A dor aumenta...


Dor. Uma coisa que eu há muito tempo não sentia, uma coisa que você me fez esquecer...
Não venho aqui culpar ninguém. A culpa não é sua pelo o que pensa ou sente. Você é humano, então, não é errado sentir dúvidas.
Mas há sempre uma coisa inevitável que sempre nos pega de surpresa: o fim. Eu já o vejo aproxima e a dor aumentar, consumir mais meu coração e as minhas lágrimas.
Não quero te forçar a nada, só lhe desejo a felicidade. Uma felicidade que, talvez, você nunca teria comigo. Ainda assim, a dor aumenta...
Não quero te preocupar, muito menos te fazer sofrer! Mas escolher a mim é escolher um caminho tortuoso, cheio de pedras, quedas e falhas. Escolher a mim é escolher um sofrimento, coisa que eu não quero ver em seus olhos de anjo. Mesmo com essas palavras, a dor aumenta...
Não quero te fazer chorar, mas será inevitável com nossos erros e falhas. Ainda assim, a dor aumenta...
Não precisas mais provar seu amor. Eu sei que você me amou; me dedicaste músicas, estrelas, atos, palavras e promessas. Coisas que nunca vou esquecer, coisas que sei que foram verdadeiras e ainda são em alguma parte do seu coração. Sabe aquela carta que você me deu? Dela só restou às lembranças... Lembranças do quanto foi difícil definir o amor e o quanto será difícil se continuarmos assim. Enquanto digo isso, a dor só aumenta...
Sim, enquanto você desabafava, eu chorava descontroladamente. Choro, no qual, não cessou. Choro de medo, choro de perda, choro de dor... uma dor infinita que vinha de um coração que parou de bater, um coração que foi arrancado junto com a minha alma e o brilho das estrelas para que servisse de oferenda ao mais lindo pequeno príncipe e anjo que conheci e amei.
Por favor, não o jogue fora. Isto será a única coisa que restará de mim quando chegares o fim; cuide-o!
E, sim, por mais que palavras doam, estas podem doer mais: não sei se terei uma vida sem a única esperança que tive... te ter.
Mesmo com a verdade, a dor aumenta em dimensões lastimáveis! Dor assim eu nunca senti... mas só avisa o que está próximo e o que tanto temi: o fim do nosso conto de fadas.

Ana Luiza Pereira


Snuff


Eu suportei... Por tanto tempo esta loucura, seu jeito e seus segredos. Enterrei-os na minha consciência e nos meus pensamentos. Por muito tempo suportei suas mancadas e erros, até o seu jeito inocente de “eu não sei o que faço, ensina-me!”.
Mas você me magoou... de novo! Nós brigamos e você desapareceu, deixando-me sozinho na gaiola de meus pecados. Estou sem ar e o amor que eu sentia por você tornou-se uma camuflagem para o novo ódio.
Você me ama? Deixe-me ir! Deixe-me ser feliz sem me prender a seus erros, suportá-los como um nada sendo que são eles que me ferem mais que suas palavras.
Vá! Fuja de novo da responsabilidade de cuidar daquilo que cativou! Saiba que meu coração voltou a ser frio e sombrio demais para que eu me importe novamente... Eu não posso destruir o que VOCÊ construiu, o que VOCÊ me fez sentir, o que VOCÊ me fez amar... Vai! Me entregue nos braços do meu destino, novamente! O destino de ser sozinho e não saber como te odiar...
Eu não mereço ter você... Meu sorriso foi tomado há muito tempo, desde que você não se importou mais. Se eu posso mudar novamente e por outra pessoa, espero nunca saber.
Eu ainda pressiono suas cartas junto a meus lábios enquanto choro e guardo suas lembranças dentro de mim, relembrando o sabor de cada beijo.
Eu não consigo seguir nessas trevas sem você, sem a sua luz. Mas tudo se perdeu no momento em que você recusou a lutar do meu lado.
Se for para ser assim, poupe o seu fôlego! Estou cansado das suas desculpas esfarrapadas... Nada adianta! Não irei ouvir uma pessoa que promete, mas não muda nem quando se diz amar. Deixei isso bem claro? Você não é capaz de odiar o bastante para amar, não foi em seu coração que havia tanto ódio que você o transformou em amor... Isso é o suficiente? Eu só a queria como uma amiga, assim, eu poderia e conseguiria te machucar no final (assim como fizeste comigo...).
Nunca fui santo, nem me declarei em ser. Meu interior foi banido e destruído há muito tempo, muito antes de te conhecer. Tudo o que eu tinha... minha esperança... tudo morreu ao te deixar ir.
Então, rale seus joelhos, quebre os seus ossos, caia de encontro as minhas pedras. Este é seu fim, Maria Madalena. E cuspa seu sangue de piedade na minha alma, manche-a mais uma vez com o seu falso amor. Você nunca precisou da minha ajuda... Apenas me usou para se salvar! E eu não ouvirei teu choro de vergonha. Você fugiu... como todos os outros. Vocês são iguais! Enquanto eu pensava que alguém seria um pouco diferente... Anjos mentem para manter o controle da situação, você mentiu para manter o controle de si mesma!
Meu amor por você começou a ser punido faz tempo... Se ainda se importa, não deixe que eu saiba...

