Carta de um condenado

"Amor, meu grande amor,

Cá estou eu conversando com os meus botões e lembrando de você. Eles, arrebentados por um ato de selvageria, reclamam. Eu, paciente ouvinte, apenas sorrio com a lembrança dos bons tempos passando diante dos meus olhos. 

Tempos de outrora que a vida era fácil e a casa era um refúgio e fortaleza. Mas tudo se foi... Foram-se as velas, o luxo, o dinheiro e a minha vida. Só me restou esta roupa listrada que as traças hão de comer assim que puxarem o gatilho. 

Diante desse muro manchado com meu sangue e de outros mil, descubro que a vida é simples, embora em toda sua efemeridade eu busquei coisas que não convinham com a real felicidade. 

Despem-me de novo e puxem o gatilho! Não aguentarei ver a anistia dos ditadores desses campos. Quero ser feliz e reencontrar você em outros campos mais verdes. Quero ter outra vida sem ser esta que me condena a sofrer pelo o que acredito. 

Digo adeus, para o corpo. Minha alma já está além dessas grades e desses campos recheados de prisioneiros listrados e magricelos. Minha alma está em você... 

Até."

Ana Luiza Pereira

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