Amigo, venhas logo me buscar!

Na noite, ausência vem
de um amigo que no cor me têm.
Agora, coita vivo eu a amar;
Morte, venhas logo me buscar!

Na penumbra vi seus olhos
fitando-me de véu e corpo nudo.
Agora fico a te imaginar;
Morte, venhas logo me buscar!

Hoje vivo a espera de mia fonte secar,
vendo os vários cervos nela beber...
Vem, amigo! Vem ver-me tal coita sofrer!
Morte, venhas logo me buscar!

Dizias que de gram mal iria morrer,
pois apenas mal fi-lo sofrer;
cantavas trobas a me culpar...
Morte, venhas logo me buscar!

A troba ideal um dia se realizou;
e seus olhos na finda se fechou.
Quantos mortos, amigo, hei eu de invejar?
Morte, venhas logo me buscar!

Ana Luiza Pereira

Ônibus

                Geralmente, voltando-me da Zona Norte à Zona Oeste, viagem esta cansativa por si só, tendo em vista minhas últimas duas horas sentada num ônibus lotado, passando calor, sem ar condicionado e sem poder me locomover – a única coisa que podia fazer, e fazia, era dormir – desço perto do principal shopping do meu bairro para, então, pegar um outro ônibus para chegar à minha desejada cama ao fim do dia. Os motivos eram muitos: preguiça e cansaço eram os principais, chegando até a uma dor inventada. Porém, em um dia especial, a Fortuna me enforcou, laçando o meu pé e revirando todo aquele dia já então muito ruim pior ainda.
                Na verdade, tenho que lhes confessar que um dos meus maiores medos era de reencontrar pela rua meu ex. Tendo em vista meu atual namorado, como ele é e meu amor por ele, não gostava nem de pensar na hipótese. E não foi o que a Fortuna me preparou para esse dia? A roda girou e o que eu menos queria acabou acontecendo.
                Infelizmente – ou felizmente, decida-se por mim, caro leitor –, ele pega o mesmo segundo ônibus que eu, apesar de estudar na Baixada e eu Zona Norte, nossos ônibus tem alguns pontos em comum, o dele passa na frente do shopping, tendo a possibilidade de pegá-lo antes de mim, e o meu por trás. Na verdade, é compreensível que ele pegue o mesmo segundo ônibus que eu para ir para casa; moramos perto, não na mesma rua, mas em sub-bairros vizinhos.
                Enfim, cá estava eu subindo a escada do ônibus, fone de ouvido e pensamento ao longe, que me deparei: a figura magra, alta mesmo que sentada, aquela pele de café pingado, olhos e topete negro, mesma boca volumosa... Seus traços negros não lhe eram de todo feios, mas desproporcionais a sua altura e magreza. Mesmo assim, os anos lhe foram amigos: estava mais bonito sem espinhas na cara, embora tivesse ainda a sombra do mesmo sorriso cínico que me apaixonara em outrora nos lábios. Ao ver-me ele se assustou. Nunca imaginara me ver em um ônibus, ou melhor, NO MESMO ÔNIBUS. Para dizer a verdade, também me espantei. Que mais poderia acontecer? Se um meteoro caísse naquele momento sobre nossas cabeças eu teria mais certeza que então: eu estava sem sorte. Logo me recompus; passando a roleta, dei um sorriso e falei “boa noite”. Apesar de minha promessa ao meu atual, promessa que dizia que nunca mais falaria com meu ex, sempre lhe disse que o cumprimentaria caso o visse, afinal “mamãe me deu educação” – é o que eu dizia.
Ele nada respondeu. Não insisti, sentei-me no final do ônibus e pus-me a ler. Apesar do livro aberto, as palavras não me atingiam aos olhos; meus olhos reconstruíam um passado que fez-me rir sozinha (e a mim mesma) no meio do ônibus. O passado se torna cômico quando o futuro se torna presente. Lembrei-me de como ele era uma faceta Bento Santiago e outra Dom Casmurro; ao início era inerte e bobalhão – um dia, atrapalhou-se todo por causa de um beijo! E lho dei na bochecha. Era cínico e irônico às vezes, mas, na verdade, o queria atenção. Lembrei-me de tudo; de como o considerava (e acho que ainda o considero um pouco) um grande amigo, quase um irmão, lembrei-me da sua tentativa falha de beijo roubado (logo após, dei-lhe uma aula dizendo que não se pode roubar um beijo, não quando não se acerta onde estão os lábios), lembrei-me do que nos fez namorados... até lembrar-me dele pedindo que nos separássemos, apesar de tê-lo gasto dois anos quase que implorando-me em namoro.
Então, indaguei-me seu silêncio. Não quero escrever coisa que não sei, portanto não o escreverei. Minto, tenho a hipótese que fosse minha última carta escrita: escrevi-lhe dizendo que não sentia saudades nem queria mais vê-lo. Mentira. Palavras ríspidas necessárias para o seu crescimento como pessoa – e como, também, parte do cumprimento à minha promessa de nunca mais proferir-lhe a palavra. Ele não via, mas eu o fazia mal: enquanto eu estive por perto, a esperança – maior mal que Pandora libertou – o consumia, o devorava, deixava-o em carne viva e sangue escorrendo. Admito que o fiz sofrer, mas quem nunca errou? Caro leitor, não me julgueis, sou um manuscrito em produção, tendo por vezes riscado meus pecados em busca de um refinamento maior a mim mesma. Um amigo em comum nosso me confessou, mais tarde, que foi a partir dessa carta que Bento Santiago virou para sempre Dom Casmurro. Sua amargura, dor e ódio por mim resplandecia dos olhos que não pude ver, apenas sentia-os me consumir através do micro-ônibus.

