Um Diário De Uma Alma - Perdão


Eu dormi muito (se é que uma alma pode dormir) e acordei com a voz de Thiago a me chamar.
- Kara, Kara! – ele me chama.
- O que é? – respondo com mau humor.
- Me perdoa? – pergunta ele com olhos de cachorro abandonado.
- Pelo o quê? Por achar que um objeto? Por você ser narcisista e achar que todos devem sempre amar sua beleza? Ou por simplesmente me matar sem motivo? – pergunto cínica.
- Me perdoa! Não devia ter feito o que fiz... Eu era...
- Egocêntrico? Narcisista? Idiota? – tentei completar.
- Por favor! Já irei sofrer muito sem o seu perdão...
- Você MERECE sofrer! – disse.
- Kara... – repreendeu-me Uriel.
Respirei fundo. Uriel estava certo em me repreender. Eu devia perdoar... Por mais mal que ele me fizera, mais lágrimas ele me fizera derramar, eu tinha que perdoá-lo. Almas com rancor não vão a lugar algum, eu vi isso ali no inferno... Além do mais, a vida é feita para cairmos, machucarmo-nos, para ser difícil, pois é assim que seremos quem somos, é assim que construímos algo que levamos com a gente até o caixão: o caráter.
- Por que me mataste? – perguntei olhando-o nos olhos.
- Porque eu nunca me perdoei por ter deixado você escapar desse jeito.
- Por isso que, mesmo sabendo que eu gostava de outro, me incitava a pecar?
- Sim... – disse de cabisbaixo. – Eu queria que você fosse minha como...
- Um objeto?
- É...
- Kara, está na hora! – avisou-me Uriel estendendo-me a mão.
Levantei-me. Olhei nos olhos repletos de tristeza de meu assassino e falei:
- Eu te perdoo. – disse com voz apaziguadora.
Ele me olhou, naqueles olhos que refletiam tristeza começaram a brilhar de esperança. Ele sorriu alegre respondendo o meu sorriso fraterno.
Vir-me-ei e fui ao meu novo julgamento.
Já estavam todos a postos; Satã, os três juízes, Uriel e eu, quando pedi a palavra.
- Primeiramente, desculpe-me por ontem. Não queria machucá-lo, eu simplesmente exagerei me exaltando daquele jeito. Portanto, Lúcifer, desculpe-me por tudo.
- Acabaste? – perguntou Lúcifer.
Balancei a cabeça negativamente.
- Não. Quero dizer que, por mais que Uriel me defenda, eu não mereço o paraíso. – disse de cabisbaixo – Mas também, não queria sofrer no inferno. Minhas cicatrizes já são suficientes para me recordar de sofrimentos que nunca deixarão minhas lembranças. E, embora me reste o purgatório, eu não quero ir para lá. A Terra foi um purgatório o suficiente para mim nesta vida. – disse.
O julgamento se passou... Foi decidido: eu iria para céu com Uriel.
Assim que o julgamento acaba, levanto e me dirijo à saída com Uriel. Saí de lá. Sorri para o Thiago e fui para os portões do inferno com Uriel. Seria uma longa caminhada.
Seria...
Minos estava a guardar os portões. Ele bloqueava a minha passagem.
- Você sabe que vocês nunca se encontrarão se você for. Ele sofrerá e a culpa será sua! – disse-me Minos sussurrando em meu ouvido.
- Prefiro morrer a vê-lo sofrer! – disse.
Ouvi Minos sorrir.
- Seu desejo é uma ordem! – disse e a dor pungente que senti na hora de minha morte voltou.
Como? Ele apenas me tocara? Não podia entender...
Caí por terra. Minha visão saiu de foco... apenas via o vulto de Uriel a brigar com Minos e alguém vir me socorrer.
“Kaique? É você?...” – pensei antes de desmaiar.

Continua...

