Aqueles olhos

Um dia ao andar na rua, sentei-me para descansar. Estava um sol escaldante do meio-dia e resolvi pegar um ônibus para encurtar o longo caminho para o meu destino. Espertamente, pus os fones de ouvido e comecei a ouvir música.

O meu ônibus passa, eu entro e, por um milagre, sento no último lugar vazio atrás. Mas logo o ônibus enche, o empurra-empurra começa e o falatório também. Deus abençoe os fones de ouvido!

Começo a ler um bom livro... E num mera reflexão, após ler sobre a aparência e o jeito de uma das personagens, ela se prostrou a minha frente em pé. Ela era igual a personagem descrita no livro... Olhos cor de ébano, cabelo longo e um pouco repicado cor de madeira molhada, perfumada em rosas e pele doce num tom de seda. Era perfeita como a personagem. Seus olhos sérios fitavam ao longe da paisagem da janela e eu a fitá-la descaradamente...

Vez em quando, ela olhava a mim e eu voltava meus olhos ao livro, fingindo voltar a ler enquanto minhas bochechas queimavam por baixo da minha pele. Por um instante, tentei ver a nacionalidade do autor, para ver se ele havia se inspirado naquela garota de colegial perfeita de olhos penetrantes, mas não. Ele não era do meu país e nem havia, porventura, visitado. Era uma mera coincidência vê-la no ônibus em pleno dia de sol rachante enquanto lia tal livro que a descrevia.

Mas meus olhos a ela pertenciam e seus olhos pensantes penetravam a quem via, por mais que ela não nos olhasse diretamente. Meu devaneio foi cortando quando, por seu descuido, seu celular cai perto do meu pé. Eu pego e a entrego. Ela me agradece sorrindo, um sorriso lindo, branco e puro enquanto eu fiquei sem graça.

Porém, tudo o que é bom acaba. Ela desce e logo eu também. Mas aqueles olhos... Aqueles olhos penetraram em minha mente e eu nunca mais esqueci da personagem do livro que li.

Ana Luiza Pereira

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