A História De Uma Deusa - Meu primeiro amor



Amor. Nunca senti para saber o que é o amor... Na verdade, nunca senti sentimento algum. Sempre fui mergulhada nas trevas, no ódio, na inveja e sempre me atolei de responsabilidades para que sentimento algum pudesse me atingir.
Para os que me viam; eu era forte e intangível. Aos que me conheciam; eu era séria e responsável. Para mim; eu era uma covarde invejosa.
Sim, sempre invejei a felicidade das pessoas ao meu redor, elas sentiam amor enquanto eu apenas o conhecia como uma mera palavra; sabia de seu significado e o que ele causava, mas nunca o senti.
Anos e anos eu invejei todos ao meu redor enquanto uns invejavam meu poder e beleza. Será que um ser como eu nunca irá sentir o amor? Não sabia o que responder.
Olhava as minhas irmãs: Mirian era rebelde, sempre foi inconstante e imprevisível, mas corajosa; Diana era ingênua, pura, inocente, mas tinha a cabeça no seu lugar e enxergava sempre um mundo de luz, de paz e de amor. Eu só vejo distorção, maldade, frieza e trevas. É isso que vejo e vi nos homens, é isso que sou: uma distorção malévola dos fatos; um ser frio regado de sombras.
Olhava para mim no espelho e não via nada, além dos meus olhos negros e frios, da minha cabeça cheia de perguntas e as suas respostas e das papeladas de várias responsabilidades que eu tinha. O que eu sou? Por que sou assim? Não pedi para ser a Rainha dos que agonizam... Não pedi para ter todas as respostas de charadas em minha cabeça... Eu não pedi para nascer deusa. Afinal, o que eu ensino as minhas irmãs? Cada uma tem seu poder específico, seus defeitos, elas nunca serão como eu, nem eu como elas. Afinal, o que eu deixarei para elas? Ah... Minhas doces e queridas irmãs... se soubessem o quanto me atormenta quando me pergunto isso. Não quero vê-las mal, muito menos sofrer...
“Sejais melhores, irmãs, melhores do que eu. Aprendais o que eu não pude aprender. Governais como eu não pude governar...” Sempre pedia isso em oração enclausurada mais uma vez em meu refúgio: minha querida biblioteca.
“Meu livro das verdades esconde mentiras que até eu, dona da incrível sabedoria, não pude ver que existiam...” Disse fechando o livro e indo dar meu passeio da tarde. Peguei o capuz da minha capa negra que cobria tudo até o meu rosto e saí.
O bom de ser quem eu era é que eu morava no lugar mais lindo daquela região, minha entrada era esplendorosa, cheia de árvores e flores, cheia da vida que não tive.
Saía aos passos curtos; observava cada cor e cada gesto da natureza. O modo em que as borboletas voam, em que os pássaros cantam, as flores nascem, as folhas secas caem, as árvores fazem sombra... Tudo na floresta me fascina. E as cores só me chamam atenção. Principalmente com alguém como eu: que só ver vermelho do ódio, o preto das sombras e a cinza da morte.
Cada ser simples de uma floresta, a deixava mais rica e mais complexa, pois todos os seres estavam em harmonia. “Talvez entender a harmonia de uma floresta seja complexo demais aos outros, porém fascinante demais para mim.”
Até que eu o vi. Não era humano ou um ser que vivia ali. Ele era... diferente. Ele resplandecia sob meus olhos, sua áurea era incomum. Só havia visto algo assim uma vez...
“Aqui está o réu, rainha.” Dizia o guarda trazendo um homem deformado; seu rosto era desfigurado, seus olhos eram de um vermelho sem brilho e sob sua carne havia o mais puro rancor...
Era uma tarde de outono, as folhas caiam e eu estava ali, junto ao conselho criado por mim, a trabalhar para um governo melhor.
“Aeon.” Decretou um membro do conselho.
“Como disse?”
“Aeon; a raça proibida de viver por essas terras.”