Ana Luiza Pereira

Um Diário De Uma Alma - Ódio


Eles estavam resistentes, mas, ao que parece, Lúcifer assentiu com a cabeça e eles saíram.
- Vamos ser um: marido e mulher. Você é minha, sempre foi. Apenas um beijo de consentimento... E seremos um do outro, como devia ser, e a eternidade de nossos pecados será nosso jardim.
- Não se venda Kara! – disse Uriel a mim.
- Eu já me vendi quando nova e viva. Foda-se minha alma quando morta! – respondi a Uriel.
Lúcifer sorriu vitorioso e convencido.
Ele se aproximou para beijar-me, podia sentir sua respiração quente pairando sobre minha pele fria e morta, nosso olhos se fechavam em sinfonia perfeita enquanto Uriel me olhava com reprovação.
Assim que Lúcifer estava perto o bastante, eu lembrei: “Ainda tenho um coração... E este não bate por Lúcifer.”
Abri os olhos dei-lhe um tapa e cuspo na cara dele.
- Agradeço por me proporcionar tais momentos, mas sempre fui um peão de joguinho cabeça-dura e nunca me rebaixei as suas ordens nojentas e desprezíveis. Não preciso ter tais momentos de volta, as memórias de minha vida cabe a mim preservá-las e não recuperá-las. – disse.
- Sua insolente! – disse Satã com olhos vermelhos de ódio me esbofeteando a cara – Você sempre foi um soldado no meu jogo, sempre tiveras potencial para ser tudo o que quisesse, por isso que eu a incitava em pensamentos e atos. Mas você virara um NADA, uma peça descartável por não fazeres nada o que lhe mandava.
- Você me dera asas, Satã. Veja-me voar... Para bem longe dessa falsa soberania que pensas que tens.
Ele me olhou com raiva.
- Pagarás pela sua insolência! Sofrerá cem vezes mais que as outras almas! – gritava Plutão exaltado.
- Eu não ficarei no inferno por muito tempo... – disse com um sorrisinho vitorioso.
- Mesmo que você não fique, seu namorado ficará! Qual o nome dele mesmo? – disse semicerrando os olhos – Kaique, não é? – olhou-me.
Nada respondi. Apenas encarava-o com uma raiva crescente.
- Que seja! Seu namoradinho logo virá. E, por mais que você vá, duvido que um dia você vá encontrá-lo também... Nunca ele chegará ao céu! Portanto, ele que pague a sua dívida! – disse ele cínico.
- NEM OUSE TOCÁ-LO! – gritei.
- Ou o quê? Não podes me matar, querida... – disse o capeta com sarcasmo.
Não deu. Me exaltei de tal forma que comecei a esganar aquele demônio. Uriel tenta separar a briga que se formara, mas minhas garras estavam tão grudadas naquele pescoço que dera um pouco de trabalho.
- Acalmem-se os dois! – disse Uriel me segurando – Acho melhor adiarmos a audiência até amanhã.
Plutão me olhava com ódio e, eu podia me ver naquele seu olhar vermelho: cabelo despenteado, olhos fixos e dentes trincados. Mas, apesar de tudo, ele achou mais conveniente o adiamento, e eu também.
Saí do salão contando mentalmente as minhas respirações longas para me acalmar. Assim que saí, vi Thiago ao lado da Morte. Eu havia demorado tanto assim?
Meus olhos resplandeciam de ódio por aquele que me matara. Por mais que eu tentasse, eu não entendia seus motivos. Na verdade, sequer encontrava algum!
Sentei-me ali com Uriel e fiquei por esperar o julgamento de outras almas. Acabou que... adormeci.

Continua...

