Show de horrores

Há parasitas entre nós:
Vampiros, ogros e anjos caídos.
Minha casa virou um livro de lendas.

Quem pôs o Drácula no trono?
"Não fui eu" - disse o vizinho.
"Nem eu."
"Ele conquistou o poder..." 
- disseram os adeptos às bolsas de sangue.
Conquistou?
"Está no trono porque não tem ninguém melhor no momento"
- já ouvi uma vez.
Quem diz a verdade?
Ou será que não veem?
Ele está nos nossos pescoços sugando cada gota de nossas vidas!

Ogro? Onde já se viu um ogro nessas bandas?
Criaturas grandes 
que não sabem muito bem o que fazem 
e apenas esmagam.
"Eu nunca vi um na minha vida!"
Nunca vi aquele ogro decidir racionar as migalhas para reles formigas,
enquanto ele fica em seu palácio se curando de não-sei-qual-doença.

Anjo caído?
Não é uma criatura que te arrasta ao inferno?
Que engana?
Bem, eu diria melhor...
É alguém que faz da sua vida um inferno.
Sem possibilidade de escolha, 
o anjo que seria de Deus escolhe por nós;
escolhe o pior,
mas somos sobreviventes e sobreviveremos a mais isso.

O que escolher?
Um conto de fadas não existe na minha casa,
minha casa é a casa dos horrores
onde as mais temíveis criaturas fazem a festa.
Seremos animais falantes, realeza ou também monstros?
O que fazer?
Vejo lamentações e críticas.
Mas nenhuma boa ideia, nenhuma movimentação de resolução.
Enquanto isso, leio mais esse show de horrores
esperando que logo o povo em tochas e forcados se revolte
e tenhamos finalmente o temido fim.

Ana Luiza Pereira

Sonhei

Uma vez fechei os olhos e vi a mim mesma em muitas faces: a primeira de todas estava gritando e tudo quebrava, era a raiva pura e raiva de mim. Mais a frente, estava em posição fetal, escondia o rosto e não conseguia falar por chorar e chorar sem motivos aparentes, ou melhor, por motivos que ninguém é capaz de entendê-los. Um pouco adiante, vi-me morta; estava enforcada pelos meus próprios sentimentos e, por isso, não respirava, porque eu estava morta. A última de mim estava esfolada, não tinha rosto, pois não tinha pele, era apenas carne viva e a carne ardia nos cortes que um dia me fiz.

Quando voltei a mim, meu rosto estava tranquilo, mas meu íntimo em desespero. Ninguém sabia. Ninguém ousava perguntar: você está bem? Sim, sim - falo mentindo - é apenas um cisco que caiu no meu olho. E o silêncio volta a nos afogar em pensamentos e sentimentos que queremos evitar. A vida continua na pressa do dia-a-dia. E é assim um dia de crise da depressão: ninguém sabe, ninguém vê.

É assim que somos: enclausurados em nós e não compreendemos as mazelas do outro. Sofremos isso e aquilo, mas demostrar sofrimento é fraqueza. Então somos assim: íntimos vazios e desesperados com rostos mascarados numa tranquilidade falsa e risonha. Até quando viveremos vazios e deprimidos?

Ana Luiza Pereira

Carta a Werther

"Eis-me aqui, sob a luz de uma lamparina já que nem a luz da lua pode iluminar mais teu juízo. Teus ralhares e lamentações por Carlota são em demasia... Preocupe-me se teu espírito perdido possa um dia encontrar-se na ponta de uma adaga.

Amas Carlota, eu o sei. Por vezes escreveras teu amor por tal santa de boas maneiras, tuas preocupações com seu bem-estar e quão arredio te sentes ao vê-la com o Alberto. Porém, escreves-me sempre pois sabes que sou sensato e de bom coração para conseguir aconselhar-te em horas noturnas de teu espírito. Portanto, dou-te duas opções, caro amigo, aceita-as ou sofras como estás, tu, o ser mais bem-quisto que esta sociedade já teve prazer de conhecer. Primeiro: enfrente o destino que te vira as costas, uma hora, o destino se afeiçoará de tua insistência e te dará de bom grado coisas até melhores que as que pede. Segundo: abandone tudo. Viva para o trabalho e o trabalho será tua esposa, mãe e filhos (este conselho é o conselho de tua adorável mãe).

Contudo, sofro ao saber que sofres. Já sofri muito e tu me perguntas sempre como me fiz rocha, responder-te-ei: a natureza, caro amigo. Recolhi-me para os vales que tanto amas e não só os observei, como fiz-me deles para ser quem sou. Agora, não sou mais Guilherme, mas sou o rio fervilhado de peixes que corre sobre o vale, sou a folha que cai durante o outono e faz-se adubo, sou o pássaro que canta ao raiar o dia e etecéteras. Tu me entendes pois observas os vales e montes, andas por tais sem rumo e amas estar ali. Faça-se disso: sê natureza e entendas que o sofrimento é o rio que passa entre pedras: haverão muitas para jogar-te e machucar-te, mas passará, amigo meu, passará. Basta ter paciência..."

Ana Luiza Pereira
Baseado no livro Os sofrimentos do jovem Werther de Goethe

Carta à GT

"Querida Gramática,

     Gostaria de saber como vão tuas mesóclises vaiadas pelo povo e louvadas pelo governo. E tua regência? Não achas que está na hora de mudar a regência que há séculos não funciona mais?
    Até os pronomes que te descrevem já se modernizaram e tu não. Dás exemplos de Camões e Machado, mas Camões não nasceu nestas terras e Machado era mulato que não frequentou escolas, apenas ouviu as aulas pela janela quando criança. Valorizas a língua dos brancos colonizadores e, às vezes, usas de exemplos belíssimos e poéticos de gente desta terra para dizer o que não se deve fazer.
      Por que, Gramática? Valorizas a tradição de um homem colonizador, sendo que o povo que as reges é miscigenado... Por que não te renovas? És contraditória em tua própria nomenclatura e usas de páginas e páginas com listas de exceções e exemplos e, ainda assim, prezas a coerência e a coesão. Já pensaste que as exceções são o uso comum e suas regras é que, de fato, são as exceções? Quem, em sã consciência, na língua falada dirá "Vós estais errado"? Nem a língua do nosso Senado usa esse pronome e essa conjugação.
       Muda, cara Gramática. Aceite do povo que te vê com bons olhos e sê uma ferramenta integradora e não uma dissipação de preconceitos. Digo tais palavras de bom coração, porque não te quero no lixo ou numa inquisição."

Ana Luiza Pereira

Figura

O sol é de ébano
E repartido em dois
Olham para mim
Com carinho

O mar é de palavras
Doces e sussurradas
Num dia hostil
Em um ouvido desesperado

O vento é suave
Um sopre ofegante
de perfumes e suores
Num respirar intenso

O corpo é um quebra-cabeça
Num encaixe perfeito de membros
A imagem do mais puro milagre se forma...
E se renova...

Tudo isso é você
Em perfeita harmonia
Tudo isso somos nós 
Em total sincronia
Um balé de formas bruscas e movimentos suaves
Que proporciona no interior
a paz do espírito que repousa no amor

Ana Luiza Pereira