(A)Normais


EU SOU DIFERENTE. Vivo loucamente esta tediosa vida.

Fujo das "normalidades" por opção. Cada um com seu cada um.

Faço a moda, minhas roupas... Normalidades não está mais na moda.

Meu estilo é de acordo com o que penso, amo e critico. Por isso, ele muda constantemente, assim como eu (quando não estou satisfeita, sempre mudo de opinião e jeito).

Vejo os "normais" serem normais. Terem seu padrão de pensar, agir, amar e criticar. Sua moda e suas músicas são TOP. Mas só são TOP por serem tão normais que banalizaram, e todos os que ouvem, gostam e, por gostarem, dizem que amam.

Mentira dos normais.

Os anormais, assim como eu, amam de verdade o que ouvem, fazem sua moda, pensam e agem de acordo com que julgam ser certo, sendo este "certo" dentro ou fora dos padrões normais.

É assim que sou. Vivo muito bem assim, obrigada. E, não tente me mudar, você não vai conseguir. Isso só me dá pena... Pois quando os anormais dominarem, quem serão os normais para imitarem?

Ana Luiza Pereira


Confesso


Lágrimas e silêncio. Por tantas vezes chorei baixinho para que você não ouvisse e se preocupasse. Lágrimas de dor, de chateação. Sim, por muitas e muitas vezes senti dor por te amar; a dor da distância é a principal. E sim, já me chateei várias e várias vezes. Mas nada que  momentos de reflexão me disse a resposta daquilo que tenho certeza: Eu te amo.

Já cogitei a hipótese da loucura, confesso. Mas se ser louca  é ser feliz prefiro ser louca e feliz ao seu lado. Confesso já ter cogitado a hipótese da separação e depois tentar te esquecer. Mas meu respirar não teria sentido sem a sua existência.

Meu infinito... ele teve endereço certo no instante que te achei. Meu mundo... ele achou a sua respectiva órbita no instante que achei meu astro rei: você.

Enfim, você é meu TUDO (deves estar cansado de ouvir isto), mas por ser meu TUDO, meu medo é de ser roubado e eu voltar a ser um NADA.

Sinto ciúmes; principalmente de todas que podem estar do seu lado enquanto milhas nos separam. Me preocupo; só vendo você bem que eu estarei bem também e meu coração terá paz.

Mas, confesso, eu não sei mais o que pensar. Estava deixando você me guiar com sua luz e amor, mas nem isso minha cabeça ciumenta deixa mais.

Então, confesso a você: meu amor por você não está mais nas suas mãos, deixei-o com o destino. Se me amas de verdade, vá buscá-lo o que te pertence. Com certeza, estarei aqui. Te esperando, com um sorriso nos lábios pronta para recompensar seu esforço.