Calei-me. Observei aquele homem... Por mais crueldade que ele transpassava aos outros seus olhos me suplicavam por piedade.
“Por que não rever os conceitos sobre essa raça?” Perguntei.
“Rainha, olhe para ele. Ele é deformado... Além de ser poderoso. Ele será uma ameaça no futuro...”
Não prestei muita atenção no que Raymon, meu fiel conselheiro, dissera. Apenas me ousava a observar tal homem com tamanha áurea.
“Licença. Preciso me retirar para os meus aposentos.” Disse me levantando a fim de ir atrás de respostas sobre quem seria tal raça.
Todos se levantam e eu saio a caminho de meu refúgio. Lá eu pesquisei em livros até encontrar:
Aeon – raça proibida. Feita da relação sexual de dois anjos, são poderosos por herdar os poderes dos pais, porém nascem sempre defeituosos em sua aparência.
“Por que eles também não merecem piedade?” Perguntei a Raymon que se aproximava.
“Porque quando eles descobrirem seus poderes, poderão se revoltar contra a ti.”
“Melhor a revolta do que a frieza de mandar exterminá-los...” Disse.
“Deixe como está, minha rainha. A árvore é melhor mãe aos anjos do que os anjos podem ser aos aeons.”
“Como sabes? Você se lembra da sua mãe?” Perguntei, mas não obtive resposta.
Olhei em minha bola de cristal para poder ver os verdadeiros anjos nascerem no mais alto dos céus. Eles eram uma espécie de fruto de uma grande árvore. Anjos da mesma família significavam que nasceram do mesmo galho.
“Um dia esta história mudará.”
Como da primeira vez, eu o admirava e seu jeito me fascinava. Porém, quando ele virou de frente a mim, uma coisa me espantou: ele era perfeito. Mais belo que um deus... Ele era... magnífico!
Seus olhos eram castanhos como o mais doce favo de mel, sua boca era vermelha como as mais lindas Scarlet roses a desabrocharem no campo, seu cabelo era escuro como a floresta à noite e a sua pele era tão macia e tão clara como o toque do sol no entardecer.
Algo em meu coração me fez perder a respiração. Era como se meu coração gélido e frio começasse a se esquentar e bater. Quando dei por mim, ele se ajoelhava perante meus pés.
- Rainha da sabedoria inestimável e mãe dos agonizantes, por favor, ajudai-me com sua sabedoria a saber o que mais procuro: um lugar na qual eu pertença.  -
“Como ele sabe que sou eu? Eu estou de capa negra, coberta dos pés à cabeça paralisada diante de um fruto proibido, feito do mais puro pecado entre anjos...” Mil perguntas como esta vinha em minha mente.
- Quem és tu? Como sabes que sou eu? – perguntei.
- Sou um órfão, não sei de onde vim ou o meu nome, não sei quem são meus pais ou o que sou. Vivi por muito tempo entre humanos até saber que ali não era o meu lugar. Alguém que vi na rua me disse que terias as minhas respostas, saberias de tudo sobre mim e me disse como e quando encontrá-la. – disse.
- Levanta-te, deixe ver os olhos daquele que me suplica respostas. – ordenei. Ele se levantou e seus olhos suplicantes me afagavam o coração.
- Não sabes seu nome? – perguntei.
- Não. Mas de onde venho me chamavam de Leonel.
- Leonel? – perguntei retoricamente, ele assentiu. – Hum... Leão pequeno.
- Como disse? – perguntou-me.
- Cada nome tem seu significado, se puseram o seu de Leonel, então há uma característica sua que se pareça com seu significado; leão pequeno.
- Entendi...
- Venha. Vou lhe dar as respostas. – disse guiando-lhe até meu refúgio.
O que eu pensava em levar aos meus aposentos um ser que deveria estar morto? Não sei, só sei que eu não pensei naquele momento e em todos os outros que eu pude estar com ele.
Adentrei-me na minha biblioteca, ele se pasmara com a quantia de livros que eu tinha. Tirei o capuz para que eu pudesse enxergar melhor o livro que continha o relato sobre os Aeons.
