Xadrez


Às vezes penso que sou um mero peão de jogo de xadrez. Facilmente descartável no jogo de xadrez da política. Vou à frente nas guerrilhas e motins, mas sempre sou silenciado por policiais (cavalos), membros religiosos (bispos) ou militares (torres). Quando um peão consegue vencer, se depara então com a rainha nos tribunais (pessoas influentes). É... Só depois de muita luta é que os peões conseguem derrubar os reis do governo. Cadê os peões que ainda não foram silenciados nesse jogo?

Ana Luiza Pereira

Menina na janela


Tão dócil! A menina da janela está mais uma vez a observar... Parece que nada acontece com ela, pois todos os dias ela se posicionava diante da sua janela com olhos atentos e observava a quem passava. Sabia um pouco de cada pessoa de tanto observar, mas ninguém sabia nada sobre ela. Menina da janela, menina da janela... Quem ela era? A verdade, a verdade vos digo: ela era apenas uma figura efêmera que ninguém se importou. Mas um dia ela há de sair da sua janela e seu exílio e um outro alguém na janela vai começar admirá-la como ela admirava as pessoas.

Ana Luiza Pereira

Comunhão

Toda vez que ouço a palavra "comunidade", me lembro da ideologia de Marx e Engels de uma sociedade comunista, onde tudo é partilhado igualmente. É uma sociedade utópica, já que o ego do ser humano, uma hora, vai superar seus preceitos e conceitos de igualdade social.

Uma união numa comunidade é feita por ideologia, local, regras, patrimônio socio-cultural iguais em algum lugar (segundo a sociologia). Porém, nada disso é capaz se não houver respeito. Uma visão igualitária não é só a partilha de bens, mas também partilha e respeito de ideologias e conceitos diferentes.

Contudo, o ego humano é tão grandioso e se torna tão magnânimo em certo momentos que nos falta humildade de assumir que não somos capazes de tudo sozinhos, que necessitamos do próximo como ele é. Isso acontece em todas a comunidades, inclusive a cristã, fazendo com que o sonho do comum e da unidade seja uma utopia realizada as avessas, pois somos humanos e temos o direito (do livre arbítrio) de errar para conseguir acertar, progredir e fazer crescer algo que nos convém.

Ana Luiza Pereira

Quando algo sufoca...


                Sinto-me cansada. Hoje, só ouvi reclamação dos meus pais e, ultimamente, por mais que coisas boas também tenham acontecido, as más têm se sobressaído...
                É tanto problema que o superprotecionismo só tem me afetado. Ontem, admito que chorei e hoje estou chorando mais ainda...
                Não é porque eu sou (bastante) preguiçosa que ainda posso ser considerada criança. Não é porque eu não anuncio minhas decisões que ainda posso ser chamada de criança. Não é porque, às vezes, insisto em algo (até brigo por causa dele) que sou ainda uma criança. Sim, tenho corpo de mulher, mas minha mentalidade ainda é de adolescente. Eu fico presa em casa, saio sempre com as mesmas pessoas, é por isso que meus gostos são “anormais”. Como terei experiência de vida se mal me deixam voar para fora do ninho?
                Sinto uma vontade desesperadora de fugir desse ninho e dessa superproteção. Pode ser para o meu bem, mas me sufocar não é mais uma opção. Cada um tem seu jeito e seu tempo para crescer e amadurecer, andar pelas minhas pernas bambas é o meu, mas como faço se autorização não tenho?
                Estou cansada de estar presa nessa redoma, de ser uma boneca de porcelana e não fazer nada. “Deixe o passarinho avoar que uma hora ele volta para casa...”

Ana Luiza Pereira

Era uma vez amizades...


Era uma vez
em que a tela do computador 
não separava amizades sinceras

Em que os risos e gargalhadas
davam cor 
e alegria aos que participavam

Era uma vez
em que confiança era algo simples,
bonito e compartilhável

E, contar com aquele amigo
que mora longe, 
era algo reconfortante

Era uma vez
em que encontros 
nas redes sociais eram rituais

E que, muitas vezes,
não falar "oi" as pessoas que você gostava 
lhe fazia perder o sono

Era uma vez
um quarteto inseparável
que foi separado com o tempo
e que agora só resta amor e saudade...

Ana Luiza Pereira
Dedico a Júlia Santos, Edmilson Jerônimo e Kérisson Wemerson.

