Lembranças

Com tantas mortes ao meu redor, me pego como em Hamlet, mas não sendo um governante, mas um cidadão de uma civilização aos pedaços se perguntando sobre a finitude da vida. Não me pergunto o que há no desconhecido do outro lado, aprendi a não busca respostas em vão e, muito menos, a temer o que virá (embora meu corpo essencialmente humano ainda tema). Porém, me pergunto: quem se lembrará de mim?

Família e amigos é uma resposta muito óbvia. Conhecidos irão ao meu enterro, mas duas semanas depois nem se lembrarão do meu nome. E, se lembrarem, quem mais além deles?

Minh'alma, enterrada num túmulo ou incinerada e jogada ao mar para que vire coral, ficaria contente se ouvisse, onde quer que ela esteja, uma história de "Era uma vez...", ou "Nos meus tempos...", ou "Conheci alguém..." e esse personagem fosse eu. Ela se sentiria viva, pois, de fato, ela está. Enquanto alguém, seja eu viva ou morta, contar histórias de mim, minha alma permanecerá eterna e minhas preocupações terrenas vãs.

Não digo isso com uma adaga apontada no meu peito pensando em suicídio e recitando "Ser ou não ser...". Mas penso nisso pela saudade daqueles que foram e eram próximos a mim. Conto histórias deles quando posso e eles vivem em mim. 

Minhas lágrimas não foram o suficiente para me despedir de cada um. Desejo, sim, revê-los, mas não como um espectro armado e amaldiçoado a vagar pelas madrugadas antes do sol raiar e do galo cantar, mas como anjos, dignos da descrição dantesca de Beatriz. 

Todavia, para isso, há duas possibilidades: a morte e a lembrança. Por isso, digo bem-dizeres e mal-dizeres de todos os que se foram, é uma forma de revivê-los, lembrá-los e, principalmente, homenageá-los.

Ana Luiza Pereira
Texto escrito no dia 25/5/2014.

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