Ana Luiza Pereira

Inspirada em Snuff de Slipknot.

Sorria!


Se o dia não começou bem, sorria!
(Tudo muda com um sorriso)
Se você brigou ou machucou com alguém, sorria!
(Logo vocês estarão a rir disto)
Se você não vai bem, sorria!
(Tudo muda com um sorriso)
Se quiserem te abater e te machucar, sorria!
(Ninguém irá te abater com isto)
Se você errou, sorria!
(Nada é mais feliz do que tentar aprender com os erros)
Se tiveres medo, sorria!
(Seu sorriso espanta qualquer mal)
Se você for especial, sorria!
(Alguém ama ver você sorrir!)
Se achares que não é, sorria também!
(Você pode estar errado)
Se os desafios te esperam, sorria!
(Tudo fica mais alegre com um sorriso)
Se hoje for dia de arriscar, sorria!
(Os riscos são nada se viveres sorrindo)
Se és alegre, sorria!
(Contagie os outros com o sorriso que você tem)
Se não és; sorria também!
(Nada é ruim o bastante que te impeça de sorrir)
Se ouvires “eu te amo!”, sorria!
(Agradeça a Deus por isso)
E, se fores capaz de dizer, sorria também!
Se és sincero, sorria!
(Seja sincero num sorriso)
Se sabes ouvir, sorria!
(Agradeça a Deus por isso)
Se sonhares, sorria!
(Você é feliz por isso)
Se viveres, sorria!
(Seja feliz vivendo)
Se amares tanto alguém, sorria!
(E irá fazê-lo feliz sorrindo)
Se és amigo, sorria!
(Um amigo sabe sorrir)
Se és pai ou mãe ou filho(a), sorria!
(Não deixai transparecer seus problemas)
Se és capaz de perdoar alguém, sorria!
(Todos erram, perdoe-os e seja feliz!)
Se és capaz de aceitar o perdão, sorria!
Se és capaz de voar, sorria!
(Sorria perante a felicidade!)
Se você se preocupar com alguém, sorria!
(Logo este alguém estará do seu lado sorrindo também)
Se desejares o futuro, sorria!
(Ele será maravilhoso sorrindo)

Se és capaz de sorrir; sorria!
Pois não há nada neste mundo capaz de abater um sorriso no rosto!
Sejais Feliz! E Sorria!
A Felicidade é o melhor presente que Deus deu para nós e nós damos a quem amamos! ☺

Ana Luiza Pereira


Frio


Admito a vocês; nunca gostei do frio. Talvez seja por que eu nasci perto do verão, ou, seja porque quando está frio e chovendo e eu não possa sair. Mas isso não são motivo ou uma razão lógica para odiar tanto o frio quanto eu odiei.
Porém, admito, estive por muito tempo errada.
Não é exatamente na chuva ou na neve que tive minhas melhores lembranças, mas na lama e no frio. É... Foi na lama que eu brincava e me divertia quando criança. Minha mãe podia ficar brava por me ver suja, mas não reclamava por eu estar feliz e com sorriso no rosto. Foi no frio que eu pude me aproximar de quem amo, dormir mais, abracei mais, vivi mais...
Admirei mais o arco-íris e também o procurei mais no céu. Mas, acima de tudo, tive mais medo da solidão, dos pesadelos e dos trovões, não nego. Mas, quando se está com alguém que se ama do lado num dia de frio, não há o que temer. Apenas há motivo para sorrir. ☺

Ana Luiza Pereira


Quando você acordar...


