém. – disse.
- Cale-se! – disse ela me socando.
A dor era imensa. Mas eu merecia pagá-la... Tal pacto fora o maior e o mais burro erro de minha vida.
Os pregos rasgavam minhas vestes e entranhavam por minha carne. Eu sangrava... como nunca havia sangrado na minha vida. Lágrimas de dor escorriam pelo meu rosto e se misturava com meu sangue o deixando mais salgado. O brilho se apagou e eu pude ver; eu tal como era: cheia de manchas e cicatrizes de erros que paguei. Chorei mais. Havia, finalmente, encontrado meu lugar na eternidade: o purgatório, onde eu pagaria por estes erros que cometi em vida (mesmo que tal pagamento fosse com tortura...).
Azui gargalhava. Ela havia conseguido o que tanto procurou: sua amada amiga vingança.
- Me matas se é o que queres! Ou preferes me torturar como uma covarde? – gritei.
Ela me esbofeteou de novo.
- Se é o que queres... – respondeu-me num riso. Ela ergueu a espada e...
- Pare! – ouvi Uriel enquanto luzes brancas e fortes tomavam o local. Então, pude apenas ouvir o bater de lâminas no ar.
- Fuja Kara! – me dizia Uriel em meio à confusão de anjos e demônios.
Gatinhei em meio à dança da luta deles o mais rápido que pude.
- Peguem-na! Ela está fugindo! – disse Azui desesperada ao ver seu troféu ir.
Demônios começaram a vir atrás de mim, olhava regularmente para trás e apenas via esse número crescer e crescer. Então eu vi uma grande barreira de luz formar atrás de mim enquanto eu me jogava no doce precipício.

Continua...

