Carta ao pai omisso

"Querido Pai,

Sei que este não é esse o melhor modo, ou o modo certo nem o mais convencional para conversarmos, mas foi o único que encontrei. Se não tiveres com pouco tempo, então, ignore a carta. Mas também eu recomendo que leia a mesma até o final para esclarecermos alguns fatos.

Conheço o teu jeito. Convivo contigo... Sei que és omisso. E, para falar a verdade, tal omissão me fez ter raiva de você por um curto período de tempo. Há alguns anos atrás, meu orgulho foi ferido por um pai presente de corpo (em determinados horários) e distante de alma. Eu queria um pai de verdade, que riria e brincaria comigo, que me contaria histórias sem que as pedisse... Então eu entendi porque os valores familiares dos meus amiguinhos de escola eram de pais separados... Você nunca secou sequer minhas lágrimas! Na verdade, você nunca soube quando chorei e nem meus motivos por estar ocupado demais com o trabalho... Tive raiva, mas depois, entendi.

Sei que o que fazes é para o bem de sua família. Mas, começo a pensar que seus valores de família estão um pouco deturpados. Você vive em torno do armazém e de meus avós! Tudo bem ajudá-los, mas você por muitas vezes deixou passar eventos que seriam importantes para mim e aos meus irmãos para estar lá de prontidão e servir de escravo de minha avó. Quando dou razão a minha mãe a esse assunto desagradável, não é para defendê-la, mas para que você saiba que estás sendo omisso: Armazém tem matado sua família. Se duvidas, então, revogo a leitura de Gênises (a clássica leitura de casamentos): "...deixará o varão o seu pai e a sua mãe e apegar-se-á a sua mulher e serão ambos uma só carne." (Gn 2,25) Ok, deixaste o lar de seus pais, mas parece que reconhece meus avós como família e prioridade, quando não vê a família que estás em casa, à sua espera, desmoronar com a sua negligencia. É a família que te espera no conforto de casa que deves honrar e tratar como prioridade, senão... Como queres que eu vos honre?

Sei que você sente quando eu e os meus irmãos damos respostas curtas ao seu raro interesse. Mas essa barreira, você mesmo criou com o passar de todos esses anos. Venho chorado dia e noite, vendo tudo o que tem acontecido e ouvido tudo, inclusive seu "desejo" de morte e seu desgosto e venho me calado... Veja: a família que somos e éramos é apenas uma maquiagem que está sendo desgastada pelas lágrimas que você nem se importa em secar.

Se consideras mesmo meus avós como sua família e prioridade, volte para eles! Você é um pai ausente com a carteira presente e isso qualquer um pode ser... Mas se prezas mesmo a família que construiu com seu sangue e suor, abra seus olhos, seus ouvidos e sua boca. Veja o clima de tristeza e depressão que ronda a casa que habitas, veja as lágrimas que você não seca...

Essa carta mesmo é apenas um desabafo, já que você não escuta minhas palavras, mas gosta de avaliar meus textos... Eu só espero que após ela você venha conversar abertamente de pai para filha e que minha mãe não saiba dessa carta que está em vossas mãos. Eu te amo pai; lembre-se disso e volte para casa de corpo e espírito."

Ana Luiza Pereira
(22/03/2013 22:48)

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