Acordei de manhã cedo.
Você ainda dorme...
Sua cara angelical me fascina.
Você é o anjo que rege minha vida!

Quando você acordar
E eu finalmente disser
O primeiro “eu te amo” do dia,
Você irá sorrir
E seu sorriso irá iluminar meu dia.

Quando a noite chegar
E eu finalmente tê-la novamente em volta aos meus braços;
Saberei que está segura
E, assim poderemos dormir
Envoltos no nosso amor
E com sorrisos nos lábios.

Ana Luiza Pereira


V-i-d-a


Vivemos uma vida louca;
Caímos e levantamos a todo momento.
Nem sempre aprendemos com os nossos erros.
Mas e daí?
Somos humanos!
E a vida foi feita para que,
ao menos, tentarmos aprender com ela...
Nunca desista!
Muito menos de si mesmo...
Confie!
Em Deus, em si e em todos os que você ama.
Seja aquilo que você é e sonha ser
e não se deixa abater
pelas críticas do caminho...

Ana Luiza Pereira


Recomeço


            É difícil descrever como é o outro lado, principalmente para mim; só estive lá uma vez e foi por apenas alguns segundos terrestres.
            Todas as minhas lembranças de lá são turvas. A única coisa que pude distinguir claramente foi o que são luz e trevas.
            É uma viagem curta até seus portões. Você simplesmente deixa seu corpo e começa a ver algumas almas condenadas a vagar ou amaldiçoadas de alguma forma.
            Mesmo assim, você vê sua vida em um filme minutos antes de partir. E, quando volta (se é que volta), pouca coisa se lembra de lá. A única coisa que sabe é que: você morreu, mas teve uma chance de recomeçar.

Ana Luiza Pereira


Carta de suicídio


“É difícil escrever o que sinto agora nesta carta. Aliás, tudo entre nós acabou e nem sei o porquê que escrevo a mesma. Mas admito; não queria que acabasse desse jeito e, imagino, que você também não.
Tudo entre nós foi mágico e esplendoroso. Foi único e intenso, bom enquanto durou. Mas as pessoas se tornam previsíveis quando amam e, eu, acho que eu não me tornei.
Talvez seja melhor assim; nós dois separados seguindo vidas e rumos diferentes. Mas o que sinto por você me mata intensamente... E, eu prefiro morrer ao rastejar com esta carne pútrida sangrando pelos vales espinhosos desta terra.
Meu coração dói. Uma dor que eu conheço, mas nunca foi tão intensa quanto é quando eu te perdi. Minhas lágrimas não secam e afogam meu travesseiro enquanto tento recuperar o sono perdido. Tudo o que tento é em vão. Você não sai da minha cabeça e não sei se um dia sairá.
Eu, sinceramente, não sei o que é pior: ser altruísta e sofrer ao te deixar viver feliz ou ser egoísta e ter você para que me faça feliz, mesmo que você sofra. Não vejo opção... Mal vejo a saída para escapar deste inferno de depressão! Só sei que chegou a hora que tanto temi...
É difícil, eu sei, dizer adeus a quem se ama. Mas, às vezes, esse adeus se torna necessário para a sua felicidade... Mesmo que essa felicidade eu só possa admirá-la em seu rosto a milhas de distância.

Adeus, meu amor. Até uma próxima vida, talvez...

Ass.: Seu mais recente amor.

PS: Sinto muito pelo o que fiz...”

