Dor passada



Hoje não foi um dia fácil para mim...
Vendo as dores de um amigo, tentei reanimá-lo do jeito que pude. Às vezes eu conseguia, em outras não. Sempre o machuquei no final... O que importa é que o silêncio e a ausência de suas palavras, reações e atos me incomodava, me recordava e, acima de tudo, me matava.
Tomei suas dores como minhas, afinal de contas, elas eram.
Entre sua ausência de espírito ao meu lado, mas com uma certa “saturação” de nossas presenças, sempre do lado do outro tentando apoiar e ser forte, deixei-me levar pelo recordar do silêncio... Má ideia. Ele me recordava coisas que não queria recordar. Digo que tristezas me fazem forte, mas aquelas só me feriam mais...
Olhei meus pulsos, vi as claras cicatrizes do meu cúmulo. Sim, já estive no fundo escuro do poço onde não há mais alguma luz. Já fiz o cúmulo, já ultrapassei limites dos seres humanos, já conheci a plena insanidade, a plena perversão, o pleno ódio, a pura depressão e, talvez, o pleno conhecimento (por uns instantes).
Recordei quando tais cicatrizes dos pulsos sangravam por motivos idiotas e me levaram a ações mais idiotas como aquela ou até pior. Talvez você entenda o que eu esteja falando, pois, por mais fictício que meus textos sejam, eles carregam um pedaço de mim. Ou talvez tu já tentastes ou pensastes em cometer tais atos, mas, é mais provável, que não.
Você apenas leu em livros e pensa que entendes de tudo sobre isso... Mas eu lhe digo: estás errado. Você não esteve na pele de um louco prestes a se suicidar ou a se mutilar... Pode haver milhões de motivos para isto! Idiotas para você, mas totalmente compreensíveis e plausíveis para quem sente.
Não quero para ninguém. A dor de estar no poço é muito grande e torturante... Quase impossível de se suportar!
Ah... Tive vontade de chorar naquele exato momento! Mas contive. Contive tudo durante anos! Não confio em ninguém demasiadamente e sempre contive vários segredos, sonhos, fantasias, coisas importantes ou fúteis sobre mim. Até hoje não aprendi a quem se deve confiar a tal ponto... Por isso, meu melhor amigo é o papel e a caneta, ou até mesmo a tecnologia do computador, onde posso escrever e me libertar, onde posso ser eu mesma sem julgamentos ou culpa. Onde posso me expressar apesar... Apesar do mundo lá fora me dar medo o suficiente para que eu me tranque aqui, neste quarto, e fique dias a escrever o que imagino e sinto.
Não reclamo de minha vida agora, mas de minhas lembranças que, neste momento de solidão e silêncio, me atordoa e me machuca. Fiquei por longos minutos (que mais pareciam horas) a fitar as cicatrizes de meu corpo. Cicatrizes que eu mesma fizera em mim em momento de grande depressão.
Mas, meu amigo, o mesmo das dores e do silêncio, me resgatara destas más lembranças. Rimos, brincamos, dissemos tudo com sinceridade. Mas não foi o suficiente, a pontada do peito e minha cabeça chamuscada de imagens de minha dor me deixavam tonta e ignorante ao dizer certas coisas; o machuquei mais...
Agora, aqui. Após uma “longa” conversa com ele. Onde tudo, talvez, foi esclarecido. Minhas lágrimas descem... Compartilho a dor dele. Até mesmo lembrei-me da minha antiga! Dor, na qual, eu carrego e ninguém, nem mesmo o mais fraterno dos meus amigos, poderão me ajudar e amenizá-la. Dor que transformou minha vida em drama! Um ótimo Best seller empilhado nas estantes empoeiradas das livrarias baratas.
Desculpe-me se machucardes com minhas palavras, não é minha intenção... Apenas procuro um novo modo de fugir desta maldição de dor novamente. Desculpe-me ser fraca, mas vejo-me entregando-me a dor mais uma vez... Quem sabe até onde ela pode me levar de novo?

Ana Luiza Pereira

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