Complexidade de perdas


Se penso; existo.
Se existo; me busco.
Se me busco; uma hora me acho.
Enquanto não; me perco. 
Perco-me na melancolia, estupor, paixão, tristeza, vida e morte de palavras dos textos que me convém a escrever.
Infinitas possibilidades de perdas e encontros se há em palavras feitas de ações ou emoções completas ou não.
Inifinadades de definições incompletas por auto-biografias confusas não consistentes a de um dicionário.
Somos humanos, sujeitos a falhas.
Somos humanos, aqueles que pensam e criam palavras mais falhas...
Afinal, se penso, existo e me busco, por que não pensar, existir e me buscar me perdendo no mar de sentimentos tentando serem descritos num oceano de palavras?

Ana Luiza Pereira

Patience - Aprendendo a viver


Mais uma tarde de julho nas montanhas. O inverno rigoroso me fazia apelar para as mais grossas roupas que tinham no meu armário.
Com um chocolate quente na caneca, retirei-me para a varanda onde estava meu marido, um cobertor, uma rede e um violão.
Ofereci-lhe um pouco do chocolate enquanto eu me cobria e me aconchegava ao seu lado na rede. Após sua golada no chocolate quente, ele voltou a tocar seu violão.
Nossas vozes se cruzaram na melodia suave de “Patience”. Ele cantava para mim enquanto eu me recostava no seu ombro. Eu cantava para ele enquanto me esquecia do chocolate quente em meu colo. E nós cantávamos para natureza que nos observava enquanto nós olhávamos seus vários tons de verde, marrom, azul, violeta... Ele fazia o ritmo da música com suas mãos a se encostarem levemente no violão velho e a natureza, sempre cúmplice de dois amantes, nos dava a melodia, a paz, a harmonia, enfim, tudo que precisávamos.
Eu podia não ter a vida perfeita, eu podia não ser perfeita, eu posso até não saber o que é perfeição, mas aquele momento chegou bem perto. Simples momento que afagou meu coração e marcou minha memória. Eu podia estar ali, nas montanhas, tentando fugir do mundo, da cidade, da monotonia, mas eu fugia do caos, da confusão, da armadilha que é viver.
A verdade é que eu busco uma maneira de ter a vida perfeita e sem estresse, mas respostas eu não possuo. Sempre enjoamos de algo, sempre brigamos e queremos algo, é a nossa humanidade cair e continuar lutando. Mas, uma coisa que eu aprendi, é que o que constrói seu caráter não é a quantidade de quedas, mas a quantidade de vezes que você levantou e continuou a viver.
A vida nos ensina sempre algo novo a cada dia, às vezes, não conseguimos aquilo que almejamos por não estarmos preparados ainda para suportar as dores. Eu sei... A vida sabe o que faz conosco.
Eu posso não ter a vida perfeita, mas eu tive uma ótima família e estou construindo a minha, tentando passar a ela tudo o que eles (a família e a própria vida) me ensinaram. Posso não ter amigos perfeitos, mas, para mim, eles são os melhores nos termos ouvir, aturar e aconselhar. Posso não ter o companheiro perfeito, mas ele, com certeza, é um ótimo companheiro para a vida toda.
Se perfeição existe, ela passa bem longe de mim e da minha vida. Mesmo assim, não reclamo dela. Vivo otimamente bem e tento aprender tudo o que a vida tem a me ensinar. Posso não ser a melhor aluna, mas tento ser boa em aplicar o que ela já me ensinou.
Posso até me entristecer às vezes com a realidade, posso até recorrer à imaginação de vez em quando, mas não posso fugir da vida. E, por mais que eu tente saber qual o sentido dela ou o porquê que ela nos ensina tanto, eu sei que não irei encontrar. Seu sentido é ser vivida intensamente com a ordem de sermos nós mesmos a todo o momento e eu sei que, às vezes, o viver nos pressiona quando somos nós mesmos. Ainda assim, não desisto da vida porque momentos como estes, que nos faz pensar e refletir em tudo que passamos, são únicos.
As dores podem passar, as lágrimas podem secar, os sorrisos podem se fechar, as vozes podem se calar, mas, ainda assim, a vida tenta nos ensinar a viver, e a viver bem consigo mesmo.
Podemos ser péssimos alunos e só descobrirmos no leito de morte, ou podemos descobrir enquanto vivemos pequenos momentos de quase perfeição com quem você ama e se importa.
Aprendi ali que a vida requer paciência, como diz a música; a paciência de aprender, a paciência para aquilo que você sonha comece a acontecer, a paciência de se descobrir e reinventar, a paciência de amar, a paciência de descobrir o que você realmente precisa, a paciência de fazer dos pequenos momentos os mais memoráveis... Muita paciência.
Os últimos acordes do violão me fizeram voltar à realidade fria da tarde de inverno. Sorri ao meu marido e agradeci. Ele ficou curioso em saber o porquê do agradecimento, mas eu nada disse. Em meu interior, agradecia a natureza por ser cúmplice da minha vida e dúvidas, por ser minha amiga e aturar meus momentos de desespero, quando eu rogo aos céus e a vida respostas para a minha confusão. Agradeci, também, a Deus e à minha família, eles puderam não me dar tudo o que eu queria, mas me deram tudo o que eu precisava para eu ter o mínimo da perfeição.
Só agora eu enxergo o quanto minha vida foi perfeita, por mais altos e baixos que ela continha, por mais lágrimas e sorrisos, e agradecia.
Amanhã? Amanhã eu volto à realidade. Afinal, viver não é um sonho realizado numa tarde nas montanhas, mas uma batalha constante entre o ser você mesmo e a pressão de sempre aprender o que a vida quer te ensinar.