Até que seu ponto chegou. E ele desceu. Tive vontade de pedi-lo perdão, mas dessa vez eu era a inerte – ou estaria presa demais a promessa de meu atual? Não sei. Caso quiser responder, sinta-se a vontade, tenho mistérios mais que nem eu, com o passar do tempo, pude resolvê-los, apenas zombá-los.
Ana Luiza Pereira

Seiva

Chuva, cheiro, terra
Em brancas imagens
Estrada, asfaltos cinza
Lagos, alagados, orvalhos

Tudo remete ao elemento
Onde o sexo se vinga
Do céu a água e no
solo o orvalho

Na terra o cheiro o qual
todos sorriem, todos gostam
A mais perfeita fecundação
enquanto o suor doce evolve
da terra o naso
de nós a nós mesmos
no orgasmo do trovão.

Ana Luiza Pereira

Queria fazer mais


Queria conseguir agradecer a altura por tudo o que você fez e faz por mim em todos esses anos. Queria poder te dar o travesseiro mais confortável do mundo para que você pudesse recuperar todas as noites de sono que passou preocupada comigo. Queria poder te dar dias mais divertidos para compensar as lágrimas preocupadas com os mais alegres dos seus sorrisos. Queria poder encher sua cama de rosas para poder compensar o carinho que me dá com um pouco mais de carinho e atenção. Queria poder comprar um SPA inteiro para compensar as dores que você sentiu por mim. Queria ao menos poder te dar todas as rosas do mundo para conseguir te agradecer por ser o meu ouvido, o primeiro nome que chamo quando sinto medo ou dor. Queria tantas coisas... Queria ao menos demonstrar um pouco mais do meu amor por você, por mais que ele seja tão menor que o seu. Queria tanto poder te agradecer por tudo... Principalmente por ser meu exemplo de mulher. Eu te amo, mãe! Obrigada!

Ana Luiza Pereira
Feliz dia das mães à todas as mães do mundo!

Epifania - Ensinamentos que ficam

Chego a mais uma vez a conclusão de que Deus escreve sempre certo, por mais que nós, seus filhos, nos perguntemos o porquê dos planos que não entendemos. Hoje, mesmo com pesar no meu coração, percebi algumas coisas muito reconfortantes.

A primeira está na leitura do Evangelho segundo Marcos, logo no início do capítulo 14, na parte final do versículo 7, para ser mais precisa. Jesus diz: “Quanto a mim, não me tereis para sempre”. E, de fato, não o temos. Temos suas lembranças e seus ensinamentos, mas não seu corpo físico. Mais a frente, no versículo 9, ao se referir à mulher que despejou perfume em sua cabeça, diz: “Em verdade vos digo: em qualquer parte que o Evangelho for pregado, em todo o mundo, será contado o que ela fez, como lembrança do seu gesto”, em outras palavras: quando as pessoas morrem? A resposta correta é: quando são esquecidas. Não importa a dor que sintamos pela perda física, enquanto as lembranças e os ensinamentos existirem, existirá vida daquela alma que pensamos ter perdido. Se o próprio Cristo nos diz isso, porque ainda queremos a resposta do porquê das coisas?