Aqueles olhos

Um dia ao andar na rua, sentei-me para descansar. Estava um sol escaldante do meio-dia e resolvi pegar um ônibus para encurtar o longo caminho para o meu destino. Espertamente, pus os fones de ouvido e comecei a ouvir música.

O meu ônibus passa, eu entro e, por um milagre, sento no último lugar vazio atrás. Mas logo o ônibus enche, o empurra-empurra começa e o falatório também. Deus abençoe os fones de ouvido!

Começo a ler um bom livro... E num mera reflexão, após ler sobre a aparência e o jeito de uma das personagens, ela se prostrou a minha frente em pé. Ela era igual a personagem descrita no livro... Olhos cor de ébano, cabelo longo e um pouco repicado cor de madeira molhada, perfumada em rosas e pele doce num tom de seda. Era perfeita como a personagem. Seus olhos sérios fitavam ao longe da paisagem da janela e eu a fitá-la descaradamente...

Vez em quando, ela olhava a mim e eu voltava meus olhos ao livro, fingindo voltar a ler enquanto minhas bochechas queimavam por baixo da minha pele. Por um instante, tentei ver a nacionalidade do autor, para ver se ele havia se inspirado naquela garota de colegial perfeita de olhos penetrantes, mas não. Ele não era do meu país e nem havia, porventura, visitado. Era uma mera coincidência vê-la no ônibus em pleno dia de sol rachante enquanto lia tal livro que a descrevia.

Mas meus olhos a ela pertenciam e seus olhos pensantes penetravam a quem via, por mais que ela não nos olhasse diretamente. Meu devaneio foi cortando quando, por seu descuido, seu celular cai perto do meu pé. Eu pego e a entrego. Ela me agradece sorrindo, um sorriso lindo, branco e puro enquanto eu fiquei sem graça.

Porém, tudo o que é bom acaba. Ela desce e logo eu também. Mas aqueles olhos... Aqueles olhos penetraram em minha mente e eu nunca mais esqueci da personagem do livro que li.

Ana Luiza Pereira

Tipos de amigos

Digo que você pode usar seus amigos para três coisas: serem degraus, apoios ou pilares. Nos degraus pisamos para subir e tentar conseguir algo, nos apoios descansamos as pernas por estarmos demasiados cansados e nos pilares construímos algo tão forte e tão sustentável capaz de durar uma vida inteira. Já fui degrau, sou apoio e um pouco de pilar para algumas pessoas. Ser degrau é doído, ser apoio é cansativo, mas ser pilar... Por mais que você possa se estressar, no final é maravilhoso. Então, usa-me para o que achares melhor, só desejo boa sorte para conseguires o que realmente desejas no final.

Ana Luiza Pereira

Apenas alguns "querer"

Quero te proteger e proteger a criança que há em você
Quero te abraçar e abraçar a esperança de te fazer sorrir
Quero te acariciar e manter essa amizade sem palavras
Quero te afagar e por em você a alegria da amizade
Quero te manter e não esquecer da pessoa especial que és para mim...

Ana Luiza Pereira

Falhas de uma escritora saudosita


Acho que tudo na vida começa com erros. Tudo começa com as quedas e a nossa melancolia antes de se reerguer e continuar. Porém, eu acho que não motivação mais significativa a um homem (quando digo homem, eu me refiro as pessoas de qualquer idade física e/ou mental) do que a procura da superação de si próprio.

Com essa procura, erramos mais e mais olhando para os lados e desejando coisas, nas quais, nem sempre valem a pena. Tudo o que precisamos está do nosso lado e nem sempre sabemos aproveitar. Nisso, acabamos por perder momentos especiais, coisas maravilhosas e pessoas valiosas. Após isso, as palavras "e se" um dia irá tormentar a gente num momento de reflexão. A verdade é que eu acho um crime deixar uma pessoa passar em sua vida sem que você ria com ela ou peça perdão pelos erros que cometeu que possa tê-la atingido.

Começo a dizer que sou uma "escritora saudosista", pois escrevo sobre aquilo que sinto falta, que sinto ou senti, que eu vi matar ou fiz morrer em mim mesma e isso me faz um pouco pessimista, mas não o suficiente para desistir. E, por mais que eu tente viver com o Carpe Diem, sinto falta de pessoas que passaram por mim e que no final não pude pedir perdão pelos meus erros.

