A real brincadeira de polícia e bandido


Venho hoje lhes contar uma história real e dramática, cotidiana até. Mas que poucos sabem suas verdadeiras razões, o verdadeiro passado desses dois personagens.
Rio de Janeiro, confronto de polícia e bandido na favela, troca de tiros, balas perdidas para todos os cantos. Corpos estirados no chão de inocentes ou não, repórteres gravando tudo para passar na televisão brasileira da forma mais sensionalista possível. Uma pessoa, esguia mais rápida, procurava um alguém durante o tiroteio.
Invade a casa, um bandido se despedia da sua mulher e seu filho de colo. Os dois se enfrentam no olhar, a mulher sabia que aquele policial doce que já viera visitar a sua casa não estava ali, ela chorava perante o fuzil apontado ao seu marido e sabia que ali seria o fim.
- Foge. – disse o policial à mulher. Ela, aos prantos, sai da casa e deixa polícia e bandido a sós.
- O que você quer? – pergunta o bandido ao policial.
- Que você se entregue.
O bandido riu de deboche e respondeu:
- Nunca.
- Você nunca vai conseguir sair vivo daqui... Todos estão aqui com ordem de matar, você se entregando é a única saída de sair vivo e continuar a ver sua mulher e seu filho.
- Prefiro morrer...
- É isso mesmo? Você é peixe pequeno! Olhe pra você! Só te deram uma calibre 42 e nenhuma proteção! Você por muitas vezes parou no hospital entre a vida e a morte, na cadeia, é foragido e quer mesmo continuar sendo peão de traficante grande?
- Deixe de blá-blá-blá! Você que é o cheio da grana, empresário e policial! Você que tem família, amor e luxo e quer mesmo tirar o pingo de orgulho que ainda me resta com este discurso sobre minha vida? Qual é a moral disso tudo?
- Eu quero é te ajudar!
- Não preciso de sua ajuda... – interrompeu o bandido.
- Essa é a terceira e última vez... Se entregue! Eu pago seu advogado, logo você estará livre novamente!
- NÃO! E quer saber? Cansei dessa baboseira... – disse o bandido apontando a arma ao policial.
O policial ri.
- Você sabe que meu colete aguenta tiro até de fuzil...
- Quem disse que meu tiro será no peito? Acertarei a sua cabeça!
- Se assim desejas... – disse o policial apontando o fuzil também.
Segundos depois, ouve-se o disparo.
- Eu disse que meu colete aguentava tiro desse calibre... – disse o policial retirando a bala do colete.
Ele olha para o corpo estirado naquela sala, abaixa para fechar-lhe os olhos e com lágrimas nos olhos diz:
- Adeus irmão...
O policial ficou ali, do lado do corpo do seu irmão traficante a chorar e a se lembrar do passado. Lembrou-se que os dois foram separados quando ainda eram muito pequenos, o traficante ficou com a mãe por ser bonito e ele com a tia paterna, só foram se reencontrar anos mais tarde quando os dois tinham seus caminhos já trilhados. Um era um viciado e traficante e o outro era policial e dono de firmas junto com a esposa. Um fez de tudo para ajudar o outro, mas o irmão só queria as drogas e a bandidagem. Os dois sabiam que essa brincadeira de polícia e bandido teria um fim, e trágico...
O policial foi achado ali, naquela casa, não mais chorando, mas ele sabia que não tinha condições psicológicas de continuar com a operação.
No enterro do irmão, todos compareceram, mas poucos choraram. A culpada disso tudo estava lá também. A mãe que só ficara com os filhos mais belos e que não lhe dera amor o suficiente para que eles fossem homens e mulheres de bem.
Eu também estava lá. Presenciei cada palavra do depoimento do irmão abalado e choroso, da mãe fria, da tia consoladora e da esposa desesperada. E é por isso que eu digo, meus caros leitores, essa brincadeira de polícia e bandido de hoje em dia é perigosa e trágica demais para as famílias de bem.


Ana Luiza Pereira

1 comentários:

₣eĽΐρغ Ήغηяΐ XD disse...

Texto muito dinâmico, parabéns!
A verdade é que o que define o futuro, em parte, dos filhos, é a criação, o amor, o desejo de formar um cidadão de bem, esquecendo de seus próprios interesses e pensando nessa nova vida chegando ao mundo.

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