Ana Luiza Pereira

Um Diário De Uma Alma - Assembleia De Todos Os Santos


Cheguei até grandes portões de grade de ouro puro. Ultrapassei-as ao lado de Radamanto e Uriel. Logo vi; todos os santos que um dia vi em pinturas e imagens, santos que nem conhecia, vi anjos da guarda, querubins, toda a hierarquia celestial estava presente lá junto de São Pedro com a chave do céu junto ao seu peito, a Virgem e Deus.
Eu não conseguia ver seu rosto, e isso importava algo? Eu estava presente a Ele, pura luz e salvação. E, por mais que Ele brilhasse; sua luz não me cegava. Queria me aproximar, pedir-lhe, implorar-lhe a salvação de Kaique... Sei que eu continuava egoísta, mas se justo eu estava ali e fui perdoada, por que ele não poderia ser também?
Essa pergunta me inquietava. Olhei a serenidade da Virgem Maria, quis ser como ela. Dar minha vida a Deus como ela fez. Mas eu não sirvo para ser serva do Senhor sem seguir o deus que vive dentro de mim até depois de morta: meu egoísmo.
A Virgem sorriu a mim. Seu sorriso aquietou meu coração partido. Seu semblante de paz me dava vontade de abraçá-la e pedir-lhe perdão por ser uma filha pródiga.
- Comecemos. – disse Deus aos santos que me olhavam, uns me repugnando, outros me perdoando. – Diga o que tens a me dizer filha.
- Eu só quero pedir-lhe... Não! Implorar-lhe a salvação de Kaique! – disse.
- Impossível! Como você ousa manchar o céu com os crimes desse assassino? Além do mais, ele pecou ainda mais contra o Espírito Santo se suicidando. Não sei se você lembra esta matéria de sua catequese, mas suicídio é um pecado imperdoável. – disse um dos santos que me olhava com discriminação.
- Mas também me ensinaram que todo o pecado, por mais imperdoável que pareça, tem seu perdão. Basta ter arrependimento e fé.
- Coisa que seu namorado não tem. – retrucou o santo.
Olhei-o. Ele me fitava com desprezo, não acreditava que fazia aquilo por amor. Virei os olhos ao Pai e falei:
- Por que eu? Por que justo eu fui salva? Eu pequei mais contra o Espírito Santo do que o próprio Kaique! Você sabe. Você me conhece mais do que a mim mesma. Sabe de meus pensamentos, minhas dores, o que tentei por muitas vezes fazer... Por que eu? É injusto! Você é o Pai da justiça, do perdão e da liberdade. Faça a justiça, perdoe mais este filho e liberte-o das amarras do pecado. Deixe-o vir, por favor... – terminei de cabisbaixo, me controlando para não chorar.
- Tudo o que fizeras filha, você não teve coragem de ir até o final com tais pecados. Por isso que fora perdoada e ele não. – disse a Mãe Virgem.
- Coragem eu tive, Mãe. Só não executava porque eu acho injusto que as pessoas que amo sofram por uma burrice minha. – falei enquanto as primeiras lágrimas escorriam pelo meu rosto.
- Este pensamento te salvou. – explicou-me a Mãe com um sorriso sereno.
- Vocês... Vocês fazem-nos acreditar na salvação. Tudo que ele fizera fora antes de nos conhecer. Se eu realmente sou um espírito de luz, eu apenas o guiava para tirá-lo da escuridão, esta seria minha missão. Mas fora incompleta. Me mataram antes de firmá-lo na luz. – disse levantando o rosto para que eles vissem minhas lágrimas – Sim, ele se matou. Isso é um pecado imperdoável, eu sei. Mas ele se matou na esperança de nos encontrarmos, de que ele consiga ver a luz que vira em mim novamente, ele se matou para ter paz, eu sei. Eu o conheço mais do que a todos aqui presentes.
Todos começaram a falar. Quem era eu para falar que conhecia mais alguém do que o próprio Criador?
- Tudo bem... – disse o Pai e todos se aquietaram. – Dar-lhe-ei uma missão. Você, como um espírito de luz, será enviada ao inferno para salvá-lo do julgamento de Minos e voltar ultrapassando todos os círculos do inferno e purgatório até chegares ao céu.
Sorri em agradecimento.
- Porém, você terá apenas 5 dias celestiais para completares a missão, caso contrário, ele ficará no seu devido lugar no inferno e você ficará no purgatório, pensando na insolência e pedindo perdão por ela.
Assenti.
- Mais algo, Pai? – perguntei de cabisbaixo.
- Ele não te reconhecerá até chegares ao céu. Você se chamará Beatriz perante ele e sua história será a de uma suicida que fora salva, como seus pais acreditam. – completou o Pai.
- Sim... – disse um pouco triste. Ele não saberia quem eu era... Mesmo assim, eu tinha que salvá-lo.
- Radamanto te acompanhará até o inferno, depois disso, sua missão prosseguirá, mas você sozinha sem ajuda alguma.
- Sim... – assenti.
- Pergunte. – disse Ele lendo meus pensamentos.
- Como verei que se passaram 5 dias celestiais? Aqui não amanhece, entardece ou anoitece! – falei.
- Tome esta ampulheta, ela tem o tempo exato de horas que você terá para ultrapassar os círculos. – disse a Virgem se aproximando de mim e colocando um pequeno relógio de ampulheta em meu pulso. – Só você poderá vê-la. – completou a Mãe respondendo minhas perguntas mentais.
- Obrigada. – disse a Mãe. – Obrigada Pai pelo seu perdão e pela sua salvação. – agradeci ao Senhor.
- Vá em paz! – disse o Pai.
Fui acompanhada de Radamanto até os portões de ouro. Estava feliz, mas ainda via o chão de algodão. De que importa? Logo o veria! Logo meu infinito teria nome e local exato.
Assim que ultrapassei o portão, desci.

Continua...