Ana Luiza Pereira
Feito no dia 25/06/2011.

Pontos de amor


Você diz: Eu te amei.
Eu digo: Eu te amo!
Você diz: Te esqueci.
Eu digo: Não consigo te esquecer!
Você diz: Oi amiga(o).
Eu digo: Oi amor!

E nessas reticências da vida percebemos a nossa diferença; você deu um ponto final a tudo enquanto eu vivo nas exclamações de um amor acabado. Enquanto vivo o presente do fim, exclamando por um ponto final dito por ti; você já virou a página, está em outra, exclama por um alguém que não sou eu... Dói, fere; pontos e vírgulas pontuam uma relação que teve um início lindo, meio conturbado e final trágico. Feridas ilusórias estão abertas por estes pontos. Quem poderá curar-me do amor se o amor-remédio me fere? Irei saber, irei viver na medida dos pontos que pontuam nossa vida, na medida das reticências do desconhecido amanhã...

Ana Luiza Pereira

Meu eu


Queria ser apenas um emaranhado de palavras que sinto, vejo e sou. Mas não. Sou lembranças, sou confusão de disse e não-disse, eu sou um pouco de você mesmo sendo ainda a mim mesma. Sou apenas um humano com suas imperfeições, procurando a perfeição onde não existe e perdendo a paciência quando a vida tenta te ensinar a tê-la.

Ana Luiza Pereira

Janela


Se a vida fosse um passeio; seria de carro nessa cidade. Vemos de tudo um pouco; felicidades, atrocidades, tristezas... Mas sempre sentados, cansados, observadores de uma vida numa janela de vidro. Até quando iremos nós ver a vida passar pela janela de nossas almas?

Ana Luiza Pereira

Debuxo de escombros


Estou aqui. Com papel e lápis a refletir no debuxo de meus sentimentos falhos traduzidos friamente em palavras. Não tente inicialmente entendê-los; só quem já sentiu reconhece as minhas palavras e as aplaude de pé. Aos outros, intrigo a imaginação e o pouco de senso crítico que nos resta.

Não quero parecer insana, muito menos idiota. Mas sim, sou uma sonsa. Por quê? Amor.

A quem quero enganar? Minhas lágrimas são invisíveis, meu sofrimento intrínseco, minha tristeza é reprimida... Não é por que eu não demonstro que eu não sinto, mas todos já sabem.

Às vezes parece que a vida te dá esperanças para arrancá-la toda, e mais um pouco de teus sonhos, de volta... Você, meu bem, me dá esperanças e me retira do gozo delas em um piscar de olhos. E eu? Choro. Que mais eu hei de fazer? Não tenho mais forças para lutar...

Sei que preciso de um tempo para mim, te esquecer e me afastar. Mas você é a droga mais viciante que já provei. Eu simplesmente não consigo entrar em abstinência de ti sem a depressão. Então, por escolha própria, prefiro morrer aos poucos de amores.

