A liberdade de Ícaro



            É tão incrível como o homem nasce e cresce pensando na possibilidade de um dia ganhar asas e saber voar.
            Toda vez que eu penso nessa possibilidade, eu me lembro da história de Ícaro que, por mais homem que fosse; ele ganhou suas tão sonhadas asas feitas pelo pai. Embora sua ambição, ao final, o fez cair e morrer em meio ao mar.
            Outra história que me faz lembrar foi quando eu, em muitas das minhas viagens, fui a casa, hoje museu, de Santos Dumont – o pai da aviação e do relógio de pulso.
Seu grande marco, com certeza, foi em Paris no séc. XX, quando o protótipo do primeiro avião idealizado por ele – 14 Bis – alçou seu primeiro voo com o sucesso desejado. Com certeza esta foi uma ideia inovadora para a época, afinal, muitos homens, até hoje, sonham em poder voar.
Mas esta não é a questão que quero apresentar.
Na minha curta visita ao museu, vi um garotinho. Tinha lá seus 8 anos, todo entusiasmado em estar pisando na santa casa de Dumont. Ao ver a bendita estátua do pai da aviação, uma que representava Ícaro e seu sonho das asas, disse bem baixinho ao pai: “Um dia, eu saberei voar.”. O pai, feliz com o entusiasmo do filho, apenas sorriu. Com certeza ele não acreditou muito na palavra do filho, afinal, ele é muito novo para saber o que quer realmente ser na vida, mas, a outra certeza que tenho é; o que quer que o filho escolhesse ele o apoiaria.
O entusiasmo do garoto me surpreendeu, mais tarde, pus-me a imaginar a vida do garotinho que um dia quis voar.
Imaginei seu esforço nos estudos e para passar em alguma academia aeronáutica. Imaginei seu treinamento árduo, seus quilos a menos, suas madrugadas a fio, os hinos, a bandeira hasteada, a teoria complicada, a física aplicada, as cornetas irritantes, a continência constante, a obediência inegável, a luta irrevogável. Tudo isso para um sonho: algumas horas obrigatórias de voo. Voo, este, em aeromodelos super-rápidos, capazes de andar várias milhas em poucos segundos.
Voo da libertação do garoto, do sonho de um menino de 8 anos que idolatrava Santos, o pai, e Ícaro, o filho pródigo das asas caídas. A face de alívio, alegria, entusiasmo e libertação do garoto vendo que está cortando os ares na velocidade do som; sentir isso é incomparável. É inegável não ser feliz quando se sente livre, leve e solto como um pássaro silvestre.
Poucos segundos para grandes e muitas emoções. E o coração após quer mais: mais alegria, esperança, libertação. O garoto entusiasmado não deixa seu entusiasmo de primeiro voo. Faz o segundo, o terceiro... até que um dia vem a guerra.
Então, o que é um hobby - a verdadeira sensação da liberdade - vira obrigação. Uma obrigação a pátria, a obrigação de fazer com que os civis sintam o que ele sentiu no seu primeiro voo. Seu juramento a bandeira tem que ser cumprido, é uma questão de honra ao garotinho que sonhava voar.
Com o ego ferido, o garoto entusiasta alça voo ao som da sirene de alerta. Ao som cortante do ar na velocidade do som, as ordens oficiais são mandadas pelo rádio e, ao final da manobra, começa o ataque.
Tiros, mísseis, desvios, explosões, estilhaços... Seria como estar em Hollywood, estrelando “O aviador” no lugar do Leonardo Di Caprio. Houve vários pedidos de “Mayday” no rádio, antes que as poltronas ejetáveis começassem a voar e os pára-quedas abrir.
Por mais que o garotinho alegre atacava, mais a guerra o feria, o entristecia, acabava com suas esperanças dos dias melhores. A liberdade do voo não existia mais em tempos de guerra. São tempos difíceis demais, tempos de cada um por si e Deus por todos...
Quando o garotinho percebeu, só havia poucos com ele ali a lutar e muitos inimigos a vencer. As ordens claras de recuar viam do rádio, mas a promessa de proteger a pátria e a família a qualquer custo vencia qualquer ordem superior.
Sua manobra foi arriscada, apelativa, desesperada vinda de um garoto com um ego ferido e o sentimento da prisão, da desesperança e da tristeza. Ele se prostrou em meio dos inimigos, atirou-lhes as últimas balas e mísseis, e esperou.
Segundos após, seu avião explode em meio aos dos inimigos, fazendo-os muitos deles cair.
Acredito eu que ele devia ter falado algo heroico e inesquecível antes de morrer. Algo que ficaria para os livros de história, mas ninguém se lembraria da sua existência, apenas família e amigos. A não ser eu, uma desconhecida, que o viu num museu anos atrás e que nunca esqueceu seu entusiasmo em ser Ícaro e Dumont.
Ele não seria um herói descrito pelos quadrinhos ou livros, muito provável que nem essa história chegue aos ouvidos da mídia. Mesmo sendo bravo e fazendo uma tola manobra heroica em nome da pátria, da família, do seu ego e, acima de tudo, em nome da liberdade.
Mas, com certeza, o garotinho não seria esse herói anos mais tarde. Provavelmente, ele se formaria, teria um bom emprego e seria apenas mais um passageiro nas asas de alguém que já pensou em ser um Ícaro.
Mesmo assim, para mim, que tem um ego intrigado por seu entusiasmo, seria o herói de minhas histórias, imaginações e sonhos, seria o Ícaro que eu não fui por medo de cair ao alçar meu primeiro voo de liberdade.
Este garotinho foi para sempre meu pássaro silvestre livre a me ensinar que a liberdade é um emaranhado de emoções indescritíveis vividas e sentidas em poucos segundos tornados inesquecíveis nas mais doces memórias.

Ana Luiza Pereira

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