O Adeus

Um funeral bonito: cheio de flores e familiares por todo o lado. No centro, um caixão com uma bela moça a descansar em paz. A coberta de flores brancas e a maquiagem leve, embora, ela em vida, não gostasse de se maquiar, tentavam amenizar sua feição de dor profunda. Ninguém sabia ao certo o que acontecera com a pobrezinha.

Ao lado do caixão estava seu namorado, a chorar inconformado por tê-la perdido durante uma viagem de duas semanas. Ele não saía de seu lado um segundo sequer, apesar das lágrimas e do pranto. Ficou a imaginar o que teria acontecido com sua amada, embora não encontrasse resposta.

- Você está bem? - disse a irmã da defunta a se aproximar dele, percebendo tanto choro.

- Ficarei bem. - respondeu limpando as lágrimas - Você sabe o que aconteceu com ela? - perguntou após alguns segundos de silêncio se recompondo.

- Ninguém sabe. Apesar dela ficar facilmente doente, ela não aparentava ter nada! Meu primo médico disse que pode ter sido algum mal súbito imprevisível. - respondeu ela a ele.

- Entendo.

- Relaxa! Seja o que for que tenha acontecido com ela, ela está num lugar melhor e, eu aposto, que ela desejaria que você superasse e fosse feliz. - disse a ex-cunhada pondo a mão em seu ombro como sinal de reconforto.

- Obrigado.

Mas meses se passaram e ele não superou. Sua família, sabendo do ocorrido, se preocupara e tentava ajudá-lo, por mais que ele dispensasse a ajuda. Ele ficara triste e imaginava o que teria acontecido com ela. E, em um desses dias pensativos, ele adormeceu.

Em seus sonhos, lá estava ela a sorrir timidamente como da primeira vez que se conheceram. Mas aquele sonho era diferente: ela estava com as roupas que usou em seu enterro. O fundo era branco e, por mais que ela estivesse iluminada, quase transparente, por não se sabe qual luz, ela caminhava vagarosamente em sua direção.

- Oi amor. - disse ela sorrindo timidamente ao vê-lo - Estava com saudades...

Ele estava de boca aberta e não conseguia proferir uma palavra sequer para respondê-la. Ela é apenas um sonho - pensava ele em sua consciência.

- Sim, sou um sonho. - disse ela lendo seus pensamentos - Mas precisamos conversar.

Ele balançou a cabeça de olhos fechados, como se quisesse recuperar a consciência e acordar daquele sonho, por mais que este não fosse um pesadelo sobre sua misteriosa morte. Mas, assim que ele abriu os olhos, ainda via o fundo branco sob seus pés e ainda estava perplexo demais para conseguir falar algo.

- Por favor, me acompanhe. - disse ela andando.

Ele a acompanhou até um misterioso banco de parque, que lembrava muito os da faculdade dela. Isso trazia muitas lembranças boas para ele, principalmente quando ele descobrira que ela o amava.

- Sente-se. - disse ela se sentando.

Ele se sentou ao seu lado ainda quieto e, quando ele ia falar algo, ela fez um sinal para mantê-lo quieto e poder começar:

- Você precisa superar. - disse ela indo direto ao ponto - Você precisa me superar, superar minha morte.

- Por quê? - perguntou ele já conseguindo falar.

- Porque eu sou passado.

Ele se calou e ficou pensando naquela resposta por alguns minutos.

- Então, me responda: do que você morreu?

Ela suspirou e respondeu:

- Morri de desgosto.

- Como assim?

- Nossa discussão antes de sua viagem me causou uma tristeza profunda. Sei o que fiz contigo e isso me causou desgosto. Estive tão envergonhada que não sabia mais como te encarar ou sequer como falar contigo. Chorava todos os dias de madrugada pelo o que fiz e não encontrava uma resposta para conseguir me redimir. E, quando falava contigo, minha cabeça só me acusava de culpada... - disse ela de cabisbaixo.

- Mas isso não explica sua feição de dor. - comentou ele.

- Eu não tentei me suicidar se é isso que você está pensando. Estava com fortes dores de cabeça e não conseguia dormir direito, há muitas razões científicas para minha morte, mas nenhuma tão eficaz quanto o desgosto que senti ao te magoar. - respondeu ela - Eu sinto muito...

- Eu já te perdoei!

- Sim, embora eu não mereça seu perdão. Mas eu não me perdoei e, por isso, sou uma alma condenada a vagar pelo meu desgosto e culpa. O que fiz contigo não tem perdão, mas, ainda assim, você me deu mais uma chance a mim. Chegou a vez de dar mais uma chance a você e me superar. - disse ela, agora, olhando em seus olhos.

- Nunca quis te perder. - disse ele de cabisbaixo.

- E não vai.

- Você está morta e estamos num sonho.

- Correto. Mas, toda vez que eu digo que você não vai me perder, significa que eu sempre morarei no seu coração, não importa o que aconteça comigo ou com a gente, sempre morarei no seu coração, já que você me deixou entrar. - respondeu ela sorrindo.

Ele sorriu de volta.

- Eu te amo. - ele disse.

Ela abriu mais o sorriso, por mais que se sentisse sem graça com as declarações de amor inesperadas dele.

- Eu também te amo, por mais que eu tenha posto isso em dúvida nos últimos dias. - respondeu ela voltando a ficar de cabisbaixo - Hora de ir. - disse se levantando.

- E o que eu faço agora? - perguntou ele.

- Supere tudo isso e acorde. - disse ela andando.

Nesse mesmo instante, ele acordou com o raiar do sol.

- Vá em paz meu amor. - disse ele se despedindo - Eu te perdoo.

Ana Luiza Pereira

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