Cante, Musa! Cante!

Cante, ó Musa, os amores daquele que cria.
Os amores da carne flagelada pela Pandemônia e seu eros.
Cante, Erato amada, ao som da lira límpida
à luz prateada da noite, o som dos amantes desgraçados,
dos corpos entrelaçados pelo amor mágico de Afrodite.

Cante, ó Musa, as tragédias de eros.
Cante aos ouvidos de quem ouve
os malefícios de amar demais, matando sua criação por um amor.
Cante, Melpoméne divina, histórias de amores que não eram para acontecer
e seus fins, trágicos ou alegres, com toda sua tensão e catarse.

Cante, ó Musa, as comédias dos antros,
O escárnios de demos, os movimentos dos hipócritas.
Cante, Thalía querida! Inspire os hipócritas dionisíacos
em seus escárnios a pólis e a diké
e a brincadeira do riso e movimentos.

Cante, ó Musa, ao deleite dos sons límpidos,
cante ao som da lira prateada ao ouvidos de quem faça ouvir.
Cante, Eutérpe, filha do Crônida, e faça esses homens,
em vorazes banquetes em honra a Zeus pai,
se deleitarem ao som da mais divina música que cantares.

Cante, ó Musa, as danças festivas,
inspires os mortais a não esquecerem as danças dionisíacas,
inspires os gineceus a dançarem como ninfas em densos bosques.
Cante, ó Terpsicóre, as alegrias e os sorrisos
entre ritos e movimentos de cultos aos deuses mais viris.

Cante, ó Musa, os acontecimentos com epopeias e liras.
Cante as forças dos deuses nas guerras
e sua bondade com os antros ferozes sedentos de sangue.
Cante, Kallíope grandiosa, com sua bela voz as épicas batalhas que os Dânaos,
com a ajuda magnânima divina, enfrentaram durante sua  existência.

Cante, ó Musa, os heróis que por aqui passaram,
cante seus corpos resplandescentes ao sol e sua virilidade,
cante, Klío, filha de Zeus, os feitos desses heróis que hoje
batem à porta do Hades à espera de um funeral honroso, pranteado,
enquanto na terra vilipendiam seus cadáveres.

Cante, ó Musa, os hinos desta terra que dá cereal para nossos estômagos
e vinho para nossas gargantas secas,
cante, Polimnía, os hinos dos homens aos deus,
que abençoam a terra e nos dão o que comer,
que nos aconselham e nos dão o que festejar.

Cante, por fim, ó Musa, as estrelas que por esses céus
nos cercam e nos presenteiam. Presentes de Zeus para iluminar
a noite mais sangrenta e escura que possa existir.
Cante, Ouranía celeste, as constelações que guiaram os argonautas
e que guiam os pastores em seus lavores terrestres.

Cante, Musas! Cantem todas!
Sem suas divinas vozes, de nada seremos, de nada criaremos.
Cante a nós, meros mortais, merecedores de pelas músicas e danças,
merecedores de belas histórias e amores,
merecedores de poesias líricas e bons hinos,
merecedores do bom teatro.
Cante aos antros seus feitos, filhas de Zeus pais, o Crônida.
Cante nossas histórias para o nosso bom deleite.
Inspire-nos, filhas da divina Memória! Fale aos nossos ouvidos,
para podermos ser heróis criadores e contarmos aedos no deleite de nosso banquete.

Ana Luiza Pereira

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