A segunda, e não menos importante, foi meio que sem querer.  Foi bem no meio da missa, na hora da paz, a qual todos da assembleia se cumprimentam desejando a paz de Cristo uns aos outros, antes de o fazermos, o padre diz: “Que a paz esteja convosco” e a assembleia responde: “O amor de Cristo nos uniu” e isso me fez pensar. Eu, nos meus poucos anos de vida, aprendi que os seres humanos tem muitas limitações e, portanto, tem suas necessidades de sempre estar em um círculo social. Porém, é um fato que há certas pessoas que são, para o nosso íntimo, muito mais do que um familiar ou um amigo, mas uma fortaleza, um conselheiro, pessoas que nos dão paz no meio do caos do mundo. Mas é certo que cada pessoa vem a esse mundo com um propósito, uma missão que não sabemos qual é e, talvez, nunca saibamos, mas, ao encontrarmos em meio de nossa jornada pessoas que se tornam nossas fortalezas, enquanto alguns pensam ser destino, outros, eu me incluo, pensam que foi Deus. Para ser mais exata: o amor de Deus que uniu. Deus não fez o ser humano para viver sozinho, portanto, fez pessoas assim para que saibamos o que é amor e, com isso, o que é paz. A paz de Deus não provém do silêncio, a paz de Deus vem da comunhão das pessoas que se amam. A falta de amor nos desune e causa guerras, não sabemos amar ainda tal como Jesus amou. Porém, quando encontramos nossa fortaleza nas pessoas que, sem querer, acabamos por amar demais, não queremos perder essa pessoa, porque não queremos perder a paz que ela nos traz. Mas nada é para sempre... E, como disse acima, nunca morreremos enquanto formos lembramos. Cristo ainda não morreu, certo? Ele vive em nós como as lembranças de nossos entes queridos. Quando perdemos nossa fortaleza é porque somos fortes, não fortes o bastante para seguirmos sozinhos e sem rumo, mas fortes o bastante para seguirmos sempre na direção da nossa maior fortaleza: Jesus.

E é aí que chego ao meu terceiro e último ponto, agora, me dirijo diretamente à lembrança do Tio Augusto. Foi curioso, já que a revelação dessa parte nasceu de um verso de uma música que gosto muito e que, percebo hoje, define muito bem o homem que ele era: “Nada poderá me abalar / Nada poderá me derrotar / Pois minha força e vitória / Tem um nome e é Jesus”. Ele confiava tanto em Deus que nem por um segundo reclamou, por mais que sentisse medo. Suas forças estavam sempre em suas orações a Deus e, eu sei, que por isso ele não foi derrotado. Sua morte nos deu a vida, a vida de seus ensinamentos e, concedeu à sua alma, um lugar na casa do Pai durante toda a eternidade.

Concluindo: Deus não faz nada por acaso. Se ele me deu a graça de me unir em seu amor à família Campelo, mais especificamente, àquele que para sempre será meu Tio Augusto, foi para ensinar o que é temor e o que é a verdadeira alegria em Cristo (não aquela que dura apenas uma festa na igreja ou um retiro de final de semana, mas todos os dias, apesar das perdas, da luta e do cansaço), ele nunca morrerá, porque isso sempre viverá em mim. Carrego em mim, uma parte dele tal como carrego uma parte de minha vó Dora, e todos os seus sorrisos e brincadeiras. Tenho certeza que ele cumpriu o seu propósito. E como último e principal ensinamento (não só ele, como o de minha avó também foi esse) é que por mais que nos apoiemos muito em pessoas que amamos, devemos sempre buscar nos apoiar em Deus, porque é n'Ele e com Ele que teremos a vitória para vida eterna. Amém.

Ana Luiza Pereira

Tchau, tio.

Hoje meu mundo está em silêncio e minha vizinhança chorosa. Foi-se hoje um dos homens mais resignados que eu tive a honra de conhecer e conviver na minha vida. Alguém que marcou minha vida com sua alegria ao me contar as histórias dos contos de fadas, sempre com um fim diferente e com vozes dos personagens, e com seu silêncio todo o dia de manhã, orando, lendo a bíblia e louvando. Alguém que tentou me ensinar a confiar em Deus independente se eu achava que meu mundinho iria acabar ali e que, não importava as divergências de religião e opinião, ele sempre estava na casa ao lado para me abraçar quando eu precisasse. Quase um segundo pai para mim, o qual eu tive o prazer de chamá-lo de "Tio". Vá em paz, Tio Augusto. Espero que, onde quer que você esteja, ainda esteja orando por nós...