Ana Luiza Pereira


Um Diário De Uma Alma - Bola de Cristal

Logo vi um amontoado de almas juntas. Olhei a minha avó sem nada entender.
- Aqui se encontra uma bola de cristal, quando você a olha, consegues ver quem quiser, onde quer que este alguém esteja. – explicou-me.
- Posso ouvi-las também? – perguntei.
- Isso dependerá do seu coração.
Abaixei a cabeça. Será que matarei a saudade?
Entrei na fila de almas que esperavam ver seus entes vivos. Logo, chegou minha vez. Vi, primeiramente, meus pais e irmãos. Todos eles de luto, não acreditavam o que eu supostamente havia feito... Eles o culpavam, carregavam um ódio por aquele que eu carrego amor.
Chorei. Eles pensavam errado! Se ao menos soubessem... Se ao menos eu pudesse me comunicar e falar a eles que não foi por causa dele! “Meu amor por ele é o que me dava força a viver e não motivos para morrer...” Mas eles não acreditariam...
Logo minha visão mudou. Eu o vi. E o ouvi.
Ele estava acabado, havia olheiras de tanto choro em noites perdidas, ele havia emagrecido... Não me era mais familiar, apenas sua voz tristonha que continuava a mesma. Ele não conseguia sorrir... Ele não era o mesmo.
Ele estava na chácara distante com seu pai. Seu olhar distante, olheiras profundas puxa uma arma 9 mm e atira na sua cabeça.
Sim, eu o vi tirar sua própria vida. Eu o vi morrer por não achar mais razão para viver...
Estatizei. Não acreditava o que ele havia feito. Minha visão turva de lágrimas não me deixava ver mais ninguém, apenas via meu amor com poças de sangue ao seu redor e um furo na cabeça.
Bati na bola de cristal, não queria vê-lo assim. A bola caiu e rolou para longe de mim enquanto eu corria para longe do local.
Não acreditava no que ele havia feito. Ele não viria ao céu, tirar sua própria vida é pecar contra o Espírito Santo. Eu não o veria, nunca mais...
Parei longe das almas felizes, eu era A alma infeliz, e chorei. Minha avó logo estava ali me consolando.
- Eu não quero vê-lo sofrer pela eternidade! Não consigo vê-lo sofrer pela eternidade sem sofrer também! – disse aos prantos.
- Não podes fazer nada... – tentava me consolar.
- Posso pecar e ir ao inferno tentar encontrá-lo!
- Você é predestinada ao céu, Kara. Nada do que você faça, fará você cair ou ele subir... – disse-me vovó.
- Nem se eu pedir a Uriel? – perguntei.
- Isso não depende de Uriel, está bem acima dele! – respondeu-me.
- Eu posso ao menos pedir aos santos e anjos para rogar por ele, já que sou apenas uma mera alma...
- Quem sabe? – disse vovó.
Ajoelhei-me diante dela e comecei a rezar, a pedir a todos os santos sua salvação.
- Kara... – chamou-me. Era Radamanto. Ele estava acompanhado de Uriel.
- Sim... – disse.
- Venha conosco, os santos e o Senhor vos esperam. – disse-me.
Levantei-me daquele chão de algodão e fui.

Continua...

Ana Luiza Pereira


Um Diário De Uma Alma - Céu


Acordei com um brilhante sol iluminando minha face. Seria um pesadelo? Eu estava acordando? Percebi que Radamanto estava a me fitar.
- O que houve? – perguntei.
- Minos tentou te matar para que você permanecesse no inferno. Mas não funcionou, sua alma realmente foi predestinada a ficar no céu. – respondeu-me Radamanto.
- Onde está Uriel? – perguntei me levantando. Percebi que o chão era de gramíneas verdes, ao redor havia árvores envelhecidas e grandes. Pensei por um segundo estar no lugar que estudo.
- Está vindo, ele foi buscar alguém. – disse Radamanto cortando meus pensamentos.
- O que fazes aqui? – perguntei.
- Deus quer me ver... – respondeu-me Radamanto sério.
- Boa sorte. – disse. – Agradeça a Ele por mim.
- Sim... – disse Radamanto indo embora.
Fiquei ali; no paraíso celestial. Vi almas de todas as idades rindo, se divertindo. Almas que tinham encontrado a paz.
Aquele não era meu lugar... Meu coração estava inquieto, sem paz. Se aquele era meu lugar, o lugar no qual eu fui predestinada a estar; faltava a ele alguma coisa... Faltava algo que eu não sei explicar o que é. Eu acho que lhe faltava amor...
Vi (não sei explicar o porquê ou como aconteceu, só sei que vi) a floresta que era chamada de paraíso desaparecer diante de meus olhos e o chão de terra batida e folhas secas virarem chão de algodão doce, como em desenho de criança, onde os anjos e santos estão nas nuvens de algodão...
- Kara... – disse uma voz reconhecível a me chamar.
Vir-me-ei.
- Vovó! – disse e meus olhos começaram a brilhar. Fui correndo abraçá-la. Seria possível? Era realmente ela? Eu realmente a encontrei?
Abracei-a com todas as minhas forças, meus olhos lacrimejavam. A saudade e a alegria, pela primeira vez lado a lado, emanando do meu ser e jorrando pelos meus olhos.
- Kara... – disse minha avó com voz serena.
Olhei-a. Ela estava como em meus sonhos, apesar das lágrimas me tirarem o foco.
- Kara, precisamos conversar. – disse-me.
- S-sim. – respondi aos soluços.
Começamos a andar... Se é que estávamos andando. Eu não sentia nada, a cada passo que dava, não existia chão! Será esta é a sensação de estar no céu: flutuar? Por um instante de profunda alegria, eu voltei a ver as árvores e as almas felizes. Pouco me importei com a dor da felicidade daquelas almas me causavam, eu estava completa! Ao menos por um segundo me senti assim...
Vovó me dizia que ninguém da Terra sabia a causa da minha morte e, por causa disso, culpavam minha depressão, culpavam o dono do meu coração.
- Como posso dizer-lhes que não é nada disso que pensam? Que ele é inocente? Como eu posso falar com ele? Pedir para ele viver? Como? Responda-me vovó! – essas perguntas me remoíam.
- Você não pode... – disse-me vovó.
Chorei. A linda floresta desaparecera novamente.
Vovó tentava me consolar, mas a cada palavra que dizia eu me lembrava das palavras de Lúcifer: ele iria morrer, e não conseguiria ir ao céu.
- Como eu posso ver as pessoas que amo? – perguntei numa tentativa desesperada de lembrar o seu rosto, de sua voz.
- Só há um jeito... – disse guiando-me pelas trilhas celestes de algodão.

Continua...

Ana Luiza Pereira