O novo Brás Cubas


Como qualquer ser humano zumbi, desenterrei-me de dentro para fora, de alguma causa morri e acabei de acordar no meu caixão com uma pena na mão e palavras na boca.
É difícil escrever memórias póstumas quando mal se tem. É mais difícil ainda escrever com vermes roendo cada parte pútrida de seu corpo frívolo até o osso. É difícil viver quando não se tem vida...
Contudo, por mais que eu seja um banquete de vermes, uma coisa eles não podem comer: tal esta é a minha mente, gaveta de minhas lembranças.
Tudo o que fui quando criança foi base para minha personalidade quando adulto. Na minha vida, sempre fui boêmio. Caía de paixões e até posso dizer que morri de amores. Está aí o meu verdadeiro motivo de morrer: de amor, pena que não consta no óbito.
Tive uma adolescência conturbada. Calei-me diante de certas injustiças, era confuso por natureza, romântico e malévolo. Minha felicidade estava dividida entre duas mulheres e deixei uma delas (talvez, uma das mais importantes para mim) ir por ser imaturo. Chorei, quis matar, quis morrer, quase fugi. Não prestava atenção nos detalhes que me cercam, apenas via o que estava à frente e o que era palpável. Fiz sofrer, fiz chorar. Pequei e fui humano. Demorou, mas desenvolvi e amadureci. De patinho feio a cisne (negro)...
Infância difícil; criado por mãe postiça, pai emprestado, irmão que não é de sangue. Tive tudo por mãe, nem tudo por pai, implicância de irmãos. Garoto de quatro famílias próximas e distintas, mas com pouca gente me simpatizava. Comecei a oscilar ali. Uma revolta por ter um “pai” que mal me via desenvolver também começa ali. Meus gostos mudaram um pouco... Muitas coisas são desnecessárias para ser descritas aqui.
Com certeza, tudo o que passei, as cicatrizes que tive formaram tudo aquilo que fui; meu jeito e minha personalidade são únicos. Conquistei uns, desprezei outros. Fui psicopata interno e matei a mim mesmo com certos erros. Fui psicopata de amores e matei quem amei afogada em lágrimas. Arrependo-me de pecados e erros que eu não puderam mudar ou serem consertados.
O irônico da vida póstuma, mesmo não sendo eterna, é que me tornei algo que não me simpatizava: um escritor defunto. E como Brás Cubas, de Machado de Assis, acordo após a morte para marcar e descrever a vida de alguém e não ressaltar algo que me tornei.
Vida após a morte não se há certeza, então amigo, se não acreditas, também não acreditará nessas memórias póstumas. Não tenho nem certeza se o que escrevo é real! Digamos que os vermes já perfuraram o meu crânio de não satisfeitos com a minha carne.
Não é crime errar, muito menos acordar de um descanso eterno para recordar seus erros. Sou autor, escritor desconhecido de todos, portanto, podes me chamar de “o novo Brás Cubas”.


Ana Luiza Pereira
Texto inspirado na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis.

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