Ana Luiza Pereira



Last Kiss


Lembro exatamente do dia em que minha vida desabou...
Nós íamos namorar na estrada, dentro do carro do meu pai. Não fomos muito longe, a estrada era perto.
Havia chovido muito naquele dia, a estrada estava molhada e nós em alta velocidade. O vento frio beijava nossos cabelos enquanto nos proporcionava a adrenalina de nosso amor.
Mal pude perceber, então, o carro enguiçado à nossa frente. Apenas via a luz de seus faróis se aproximando tão rápido que joguei o carro para direita, tentando freá-lo.
Os sons desta noite me atormentam em sonhos todas as noites; seus gritos abafados pelo canto dos pneus e, após, o estouro dos vidros e a lataria amassando.
Quando eu finalmente recobrei a consciência, a chuva caía novamente em meu rosto, tudo estava turvo, frio e molhado. Tudo estava confuso e havia muitas pessoas haviam vindo ver o que acontecia. Eu sangrava e não sabia o que acontecia.
Quando, olhei pro lado, eu a vi. Estirada no chão sangrando e tremendo. Aproximei-me.
- Estou com frio! – ela disse. – Me abrace meu amor! Só um pouco...
Eu a abracei forte, algo me dizia que ela iria embora... para sempre. A beijei tão intensamente... Mas enquanto a chuva molhava minhas lágrimas e roupas sujas de sangue, ela parou de tremer e, o frio que sentia virou o frio de sua pele. Eu a perdi ali, naquela noite chuvosa enquanto bombeiros vinham ver se eu estava bem.
Hoje, eu estou aqui, diante de seu caixão lembrando os sorrisos, beijos e abraços que passamos juntos e chorando a cada noite pela sua falta.
O que eu pensei enquanto agia desse jeito? Onde foi parar meu amor? O Senhor a tirou de mim!... Ou seria eu?
Ela foi pro céu, tenho certeza disso... E, enquanto seu caixão era coberto de terra molhada, prometi ser bonzinho para, enfim, reencontrar meu amor do outro lado.

Ana Luiza Pereira


Inspirado na música de Pearl Jam - Last Kiss.




Le storie novità per nostre amore (Escrito por Kaique Bruno Boga)


Aaahhh... a neve...
Flocos pequenos de água congelada que caem sobre a terra em determinadas regiões do planeta. Branca e fria como a minha pele, mas linda como a mulher que amo.
No começo era difícil explicar para as outras pessoas o que sentíamos  um pelo outro, mas nós fizemos isso juntos.
Anos se passaram e finalmente estamos juntos. Nos mudamos para uma bela casa nas planícies italianas, um pouco mais ao norte de Roma. Temos um lindo filho juntos chamado Leonel e um cachorro da raça Husky siberiano chamado Luke.
O inverno chega. 1ª vez que vimos a neve. 
Nosso filho acabara de chegar da escola avisando que as aulas foram suspensas por causa do inverno. Leonel estava cansado, brincara muito com seus amigos. Foi só deitar no sofá que ele dormiu.
Eu e Ana não tínhamos aproveitado ainda essa linda "terra" branca. Então deixamos um bilhete em cima da mesinha em frente ao sofá para que quando Leonel acordasse, saberes aonde seus pais foram.
Saímos.
Nunca tínhamos visto algo tão belo. Aquilo nos fez olharmos um nos olhos do outro. Lembrei de quando eu a vi pela 1ª vez e do quanto ela era perfeita.
Enquanto eu estava perdido em pensamentos, Ana abaixou-se, fez uma bola de neve e a atirou em mim.
A brincadeira começou... eram bolas de neve para tudo quanto é lado. Nós ríamos como duas crianças. Lembrei de quando tínhamos 16 anos e rimos das minhas histórias de quando era criança.
Deitamos num campo aberto, onde as árvores não nos atrapalhavam. Tínhamos perdido a noção do tempo. Havia escurecido já fazia algum tempo. 
Era a 1ª vez também que pudermos ver admirar as estrelas como nunca havíamos admirado no Brasil. Em meio aquelas eu finalmente achei a estrela que procurava há anos, quando eu e a Ana prometemos um ao outro "dedicar" o brilho dessa estrela ao brilho que encantou a cada um de nós com o nosso amor.
Já era tarde. Ana queria continuar comigo olhando as estrelas. Ela estava adorando que eu segurasse a sua mão e mostrasse as figuras que as estrelas formavam, mas Leonel nos esperava. Tínhamos saído no início da tarde, nosso filho deveria estar com fome e preocupado.
Quando chegamos em casa, deixamos Leonel comer o que ele quisesse. Ele quis comer bolacha.
Fomos colocá-lo para dormir. Ele nos pediu para contarmos uma história de ninar. Ana começou a contar o que tínhamos passado naquela tarde. Ele dormiu na parte onde fazia figuras com as estrelas.
Aquele dia jamais saiu de nossas memórias...

