Angústia

Pensando em Drummond, sei que algumas coisas ele escrevera pensando numa angústia. Algo que ele sentia em seu coração, como um aperto só que bem mais sufocante. Um precipício intrínseco, no qual ele não parava de perguntar: "E agora? E agora, você? (O que você faria no meu lugar?)". Com certeza, o poema de José ele fez para ele mesmo.

É mal de escritor procurar uma forma de exortação em suas palavras, principalmente para a sufocante angústia que não sabemos de onde vem e para onde vai... Na verdade, só sabemos os motivos. Motivos nos quais fugimos o tempo todo. 

E enfrentar? Às vezes chego a conclusão que lutar contra algo que consegue te sufocar é idiotice. Podemos espernear o quanto for, mas ainda há um precipício, um desconhecido a nossa frente. Há duas opções: construa pontes ou se jogue de uma vez. Não veja o precipício como sendo o seu único futuro, pois cada passo que você dera era o seu futuro a segundos atrás, um futuro que você decidira que fosse daquele jeito. Há sempre uma saída... Até os mais tenebrosos sentimentos desaparecem com o tempo.

Ana Luiza Pereira

Meu Natal (texto escrito por Clarice Lispector)

Como as crianças eram pequenas e não conseguiriam se manter acordadas para uma ceia, ficou hábito que o Natal seria comemorado não à meia-noite, mas sim no almoço do dia seguinte. Depois os meninos cresceram, mas o hábito ficou. E é no dia 25 pela manhã quem vêm os presentes.

Pelo o fato da ceia de Natal ser no dia 25, eu fiquei sempre livre na noite de 24 de dezembro. Mas há três ou quatro anos tenho um compromisso sagrado para a noite de 24.

É que, falando com uma moça que não era ainda minha amiga mas hoje é, e muito cara, perguntei-lhe o que ia fazer na noite de Natal, com quem ia passar. Ela respondeu simplesmente: o que eu tenho feito todos os anos: tomo umas pílulas que me fazem dormir 48 horas. Surpreendi-me, assustada, perguntei-lhe por quê. É que o tempo de Natal lhe era muito doloroso, pois perdera pai e mãe, se não me engano perto de um Natal, e não suportava passá-lo sem eles. Fiz-lhes antes ver o perigo de tais pílulas podia, em vez de 48 horas, dormir para sempre.

E tive uma ideia: daquele Natal em diante, nós passaríamos parte da noite de 24 juntas, jantando num restaurante. Encontrar-nos-íamos às oito e pouco da noite, ela veria como os restaurantes estão cheios de pessoas que não tem lar ou ambiente de lar para passar o Natal e o celebram alegremente na rua. Depois do jantar, ela me deixa em casa com o seu carro, e vai para casa buscar a tia para irem à Missa do Galo. Nós combinamos que cada uma paga a sua parte no jantar e que trocaremos presentes: o presente é a presença de uma para a outra.

Mas houve um Natal em que minha amiga quebrou a combinação e, sabendo-me não religiosa, deu-me um missal. Abri-o, e nele ela escrevera: reze por mim.

No ano seguinte, em setembro, houve o incêndio em meu quarto, incêndio que me atingiu tão gravemente que fiquei alguns dias entre a vida e a morte. Meu quarto foi inteiramente queimado: o estuque das paredes e do teto caiu, os móveis foram reduzidos a pó, e os livros também.

Não tento sequer explicar o que aconteceu: tudo se queimou, mas o missal ficou intacto, apenas com um leve chamuscado na capa.

Clarice Lispector
Texto publicado no dia 21 de dezembro de 1968.

Aviso do além

Se eu fosse escrever uma mensagem de Natal para os meus parentes, seria: "Esqueça o passado, vida o presente e não se apegue a presente, apenas àqueles que estão ao seu lado".

Infelizmente, não me foi necessário a visita de três espíritos natalinos para que eu aprendesse a lição. Pelo o contrário, me foi necessário a perda de tudo o que tive: meus bens, meus parente e, inclusive, meu corpo e minha alma.

Você já deve imaginar que eu era egoísta, mas eu não era tanto assim. Na verdade, meu maior mal não era o egocentrismo e a avareza, mas foi ter deixado que a perda me afetasse tanto profissionalmente quanto como pai. Criei uma barreira imensa entre mim e meus filhos e não os vi crescer porque chorava pela perda de sua mãe. Eu era tão apegado a tudo que a lembrava que, quando perdi tudo, eu me perdi.

Me achei nas bebidas e me tornei violento. Batia nos meus filhos sem razão todos os dias. Fui, aos poucos, me afundando e me perdendo.

Só quando perdi meu corpo e minha alma descobri que o sentido que eu buscava para minha vida sempre esteve ao meu lado e eram meus filhos. Foi numa noite de Natal, estava com a pinga na mão e nada nos braços para dar aos meus filhos. Provavelmente, bateria neles como o presente de todos os dias. Estava atravessando a rua quando uma luz branca e forte me abateu. Um motorista bêbado avançou o sinal e me atropelou, nós dois morremos. É engraçado pensar que um bêbado matou o outro na sua imprudência.

Sei que, se por um milagre natalino, voltasse renovado, meus filhos me receberiam com um sorriso, mas não foi isso que aconteceu... Foi um funeral com todos tristes, não pela minha morte, mas porque me perdi no mundo do álcool.

Não posso mais avisá-los a não fazer o mesmo que eu fiz, e sei que meus filhos mão fariam, mas, a quem ouvir meu sussurro de não sei de onde, não cometa os mesmos erros. Família não se resume a quem foi, mas a quem ficou e te ama. Aproveite cada momento com eles! E tenha boas festas!

Ana Luiza Pereira

Sentimentos

Entre todas as coisas vistas e faladas, eu prefiro ficar com as sentidas. Há algo no inexplicável do sentimento que me atrai, mas sei dizer que esta atração vem desde tempos remotos. Às vezes me sinto como uma mariposa a ser atraída pelo desconhecido crepitar de uma chama...

Observo o mundo e vejo que as definições de sentimentos se reduziram a palavras. "Não!", tento dizer enquanto cada um tem sua vida corrida. As pessoas se esqueceram que não são palavras que definem o que sentimos ou como sentimos, mas são os mínimos gestos. Um simples olhar, um sorriso de lado, um arquear das sobrancelhas...

Às vezes sentimos coisas que acreditamos ser mais. No filme "V for Vendetta", há uma célebre frase dentre muitas: "Deus está na chuva". Para mim, Deus está na brisa, no vento. Sentir a brisa fresca te tocar enquanto observa um pôr-do-sol é bem mais que o sentimento de paz. Bem, é como disse; há algo inexplicável no que sentimos...

Ana Luiza Pereira

Mais uma declaração...

Já falei para você hoje, mas repito do mesmo jeito: não imaginava terminar meu primeiro ano da faculdade namorando. Nem queria isso, na verdade... Mas conhecer você e me apaixonar foi uma surpresa e tão boa que, simplesmente, me deixei levar pelo meu coração. E, falando sinceramente, não me arrependo de nada. Você foi, e ainda é, um gatilho que despertou em mim o que há de melhor. Não importa como eu esteja ou o que acontece comigo, estar com você me dá uma paz que, admito, poucas vezes senti isso na minha vida. Você simplesmente me faz feliz e estar com você todos os dias é sempre algo novo e inesperado, nunca parece uma rotina. Eu só sei que eu te amo cada vez mais e contigo quero estar até o fim dos meus dias...

Ana Luiza Pereira
Texto escrito no dia 6/12/2013