Alguns podem me achar uma boa pessoa, boa amiga, boa filha, mas pouca gente conhece minhas reais dores, minhas quedas e falhas. Outros podem me achar egoísta por só falar "eu", mas eu a verdade é que quero superar expectativas, superar quem veio antes de mim no passado, superar a mim mesma para deixar alguma marca de mim para o futuro.

Afinal, esta sou eu; aquela menina que chora por sentir falta de alguém que não pode estar mais no seu lado.

Ana Luiza Pereira

Os que se negam


No mundo há vários tipos de pessoas; as sonhadoras, as batalhadoras, as que sempre tiveram tudo o que quiseram, os estudiosos, os que nasceram inteligentes, os que tem um dom para mudar o mundo, os que lutam para mudar o mundo porque esse é o seu propósito, os que acreditam fielmente em Deus, os que não acreditam, etc. Porém, todos nós temos um pouco de negação em nós. Pode ser por ignorância ou por puro comodismo, mas chegamos a negar coisas importantes ao nosso futuro.

Tem os que se negam a olhar, não veem a miséria, a ganância dos homens e as mentiras sendo desmascaradas diante de nossos olhos. Gostam de ver o que é bonito, o que o progresso traz a nós enquanto ainda é novo, bonito e bom, mas sempre gostam de dizer: "No meu tempo, isso daqui não era assim..."

Tem os que se negam a ouvir, ouvir os problemas reais do mundo e do local onde vive. Gosta de se iludir com promessas falsas de pessoas falsas, diz a si mesmo que amanhã tudo vai ficar melhor, mas sabe que não é bem assim.

E tem o pior de todos, os que se negam a falar. Esses sabem dos problemas do mundo, mas não falam porque não se acham capazes de mudar algo. Então, essas pessoas se sentam no sofá e ficam a assistir jornais (quando assistem) esperando que as ONGs mudem o mundo por si mesmas. "Sou apenas uma simples formiga, serei silenciada pelas mãos do governo facilmente."

A quem devemos ser fiéis? Ao governo ou aos nossos propósitos do mundo melhor? Se quiseres ser fiel ao governo, então continue sendo o macaco que não vê, não ouve e não enxerga. Contudo, se quiseres mudar algo, como diria Bob Marley, mude a si mesmo: tire os tampões do olhos, as ceras do ouvido e descosture sua boca. Veja, ouça, fale e faça! Ninguém fará por você se não tentares fazer por si mesmo. E, então, vai continuar a se negar a lutar?

Ana Luiza Pereira

Canção de Romeu

Na janela o sol brilha,
O sorriso numa linha fina
Estampado no rosto da menina
Vestida de seda,
Perfumada em jasmim,
Com coroas de alecrim.
Corria no jardim
Do palácio aprisionada.
Inocente, vinha
À janela, próxima à minha,
Para dizer o que afligia,
E que seu coração a mim pertencia.
O vento já beijara
Os lábios que, por fim, desejava.
Julieta, seu nome gravado,
Na árvore estancado,
No meu coração guardado
Dentre paixões e desejos,
Beijos escondidos e suplicados,
Suplico-te: não morra.
Minha vida sem cor ou aurora,
Sem ti em outrora,
Me mata em facadas,
Sangra meu coração ferido,
Machuca-me mais que palavras
De ter perdido um ente querido.
Não vá em outrora,
Se este, enfim, não for o seu desejo,
Porque eu não vejo a hora,
De ter seu corpo nesse meu ensejo,
Dizer que és minha e eu seu,
Para sempre, serei, então, seu Romeu.

Ana Luiza Pereira
Inspirado em Romeu e Julieta de William Shakespeare.

Abençoados

Todos de uma maneira geral nascemos com um dom diferente. Alguns passam a sua vida inteira tentando descobrir no que é melhor, outros desenvolvem naturalmente. A verdade é que fomos igualmente abençoados, mas desenvolvemos nosso espírito para coisas diferentes ao decorrer de nossas vidas.

A vida, de uma visão generalizada, toma-se rumos desconhecidos e, portanto, diferentes se compararmos com a vida do nosso próximo. Por isso, nos são dados dons diferentes, para que possamos conduzir nossa vida e até tocar os outros com ele, servindo até como ferramenta de evangelização.

Tenho meu dom, e este é estar aqui e escrever sobre coisas que sei, acho e penso, até sobre as coisas que imagino. Vivo para tocar com palavras e sou muito grata por ter esse dom comigo. E você, já descobriu qual é o seu dom?

Ana Luiza Pereira