Ana Luiza Pereira

Um Diário De Uma Alma - Pecados


            - Não me chame assim, Uriel! Além do mais, não devo “favores” a você! Leve a ré! – disse Satã com voz grossa.
            Foi quando eu vi quem era a luz: Uriel – o anjo do elemento terra ou, como era conhecido na região celeste; “a morte de Deus”. Ele era moreno alto cabelo negro e encaracolado longo.
- Ela não vai a lugar algum! Sua criada Morte pegou a pessoa errada! Meu Pai a quer perto dele. Veja-a! Nem tens grandes manchas nesta pobre alma! – disse Uriel me defendendo.
- Seu “Pai” me expulsou do céu! – gritava ele - Logo EU! O filho mais perfeito que mais o amou!
- Todos têm chances perante o Pai...
- Ele nem, ao menos, me dera UMA! Me expulsara do recanto celeste por apenas avisá-lo sobre tais seres repugnantes, insignificantes e imperfeitos como os seres humanos QUE ELE MESMO OS CRIOU!
- Se és tão perfeito, por que decaíste desse jeito? Por mais que seja “perfeito”, às vezes, seu maior erro foi não pedir perdão por julgar antes de conhecer... Seu Pai iria perdoar! Assim como me perdoa em todas as minhas quedas e imperfeições. Seu Pai ama a TODOS, sem exceção, e da mesma forma. Eu sei que há muito mais nessa história que as bíblias contam... – disse eu.
- Cale-se já, seu ser insignificante! – disse Plutão apontando seu dedo mágico a mim. De repente, não conseguia mais falar, meus lábios estavam colados, minha voz não pronunciava mais nenhuma palavra.
- Pare AGORA Lúcifel! – ordenou Uriel.
Lúcifer desceu do seu posto de juiz supremo e olhou Uriel com ódio. Uriel respondeu aquele olhar a altura.
- Acalmem-se! – disse um dos três juízes.
Os dois deixaram o que eu imaginei serem suas posições de ataque.
- Por que não deixais a ré escolher aonde irá? Seria mais justo.
- Ou injusto! Todos os pecadores querem ir ao recanto de meu “Pai”.
- Deixe as palavras DELA escolher... Afinal, qualquer coisa errada faz com que qualquer ser humano desça aqui! – disse o juiz do inferno com um sorriso malicioso.
- Tudo bem Minos... – ele me olhou e estalou os dedos – Fale insolente!
Em um instante de segundo minha voz voltou, meus lábios se descolaram e eu podia me justificar normalmente.
Respirei fundo e comecei:
- Sei que sou pecadora; orgulhosa, controladora, persuasiva, mentirosa, preguiçosa, odiei, fui “mão de vaca”, invejei, quase me entreguei aos desejos da carne, omiti meus deveres cristãos e muito mais... Mas se ser feliz, ser justa, ser simples requer certos erros ou pecados, então, não me arrependo deles. Sei que parece egocentrismo de minha parte, o que é e SEMPRE foi um defeito meu, mas se é para deixar meus pecados e suas consequências felizes ou não deles de lado e simplesmente ir ao céu, então, sinto muito! Prefiro queimar neste inferno com o perdão de todas as pessoas que fiz sofrer. Estou tranquila. Para mim, tanto faz para onde irei... – disse.
- Resolvido! A ré escolheu permanecer no inferno. – disse Minos.
- Kara, você está vendendo a sua alma a eles desse jeito... É isso que quer? É que sua avó quer a você? – perguntou-me Uriel.
Calei-me. Vovó... Será que, um dia, poderia te encontrar novamente?
- Pronto! Começou o “Anjo do Senhor” com suas técnicas baixas de persuasão! – disse o sarcástico capeta. – Já que é para usar de técnicas baixas...
Ele se aproximou de mim e abraçou-me pelas costas. Pude, então, sentir seu perfume forte de enxofre incomodando minhas fracas narinas de morta.
- Que tal lembrarmos um pouco dos bons momentos? Lembra da sua primeira mentira aos quatro anos? Quem que você acha que incitou? – disse sussurrando sua doce e grossa voz em meu ouvido – Lembra do seu primeiro beijo aos cinco anos? Quem que você acha que lhe proporcionou? Lembra dos seus namorados semanais até a primeira metade do seu quinto ano? Quem que você acha que lhe deu? Lembra daquela quinta do seu primeiro ano do segundo grau? Lembra da felicidade que você teve após aquela uma hora e meia de puro prazer? Quem que você acha que lhe presenteou com isto?
Minha vida. Meus pecados. Meus erros. Lágrimas. Sorrisos. TUDO estava passando em pequenos flashes sob meus olhos.
- Minos, Radamanto e Sarpédon deem-nos licença, por favor. – pediu Uriel.

Continua...

Ana Luiza Pereira


Um Diário De Uma Alma - O Julgamento


Entrei numa grande sala pouco iluminada de almas fluorescentes “mortas” presas por correntes no teto. Demônios vestidos de guardas por todos os lados. À frente, um verdadeiro tribunal comandado por Hades e, cada passo que eu dava, me aproximava do meu lugar de ré.
Lúcifer era lindo demais para ser um simples rei dos demônios, na verdade, eu nem desconfiei que ele fosse um. Seu cabelo arrepiado e negro deixando a vista seus olhos verdes que cintilavam de ódio, orgulho e falsa soberania. Sua beleza é algo imensurável, jamais vista em homem algum da Terra ou descrita em algum livro. Era uma beleza angelical. Uma beleza de anjo caído.
Fiquei estatizada olhando nos olhos de superioridade de Satã naquele palanque, tentava lembrar desesperadamente de alguma passagem bíblica que falasse de beleza angelical. Falhei. Então comecei a fitar quem estava abaixo do mais alto poder: os três juízes.
Abaixo do lugar de Plutão estavam os três juízes. Um loiro com armadura de um branco impecável com detalhes em ouro e uma máscara também branca com os mesmo detalhes, mas com uma pedra azul celeste na parte dos olhos. Um rapaz moreno de cabelo castanho com armadura e máscara cinzas com detalhes negros e ônix nos olhos da máscara. E um moreno de armadura e máscara negro como seu cabelo, com detalhes de uma prata brilhante como os diamantes nos olhos da máscara.
Inferno é mesmo um lugar de perdições!
Sentei no meu lugar de ré.
- Começa agora o julgamento da ré Kara Silva. – disse o juiz do purgatório.
- Bem, vejamos... – disse Hades folheando as páginas de um grande livro – Comecemos.
- Kara Silva, morta no dia 23/05/2011. Esfaqueada por Thiago Pedro de Sousa. Nasceu dia 28/11/1994, católica pecadora; egoísta, orgulhosa, mentirosa, preguiçosa, já se entregou aos 7 pecados capitais e mais n pecados durante seus 16 anos de vida. – anunciou o juiz do purgatório.
- Verdade isso? – perguntou-me o juiz do céu.
Abaixei a cabeça e assenti.
Eu realmente tinha manchas em meu passado terrestre. Pecados e pecados... E, mesmo que pareça egoísmo, muitos deles valeram apena.
Mesmo assim, eu não entendia: por que eu não tinha manchas na minha alma?
- Está decidido! Ficarás no inferno. – disse o juiz do inferno.
- Tudo bem... – disse de cabisbaixo.
Um demônio se aproximou de mim para me levar para fora do recinto.
- Calma Lúcifel! Este julgamento ainda não acabou! – disse uma voz vinda de uma luz branca que cegava meus olhos.