- Uma beleza tão bela não podia ser encoberta atrás de capas negras, muito menos enclausuradas em livros de história. – disse ele fitando meu rosto.
Vir-me-ei procurando o livro entre pergaminhos enquanto meu sangue queimava meu rosto em pequenas labaredas.
- Achei. – disse pegando um grande e grosso livro e levando até o meu local de leitura. – Aproxime-se. – disse abrindo o livro.
Ele pôs-se ao meu lado um pouco distante de mim, mas foi o ser mais próximo que esteve de mim fora minhas irmãs.
- Aqui. – apontei-lhe a resposta. Enquanto saía de perto para que ele pudesse ler tranquilamente.
- Então é isso que eu sou?
Assenti.
- Você é o único de sua espécie. Todos foram mortos, pois esta raça está proibida de existir.
Ele olhou o chão.
- Vai me matar? – perguntou-me.
Meu coração se entristeceu, minha voz falhou e meus olhos se molharam.
- Não... – disse, finalmente. “Por que eu disse isso?” – Afinal, você veio aqui pedir minha ajuda. Não seria uma deusa de verdade se condenasse à morte aqueles que suplicam por mim. – disse.
Ele me olhou, seus olhos estavam felizes e sua boca se esticou em um sorriso de felicidade.
Vir-me-ei novamente. E comecei a tagarelar:
- Viste que você é um ser poderoso. Sua espécie foi extinta pelo medo da revolta de seus poderes, afinal eles eram imperfeitos e não havia lugar a eles aqui sem preconceito e recriminação. Você é diferente, você é perfeito por fora, como um verdadeiro anjo, porém, sem suas asas. Você é um imperfeito perfeito, Leonel, e será difícil para você viver num mundo onde recriminam a sua raça e os mandam para guilhotina, você se sentirá sozinho, incompreendido e sem lar. Verá a maldade e a frieza de todos assim que souberes quem és tu realmente.
- Então, como poderá me ajudar? – perguntou.
- Sou a dona dessas terras, nelas eu darei permissão para que você possa trabalhar. Você se tornará um elfo diante deles, aprenderá seu dialeto e sua escrita e eles não desconfiarão de quem se tratas.
- Mas e meus poderes?
- Não terá importância a existência deles se estiveres sob meu manto. Olhe para você, és perfeito como nenhum outro ser existente nesse planeta. Sua beleza é o passaporte para que permaneças vivo por mais tempo. – disse.
- Obrigado, Rainha. – disse ele se curvando.
- Chame-me de Kandra, é o meu nome. E não se curve diante de mim sem ninguém por perto. – disse.
Ele se ergueu, olhou nos meus olhos e sorriu. Novamente, meu sangue queimava debaixo da pele de meu rosto, mas quando dei por mim, minha boca se esticou enfim num sorriso. Um sorriso sincero que eu nunca dera a não ser com ele.

Ana Luiza Pereira




5 comentários:

kaique Bruno Boga disse...

Eu não tenho oq dizer.


Perfeito...

Sassá disse...

Se era de fato para haver um comentário, não seria mais do ue justo o meu. É impossível não notar a riqueza das palavras e nem como a descrição feita por figuras de linguagem, mais apropriadamente a comparação com algo da natureza, é perfeitamente apropriada para a tipologia textual.

O modo como descreves a simples e enfadonha raça dos seres perfeitos é completamente magnífico, ainda também o jeito como Leonel murmura com toda a sua inocência o modo como vê a Deusa, de fato, é merecedor de minhas condolências.

Lindo texto.
Bjs.

Gabii ' disse...

Aiin, ficou muito perfeito *-*
Parabéns Ninha, mais um texto mega perfeito!!

Anônimo disse...

Oii flor...amei sua estória, gostei mesmo, é linda! Quero seguir seu blog, mas fala que da erro, como faço?? Parabéns.bjO

A.L.P. disse...

Tente agora para seguir... Antes a página tava cheia de erro de html, mas agora consertei ;)

Postar um comentário

Comenta, por favor!