Patience - Aprendendo a viver


Mais uma tarde de julho nas montanhas. O inverno rigoroso me fazia apelar para as mais grossas roupas que tinham no meu armário.
Com um chocolate quente na caneca, retirei-me para a varanda onde estava meu marido, um cobertor, uma rede e um violão.
Ofereci-lhe um pouco do chocolate enquanto eu me cobria e me aconchegava ao seu lado na rede. Após sua golada no chocolate quente, ele voltou a tocar seu violão.
Nossas vozes se cruzaram na melodia suave de “Patience”. Ele cantava para mim enquanto eu me recostava no seu ombro. Eu cantava para ele enquanto me esquecia do chocolate quente em meu colo. E nós cantávamos para natureza que nos observava enquanto nós olhávamos seus vários tons de verde, marrom, azul, violeta... Ele fazia o ritmo da música com suas mãos a se encostarem levemente no violão velho e a natureza, sempre cúmplice de dois amantes, nos dava a melodia, a paz, a harmonia, enfim, tudo que precisávamos.
Eu podia não ter a vida perfeita, eu podia não ser perfeita, eu posso até não saber o que é perfeição, mas aquele momento chegou bem perto. Simples momento que afagou meu coração e marcou minha memória. Eu podia estar ali, nas montanhas, tentando fugir do mundo, da cidade, da monotonia, mas eu fugia do caos, da confusão, da armadilha que é viver.
A verdade é que eu busco uma maneira de ter a vida perfeita e sem estresse, mas respostas eu não possuo. Sempre enjoamos de algo, sempre brigamos e queremos algo, é a nossa humanidade cair e continuar lutando. Mas, uma coisa que eu aprendi, é que o que constrói seu caráter não é a quantidade de quedas, mas a quantidade de vezes que você levantou e continuou a viver.
A vida nos ensina sempre algo novo a cada dia, às vezes, não conseguimos aquilo que almejamos por não estarmos preparados ainda para suportar as dores. Eu sei... A vida sabe o que faz conosco.
Eu posso não ter a vida perfeita, mas eu tive uma ótima família e estou construindo a minha, tentando passar a ela tudo o que eles (a família e a própria vida) me ensinaram. Posso não ter amigos perfeitos, mas, para mim, eles são os melhores nos termos ouvir, aturar e aconselhar. Posso não ter o companheiro perfeito, mas ele, com certeza, é um ótimo companheiro para a vida toda.
Se perfeição existe, ela passa bem longe de mim e da minha vida. Mesmo assim, não reclamo dela. Vivo otimamente bem e tento aprender tudo o que a vida tem a me ensinar. Posso não ser a melhor aluna, mas tento ser boa em aplicar o que ela já me ensinou.
Posso até me entristecer às vezes com a realidade, posso até recorrer à imaginação de vez em quando, mas não posso fugir da vida. E, por mais que eu tente saber qual o sentido dela ou o porquê que ela nos ensina tanto, eu sei que não irei encontrar. Seu sentido é ser vivida intensamente com a ordem de sermos nós mesmos a todo o momento e eu sei que, às vezes, o viver nos pressiona quando somos nós mesmos. Ainda assim, não desisto da vida porque momentos como estes, que nos faz pensar e refletir em tudo que passamos, são únicos.
As dores podem passar, as lágrimas podem secar, os sorrisos podem se fechar, as vozes podem se calar, mas, ainda assim, a vida tenta nos ensinar a viver, e a viver bem consigo mesmo.
Podemos ser péssimos alunos e só descobrirmos no leito de morte, ou podemos descobrir enquanto vivemos pequenos momentos de quase perfeição com quem você ama e se importa.
Aprendi ali que a vida requer paciência, como diz a música; a paciência de aprender, a paciência para aquilo que você sonha comece a acontecer, a paciência de se descobrir e reinventar, a paciência de amar, a paciência de descobrir o que você realmente precisa, a paciência de fazer dos pequenos momentos os mais memoráveis... Muita paciência.
Os últimos acordes do violão me fizeram voltar à realidade fria da tarde de inverno. Sorri ao meu marido e agradeci. Ele ficou curioso em saber o porquê do agradecimento, mas eu nada disse. Em meu interior, agradecia a natureza por ser cúmplice da minha vida e dúvidas, por ser minha amiga e aturar meus momentos de desespero, quando eu rogo aos céus e a vida respostas para a minha confusão. Agradeci, também, a Deus e à minha família, eles puderam não me dar tudo o que eu queria, mas me deram tudo o que eu precisava para eu ter o mínimo da perfeição.
Só agora eu enxergo o quanto minha vida foi perfeita, por mais altos e baixos que ela continha, por mais lágrimas e sorrisos, e agradecia.
Amanhã? Amanhã eu volto à realidade. Afinal, viver não é um sonho realizado numa tarde nas montanhas, mas uma batalha constante entre o ser você mesmo e a pressão de sempre aprender o que a vida quer te ensinar.

Ana Luiza Pereira
Feito no dia 25/06/2011.

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