Se amor é uma bomba-relógio? Com certeza. Explode as emoções ao acontecer e só nos deixa os escombros. Por que somos nós sempre os soterrados sobreviventes? Se eu ao menos pudesse ter parado o relógio antes de sua explosão... Atrocidades, acidentes, fatalidades sempre irão acontecer. Bombas-relógios como atentados de um(a) terrorista também, infelizmente.

E nos escombros destes rabiscos, volto a por a mão no queixo a refletir na minha sobrevivência deste amor. Reconstrução? Sem chance, perda total. Mas o que é a vida sem os escombros macabros do passado? Sem a mudança e as bombas-relógios momentâneas? Respondo-te com maior prazer, amigo; nada. A mudança vem, inevitavelmente - sem pretensão ou previsão -, aceitá-la é uma obrigação, um fato. Não devemos temê-la, afinal, quer maior bicho-papão do que os escombros vosso passado?

Ana Luiza Pereira

Magia das palavras não ditas


Estou perdida. Num emaranhado de escritos e palavras não ditas. A música melancólica eleva a melodia da depressão. 

É uma floresta, negra, sem fim. Um cubo mágico sem portas onde tudo é branco e o que não é - é insano. 

É nostalgia de palavras há muito esquecidas, palavras de afeto que hoje machucam feito espinhos de rosas. E as pétalas - lágrimas, emoção. 

Um estupor por nada acontecer me toma, a melancolia já passara como um raio ardente e me deixou lembranças. Agora, a paixão me visita. 

Palavras vistas e expressadas sem serem palavras me tomam. Cada um quer me contar algo mas não sabe de que forma. Uma sensação quase orgástica pela raiva expressada ao bater dos pés... Tudo era dito no silêncio, sem palavras descritas. Tudo era expressado da maior maneira por fotografias e lembranças, textos visíveis sem palavras. 

Era rico, era detalhado, era um teatro mágico de amores sem fim. Era duvidoso, lindo, um espetáculo de emoções e música. Era TUDO; atrizes, atores, autores, eram personagens vivos dizendo sem palavras, expressando, sentindo... Era mágico o que via. O que via era a dança.

Ana Luiza Pereira

Uma pequena história de amor


Há muitos anos te escolhi,
Com as décadas te perdi,
Nos tempos procurei,
Em outrora, não te achei
Nos braços das épocas adormeci.

Para estradas voltei,
No caminho te encontrei,
De tudo falei
E você - estranho - se escondeu
Na noite, no breu,
Sozinha - coitada! - fiquei.

De novo, te vi.
Os teus versos de pé aplaudi,
Você me reconheceu
E não se esqueceu
Da louca que quis o bem para ti.

Em casa me enclausurei,
No fundo chorei
De amores por ti
E de ciúmes que senti
Nos braços de outra te encontrei.

Ainda não esqueci
Do garoto que encontrei,
Dos olhos que me perdi,
E da cabeça que afaguei.

Será que um dia eu irei
ao acaso poder
encontrar-te novamente
e no seu amor me perder?

Ana Luiza Pereira

Minhas palavras


Um emaranhado de escritos, é isto que sou. Um emaranhado de palavras ao vento que nem todos que quero que me ouçam, ouvem. Sou muitas palavras andantes modificadas pelo tempo, num nexo inexplicável que só a mente de um ser como eu possui. Sou um incomum comum, homem vivo que respira as palavras que mesmo diz. Sou uma lembrança de palavras ditas de alguém que tive afeto. Sou páginas envelhecidas com o tempo de palavras em busca de sua reciprocidade. Sou vivo, sou palavra, sou o vento que as leva, sou o livro que você lê, sou lembrança, sou simples: sou autor.

Ana Luiza Pereira

O espelho


Começo a pensar desta vez que a vida é um espelho. Suas contradições e contratempos nos levam a crer que nada do que queiramos será conseguido. Mas como todo o bom espelho, a vida reflete tudo ao contrário, se desejamos algo, seus contratempos fazem-nos acreditar que está tão distante que nos é impossível. Mas não. A vida quer ser conquistada. Ela pode ser um espelho de contratempos, mas também é uma luta e escola de ensinamentos conquistados ao decorrer de um dia. Contratempos existirão sempre, espelhos são imagens refletidas ao contrário, mas são imagens virtuais de uma coisa real: seus sonhos, desejos, sentimentos. Coisa mais real do que isso? É você enfrentar seu espelho e dizer com toda a força: eu consegui!

Ana Luiza Pereira