Ana Luiza Pereira

Eu escolhi o silêncio


Olhar para baixo e respirar fundo: é o que eu preciso. Não quero sair quebrando tudo, gritando ou chorando, embora preciso para acalmar meu coração... Escolhi o silêncio e no silêncio continuarei. Continuarei a ouvir coisas que me magoam de bocas que eu amo, tudo em silêncio. E, mesmo que a raiva me abata e eu chore, ficará tudo bem no dia seguinte. Mesmo que a "falta de consideração" parta ou não de mim (é só olhar para todas as palavras usadas), as lágrimas lavarão minh'alma. Continuarei no silêncio e, caso queira saber o que há de errado, decifre-o. Fiz minha escolha e continuarei nela até que você diga que estás em paz.

Ana Luiza Pereira

Senso de ridículo

Ontem, vi no facebook uma postagem que não me agradou. Ela dizia: " Você é cristão e vai curtir o carnaval? Não se esqueça de levar a máscara que você usa na igreja". Não é certo julgar alguém por querer curtir o carnaval: um protestante que vai pular e seguir um bloco com os amigos, um católico que vai pular com o um copo de cerveja na mão, todos eles estão errados? A verdade é que as pessoas precisam ter senso (de ridículo, segundo alguns) e não usar o carnaval como DESCULPA, sendo uma festa permitida pela Igreja desde o século XIII, para a promiscuidade, a traição, a bebedeira. Sou cristã, sou católica, fui ao bloco com meus amigos curtir a música e me divertir, consumi álcool mas não a ponto de vomitar ou passar mal, fui na paz, voltei em paz e não preciso usar máscara nenhuma. Só tenham também o senso de ridículo que tanto falam na hora de falar e julgar.

Ana Luiza Pereira

Máscaras de carnaval


Um dia, uma amiga me contou uma conversa que teve com alguém: ele perguntava qual fantasia ela usaria no carnaval, minha amiga disse que iria vestida como ela mesma, então, esse alguém respondeu que a não reconheceria, ela começou a perguntar o porquê e ouviu uma resposta que achou genial: "Porque as mulheres tem muitas faces".

De fato, o temos. Somos mães e pais em tempo integral, amigas, confidentes, companheiras, sabemos dar carinho e sabemos brigar com quem quer que pise no nosso calo... Sabemos muito e sabemos a hora exata para tais coisas. A verdade é que Deus criou a mulher para que ela guarde grande parte da sabedoria que homem algum poderá ter um dia. Tanto é verdade que não há conselho melhor (nem mais exato) do que aquele que é vindo de uma mãe.

Contudo, por mais que nós, as mulheres, sejam seres fortes e sábios, nenhuma sabedoria e fortaleza é suficientemente grande para esconder nossos medos. Exemplo: algumas mulheres anseiam pela mudança de seu mundinho e pela reinvenção do seu "eu", enquanto outras (eu me incluo nesse grupo), gostam de se descobrir e reinventar, embora tenham medo de mudanças em seu mundo (na sua casa, no seu relacionamento, etc.). Não diria que tais mulheres (não entendam isso como uma autodefesa) gostam do comodismo, pelo o contrário, elas são capazes de mudar o mundo em que vivemos, mas acham seu mundinho perfeito demais para ser mudado. Afinal, qual mulher não criaria um mundo perfeito só para si, após uma grande perda? Ouvi dizer que lágrimas falsas machucam quem as vê, enquanto os sorrisos falsos machucam quem os dá... Por mais forte que sejamos, por mais que nos reinventamos, também temos um senso de autoproteção capaz de criar o que quisermos para que nos sintamos seguras o suficiente para sermos mãe, pai, companheira, amiga, confidente...

Para encerrar essa divagação, pergunto-lhes do fundo do meu coração: qual mulher vocês serão nesse carnaval?

Ana Luiza Pereira

No escuro


É na falta de luz que percebemos o quanto a escuridão nos ronda,
É na ausência da luz que percebemos nossas fraquezas,
É na escuridão que nossos olhos (e outros sentidos) nos enganam.

Caminhar no escuro,
seja de olhos vendados ou não,
é uma escolha
que, por muitas vezes, faz-se necessária.

Afinal de contas, 
ao final dessa caminhada,
nossa visão do mundo será outra:
talvez mais ampla que o normal,
ou mais obscura,
tudo vai depender de escolhas futuras
que, sem as quais, não definiríamos quem somos no escuro.

Ana Luiza Pereira