Missa da angústia

       Por muitos dias tenho fugido da angústia. Cansa ter que enfrentá-la todos os dias, chorar silenciosamente no leito e não deixar saber que outrém saiba a sua verdade: sou triste, mas de uma tristeza tão profunda que só quem sentiu uma dor escruciante pode entender um pouco. Evito, porque tento recuperar minhas forças para lutar, tenho ajuda, mas a maior parte dessa luta entre mim e mim mesma só quem pode fazê-la sou eu.
     Mas, por vezes, sinto um baque. Quase sempre é relacionado à thanatos (morte) ou a hypnos (sonho). Hoje, foi thanatos. Alguém que não tenho contato nenhum, mas sempre observei sua graça ao longe, morreu. "Foi passear com Jesus"... - foi as palavras dela antes da morte. Observei sua vida aos domingos quando ia à missa com meus pais, ela sempre com sorriso, bem arrumada... Acho que sentia inveja dela. Na verdade, queria ter aquela alegria e carisma, mas principalmente aquela fé. Mas, por mais que quisesse ser como ela, não a estimava mal, sempre quis vê-la no domingo seguinte e no outro, e no outro... Até que sua vida chegou ao fim.
     Fui à missa de corpo presente para representar minha estima, embora quisesse evitar o velório. Aqueles rostos... Todos sofridos e chorosos. A comunidade, por mais que não fosse muito grande, estava quase toda lá, presente, rezando para aquele corpo já sem vida encontrasse a vida eterna. A minha angústia aumentou. Agulhas perfuravam meu coração e um gomito da minha angústia ficou preso na minha garganta, secando minha boca. Mas eu não chorei. Respirava fundo, bem fundo, cada vez mais fundo para essa sensação passar. Ao invés disso, deixava lágrimas invisíveis caírem do meu rosto e inundar a igreja junto com as outras lágrimas, as lágrimas da comunidade.
      Vem, eu mostrarei que o meu caminho te leva ao Pai, guiarei os passos teus e junto a ti hei de seguir. Vi rostos pequenos de seus parentes que não mais sorriam e faziam suas sapequices em meio a missa, eram rostos de quem tinham chorado a noite e acordado de manhã para consolar os outros. As crianças acabam sendo mais fortes que os adultos. Sim, eu irei, e aprenderei minha razão de ser...
     Na verdade, nem o padre conseguia professar a missa direito, a voz fraca de quem engole o choro da perda... Todos estavam angustiados e choravam. Mas eu não chorei. Respirava fundo, bem fundo, cada vez mais fundo para essa sensação passar. Eternidade é, na verdade, o amor de Deus vivendo em nós.
      A família tomou a palavra, também dava para sentir o choro e a dor na voz. Mas eu não chorei. Respirava fundo, bem fundo, cada vez mais fundo para essa sensação passar. Agradeceram à todos que prestavam homenagens e que conheciam a luta, contava da alegria dela e de como ela sempre convidava todos pelo nome para passear, mas que, no fim, ela disse que iria passear com Jesus. Rezou a oração do Santo Anjo e entregou aquela alma que já tinha deixado o corpo nas mãos de Deus. Então eu chorei. O gomito da minha angústia que ficava preso na minha garganta e secava minha boca queria se transformar em gritos de desespero, as lágrimas tornaram-se visíveis e meus olhos fechados me lembravam da minha própria dor, da minha perda... aquela que eu não entreguei totalmente por não ter coragem de deixá-la para trás. A pastoral da Esperança, que tomou a palavra após a família, leu uma mensagem de Santo Agostinho que dizia que não é porque alguém não está mais visível aos nossos olhos que a vida de quem fica não deva continuar. E isso me deu forças... Parei meu breve choro, mas continuava na lembrança da minha dor.
      E, no fim, aos meus olhos, a vivência não lida resumia a vida de quem foi aquela que tinha seu corpo no altar e o seu ensinamento à nós: "Tornar-se discípulo de Jesus é viver intensamente a fraternidade. Que o nosso amor ao próximo seja um forte motivo para que outros acolham Jesus".

Ana Luiza Pereira
Em memória de Mariana Rafaela de Andrade.