Continua...

Ana Luiza Pereira


Um Diário De Uma Alma - Inferno


            Seus olhos era a última coisa que lembrava em meio à escuridão que parecia eterna.
            Comecei, então, a sentir que era puxada. Eu era levada a algum lugar...
            Ouvia gritos agonizantes, ranger de dentes, o arrastar de correntes das vítimas da morte, eu vi a fome de perto. Seria mais um pesadelo? Flashes horrendos de pessoas sofrendo vinha por trás dos meus olhos. Reconheci algumas e chorei por aquelas pobres almas, nem todas mereciam tamanho sofrimento.
            Será que eu me juntarei a elas?
            Vi uma floresta de árvores horrendas cheias de harpias. Essas árvores berravam pela dor daquelas garras, mas ninguém as ouvia. Apenas eu; uma pobre alma decadente.
            Mergulhei num grande rio de almas sofredoras e deixei-me levar...
            Tudo escureceu. Pensei por um segundo estar finalmente acordando daquele pesadelo no meu quarto, mas não.
            - O que aconteceu? – perguntou desnorteada assim que abro os olhos.
- Você caiu feio! – respondeu-me alguém.
- Onde estou? Quem é você? – pergunto.
- Me chamo Morte e você está no último círculo do inferno.
- O quê? Inferno? – pergunto assustada.
- Sim, inferno. O lugar onde as pessoas sofrem, queimam e agonizam pelos seus pecados.
- Eu não entendo! Como vim parar aqui? Por que eu vim para cá?
- Fácil! Você morreu esfaqueada pelo seu amigo, embora todos na terra achem que fora suicídio, e caiu até aqui para ser julgada.
- Como assim: “julgada”? E por quem?
- Julgada pelo meu patrão e os três juízes; do céu, do purgatório e do inferno. Eles que escolherão para onde você irá.
- E quem é o seu patrão?
- O diabo.
Estremeci. Ainda era medrosa demais para encarar Lúcifer; olhos nos olhos, cara a cara.
- Agora só vos resta esperar seu julgamento.
Sentei-me em algo que nem sei o que é e esperei o tempo passar. Cada segundo ali parecia anos.
- Você não devia estar buscando mais almas? – perguntei a Senhora Morte.
- Estou na minha hora de lazer...
- Ficando aqui observando as almas agonizarem?
- Não exatamente. Na verdade, nem passo minhas horas de lazer aqui. – respondeu-me a Morte.
- Então, o que fazes aqui?
- Quero ver um final de um julgamento.
- Qual?
- O seu.
Calei-me. Quem era eu para contestar a morte?
Vi muitas almas ali fazerem o mesmo. Almas marcadas, almas manchadas. Almas possuídas pelo o pecado do ódio, mentira, luxúria, orgulho, preguiça, inveja e a avareza.
Almas pecadoras que necessitavam de perdão. Não o de Deus, mas o perdão delas mesmas e quem elas afetaram. E, por mais que algumas (muitas, por sinal) esperneassem, elas não obtinham.
- Não! Por favor! Sejas misericordioso! – disse a alma da mulher sendo arrastada para fora de um grande portão.
- Não sou seu deus para ser “misericordioso”. – disse Satanás de dentro da sala.
Espantei-me com aquilo.
- Kara Silva. – chamou-me um demônio que estava de guarda.
Estremeci. Meu destino como morta estava ali.
- Boa sorte. – desejou a Morte.
- Obrigada. – disse me levantando.
Não sei se isso era um deboche ou foi realmente um desejo de sorte. Mesmo assim, levantei-me orgulhosa e fui.

Continua...

Ana Luiza Pereira