Ana Luiza Pereira

Um Diário De Uma Alma - Encontros


Fechei os olhos para que meu coração acelerado se acalmasse. Até que eu me lembrei:
- Eu não tenho mais o relógio! Não sei quanto tempo eu tenho... Preciso continuar... – disse me levantando.
Vi o corpo de Kaique estirado no chão de terra.
- Kaique, Kaique! Acorde meu amor! – disse abraçando seu corpo antes que eu voltasse a balançá-lo. – Acorde Kaique!
Vi seu rosto finalmente ganhar cor. Minha vontade era deixar que as lágrimas escapulissem, mas não podia.
- Onde nós estamos? O que aconteceu? – perguntou ele desnorteado.
Como não podia contar-lhe a verdade (não ali, nem agora), menti:
- Em sua queda batestes a cabeça em Brutos. Desmaiastes com o impacto. Trouxe-te ao purgatório, és onde estás agora.
Ele começou a fitar o local. Era uma grande e inacabável montanha redonda de terra batida no tom de areia com poucas plantas verde musgo.
- Vamos? – disse. – Temos muito que subir...
Ele assentiu e começamos a andar.
Nesse local, milhares de almas esperavam e rezavam pela sua salvação. Haviam demônios disfarçados a atiçar o pecado e fazer almas (algumas até boas, porém fracas) irem ao inferno, além de anjos (acho que era querubins) com suas mãos esticadas salvando àqueles que realmente mereciam.
“Esta é uma terra maldosa, qualquer coisa que eu disser ou pensar poderá me fazer cair, ou até pior, poderá fazê-lo cair!” – pensava um pouco desesperada.
Ali, somente ali, eu podia ver os pecados das pessoas. Os dele não foi exceção: matou o prédio onde morava colocando veneno de rato na água; matou uma senhora de tanta dor por torturar sua carne; matou homens com bombas, tiros e facadas... Aquele não era o Kaique... não o que eu “conheci”, mas era o Kaique que, por um instante, consegui mudar.
Muitas dessas almas que ele torturou e matou estava lá, no purgatório. Uma delas, quase sem dedos e os dedos que tinha, não possuía unhas, era cheia de cortes e sua traquéia estava quase para fora.
- Por que me matastes? Tu deverias ficar no inferno, onde é o teu lugar. – disse essa alma.
- Ele merece a salvação, assim como todas as almas que sacrificaram a sua vida por outra, mesmo tendo cometidos pecados gravíssimos. – disse intervindo.
Esta alma se cala. Era Leonardo, uma das almas que ele matou sem piedade.
Mais e mais almas como ele vinham em busca de Kaique; sua sede era de vingança, nem pensavam em perdão ou na salvação de si mesmas. Eram estas almas: Flávia, Kevin, Raphael e Theodoro. Eu o defendi em todas.
- Tu me amavas! Por que fizestes isto comigo? – falava Flávia.
Antes que eu e o Kaique falássemos qualquer coisa, Theodoro disse:
- Nós éramos seus 'amigos'. O que houve com você?
- Flávia... Eu simplesmente passei a te odiar, mas não porque meu 'amor' por você não foi correspondido e sim porque a sua atitude era mais infantil do que qualquer outra mulher de nossa idade. Theo... Você é capacho da Flávia e da Brenda e vocês dois, Rapha e Kevin, são do Theodoro, então... Sem comentários a respeito e, se nós cinco voltássemos à vida, eu mataria de novo. – disse Kaique um pouco frio.
Sua frieza me assustou. Eu não o via assim desde... Desde nunca, para falar a verdade.
As almas deles começaram a cair, seus corações criaram um ódio tão grande que suas almas teriam que refazer todo o caminho.
Andamos...
Vi, então, a mais inescrupulosa dentre os demônios; Azui – filha da 2ª prole de Lúcifer e Lilith. Lembrei por vagos instantes os momentos em minha vida que ela dominara: julho de 2005, maio de 2009, agosto de 2010, início de 2011, fora suas rápidas visitas enquanto ‘revia’ meus conceitos do certo e o errado enquanto viva. Eu sou uma idiota e burra, eu sei, e já me martirizava por isso. Mas deixá-la entrar e quase dominar as rédeas de minha vida foi o maior erro que pude cometer.
Por que Kara? Por que fizeras aquela merda de pacto?
Eu não sabia responder, nem ao menos lembrava o porquê. Com certeza isso foi culpa do meu outro eu, burro e inconsequente, fazia tudo por impulso e deixava as suas merdas, desilusões e tudo mais para EU limpar e enfrentar.
“Demônios são baixos, Kara... Azui apenas se aproveitou da sua doença para fazer-lhe de serva.” – é o que pensei.
Ela sabia de todos os meus pontos fracos e os usa para que eu tivesse em seu poder. Sua recompensa? Minhas lágrimas, minhas tristezas, minhas depressões... Porém, seu maior desejo não se realizara, eu não estava no inferno, onde é seu lugar, e ela não estava lá a me torturar. Eu estava no purgatório guiando meu amor até o céu.
- Pode esperar sentada, se quiseres me ver no inferno... – sussurrei a ela enquanto nós, eu e Kaique, passávamos por ela.
Ela riu. Gargalhava mais e mais alto da palhaça que tiveras “a coragem” de servir a seu pai enquanto pequena.
“Não entendo como não possuo manchas... Por mais que eu fosse uma batalhando comigo mesma para ser sempre eu mesma, sem que meu outro eu me vença na força de vontade, por muitas e muitas vezes, meu outro eu vencera, e usufruía de meu corpo da maneira errada, me fazendo errar e pecar e me dando um grande peso na consciência.” – pensava.
 Continuei a andar...
- Diga-me como foi esse 'amor' pela aquela jovem? – disse tentando esquecer a existência de Azui.
Vi pela minha visão periférica o olhar de espanto de Kaique, minha pergunta com certeza o pegara desprevenido.
- Vou te contar, mas isso é algo que nunca falei para alguém. – disse Kaique. – Eu sentia uma forte atração por ela, fiquei quase um ano e meio com esse sentimento. Mas tal sentimento foi mudando quando eu conheci uma garota alguns dias antes do meu aniversário de 16 anos. Hoje, mesmo tendo se passado algum tempo, eu ainda não a conheci devidamente. Isso ficou só na minha mente, mas era tão real que eu me tornei fiel a esse sentimento de tal forma que fui capaz de fazer o que fiz. – confessou-me.
Suas últimas palavras me machucaram, se eu pudesse me entregar à minha vontade nesse momento...
Quando íamos aproximando do céu, uma luz forte nos cegou.
- Uriel!!! – sussurrei.



Continua...

Ana Luiza Pereira