Historieta de uma vida


Sempre quis escrever esta história. Não sei porque escrevo-a agora; talvez por estar madura o suficiente, talvez porque as palavras certas só me vieram neste instante... Mas não sei, sinceramente.

Esta história começa no dia 24 de junho de 1924. Em meio a guerra, nasce uma criança brasileira cujo nome significa "adorar".

Aos doze anos, ela se torna Verônica em uma peça religiosa de sobre a Via Crucis. Desde então, ela tornou-se realmente uero icon com sua família, amigos, na sua religião (que desde sempre, por sua criação, se mostrou muito católica e devota a Nossa Senhora).

Criada para ser perfeita: amiga, mulher, mãe. Fazia aulas de canto e piano, foi professora dos mesmos e tinha um dom poético e musical totalmente notáveis. Inclusive, no seu tempo de estudo musical, fez uma única aula com o ilustríssimo senhor Villa-Lobos. Contudo, o cotidiano suprimiu sua criatividade poética, embora não afetasse seu desempenho e gosto por música clássica.

Mais tarde, ela se casa com um militar. O amor cresce e logo ela tem filhos: a primeira ( a mais parecida com o pai, principalmente seus olhos azuis) que sempre foi uma artista nata, o segundo sempre se mostrou muito trabalhador, o terceiro gostava de cuidados, a quarta era séria e o quinto... Antes que ele desenvolvesse uma característica marcante, o pai abandona a família e vai morar com sua amante.

Então, nossa heroína começa a passar dificuldades financeiras. A vida de realeza que ela tinha virou um pesadelo de uma miserável. Aos três filhos que lhe restavam em casa, faltavam-lhes um prato de comida. Acanhada, pedia dinheiro a amigos, pagando-os mais tarde assim que pudesse. Porém, alguns "amigos" viam tal mulher bonita e desquitada pedindo-lhes dinheiro e logo imaginavam que teriam algo a mais com ela em troca. A partir dessa situação desconfortável, sua integridade exige da justiça uma pensão do ex-marido para alimentar seus três filhos que ainda moravam com ela (um já adulto e solteiro, uma adolescente e uma criança).

O tempo passa e com ele vem mudanças. Junto com os anos, vieram os primeiros netos para presentear a vida daquela mulher do lar desquitada. Ela ajuda sua filha mais velha a criá-los, mas quando ela tinha ou queria fazer algo, não se prendia a nenhum neto, nem a ninguém.

E, assim, foram os anos... Até que ela se muda para a casa da filha mais nova (já que a mesma se preocupava por ela morar longe demais dos filhos). Tratava seu genro com amor, carinho e respeito e nunca se meteu numa briga sequer entre a filha e seu marido. Ajudou a crias mais três netos (dois da filha mais nova e um do filho mais novo, o qual passava por uma situação difícil e complicada na época). E, quando pensavam que a grande família estava completa, a notícia vem: mais um neto nasceria.

Não sei dizer como interpretaram esta notícia, mas a filha mais nova da nossa heroína, com o tempo, caiu em depressão. Sua gravidez era de risco por dois fatores: ela já tinha uns 30 anos e o vício do cigarro que não largava. Mas, o que mais a incomodava, era o fato de começar tudo de novo sendo que ela já estava cansada e com seus filhos praticamente criados. Porém, sua mãe estava lá e a ajudou o tempo todo.

Após o nascimento deste "milagre", sua criação foi dúbia. A filha ensinava, amamentava... Mas quando a criança chegou numa certa idade, ela não gostava de sair da barra das saias da avó, sendo até protegida pela mesma caso fizesse mau criação. Quando saía, se remoía de preocupação e pedia para voltar logo para casa e ficar perto da avó. Foi a avó que fazia o leite morno no final das tardes, que tirou a mamadeira, que ensinou a jogar e a roubar no buraco, algumas músicas do teclado... Ensinou tanto a neta! Isso contando com os valores que ensinava e o carinho que dava.

Era tanto amor que ela era até "famosa" por respeitar e dar o mínimo de atenção e carinho. Inclusive, seus netos a amavam tanto que, sempre que podiam, estavam perto dela e não queriam mais sair. Seus filhos idem. E ela, por causa disso, ensinava-os a doutrina católica e o rosário. A neta mais nova amava tanto sua avó que dormia com ela por medo de algum mal acontecer durante a noite e ela não estivesse por perto apara protegê-la (e assim se seguiu por anos).

Até que, fatalmente, a neta mais nova percebe certos sinais que as funções biomotoras de sua avó estão falhando durante suas noites de jogatina. Ela avisa sua mãe que observa. Logo, nossa heroína está entrevada numa cama, mal consegue se locomover, comer alimentos sólidos e começa a se esquecer dos nomes das pessoas ao seu redor.

Todavia, mesmo na cama, ela recebe uma visita ilustre: a pessoa que mais amou em sua vida inteira; seu ex-marido. Ela pediu que a arrumasse e a perfumassem (já que ela mal se mexia), e esperou-o. Para infelicidade de alguns filhos (que ainda guardavam rancor pelo o que ele fizera), ele apareceu. Apesar de ter construído sua terceira e última família, ele demonstrou todo o seu amor e arrependimento para ela. Conheceu alguns netos e estava acanhado, pois não sabia como se portar após todo esse tempo. Porém, admitia o remorso que sentia pelo erro que cometeu.

Após esse episódio, nossa heroína não durou muito. Teve seus altos e baixos, porém, um dia antes de morrer, ela pede a filha mais nova permissão para ir, pois se sentia cansada e, com muito pesar, a permissão foi concedida. No dia seguinte, ela não pronunciava uma palavra sequer, apenas agonizava. A filha, percebendo que a mãe ia de fato morrer, afasta sua filha mais nova e convoca sua filha mais velha para rezar a Ave Maria, assim, quando ela morresse, ela seria levada ao céu pelas mãos de Nossa Senhora. No "amém" da terceira Ave maria ela falece.

Era domingo, dia 27 de agosto, a noite, passava jogo do Vasco na TV, quando a filha foi interromper o jogo do marido contando, ao pé da escada, que sua mãe havia falecido. Ela estava chorando muito e sua filha mais nova (neta mais nova da heroína que estava com pai, já que sua mãe a afastara dessa cena mórbida), que estava com o coração apertado, ouviu tudo e saiu aos prantos para se ajoelhar diante do corpo da avó morta. O quarto, cujo corpo se encontrava, começou a cheirar a rosas sem motivo aparente (ninguém tinha aspergido perfume) e continuou com esse cheiro por dias após o corpo removido. Foram muitas lágrimas de amigos e parentes, todos lamentavam muito pela perda.

Meses depois de sua morte, seu ex-marido que se encontrava doente, amor da vida de nossa heroína, soube de sua morte e morre duas semana depois alegando que ela foi o único e verdadeiro amor da vida dele.

Hoje só restam lembranças cujas lágrimas de saudade são inevitáveis. Seu nome era Adoraide e ela era a minha avó e minha heroína. Seu exemplo de amor e respeito persiste como passos a serem seguidos por seus filhos e netos. Por isso, conto esta história, para que a mesma sirva de exemplo a todos.

Ana Luiza Pereira
Na foto estão Adoraide, seu marido e seus cinco filhos.

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