Kaique Bruno Boga


A História De Uma Deusa - Entre brigas e festejos


Ele aprendia rápido o que eu ensinava, logo sabia o dialeto e a escrita dos elfos de cor. Era como ele quisesse ser um elfo, como se ele se sentisse bem com aquilo.
“Devo estar louca.” Pensava enquanto estudava suas reações. “Por que ninguém pode ser tão perfeito quanto ele é?”
Por mais que eu tentasse ler os pensamentos dos seres a minha volta, eu conseguia ler poucos dele e, todos relatavam seu fascínio pela natureza. Ele amava estar por entre as árvores, elas eram seu abrigo.
Havia muitas mulheres de olho nele, seus pensamentos eram indecentes, elas se fascinaram pela sua beleza e a queria para elas. Seus olhares sedutores e seus corpos obscenos que tentavam, em vão, chamar a atenção dele. Isso me dava raiva, eu as encarava com raiva e elas me olhavam com temor. Mas a falta de atenção dele me reconfortava... Ele não tinha olhos para elas. E eu não soube desvendar para o que ou quem seus olhos se voltavam...
- Angelus Innocent! Quomodo non admirer? Nescio quomodo sentio. Velit. Referte mihir quid sentio! – falava aos sussurros.
(Anjo inocente! Como não admirá-lo? Não sei o que sentir. Por favor. Diga-me o que sentir!)
Todos os dias o imperfeito perfeito (era assim que eu gostava de chamá-lo) vinha me visitar em meus aposentos em meados do entardecer. Sempre trazia algo que ele colhera, plantara ou fizera e sempre com um sorriso largo e de agradecimento no rosto. Mas teve um dia que eu me arrependi amargamente desses encontros em meus aposentos...
- Você é um ótimo escritor! – disse a ele.
- Obrigado minha rainha! Fico lisonjeado por ser reconhecido por vossa alteza. – disse ele se curvando.
Ri. Não sei por que, mas acho que aquele era meu primeiro riso, senão um dos primeiros.
Ele me fazia sentir bem, sem preocupações ou responsabilidades. Ele me fazia sentir como é ser criança, uma criança inocente e sem medo de amar, uma criança que nunca fui.
- Leia mais algum de seus poemas. – pedi.
- Como quiseres minha rainha. – disse ele se curvando novamente, assim que levantou, começou a ler:
Magnifica eius speciem,
Tepidis manu,
Haec eadem dedit mihi domos.

Hodie ascendere cubile rosis
A me ideas in mente:
Gratias pro esse parens Natura mihi semper.

(Sua beleza esplendorosa,
Sua mão quente,
Foi ela que me deu abrigo.

Hoje deito em cama de rosas
E fico a ter idéias em minha mente:
Obrigado Mãe Natureza por estar sempre comigo.)

Comecei com as palmas e o sorriso no rosto:
- Bravo!
Ele se aproximou; ainda estava distante de mim, mas perto o bastante para mim, estendeu a mão com o papel. Peguei-o e encarei-o, era a letra dele em runas, quando, enfim, ele disse:
- Esta é a minha forma de agradeceres o que tem feito a mim.
Meu coração começou a palpitar e meu sangue fervilhar. Afinal, o que eu sentia? O que ele me proporcionava? Não sabia os nomes, só sabia que era maravilhoso estar em sua presença; ele me trazia a paz para um coração atormentado como o meu.
- Não precisava. – finalmente disse baixinho enquanto ainda encarava o papel. Não conseguia e nem podia encará-lo nesse estado. – Faço o que julgo ser justo. – disse.
Neste exato momento, ouço a mente de Raymon se aproximar receoso. Olho a entrada e logo pude definir os formatos de sua roupa alaranjada e sua face preocupada.
- Trouxe bolo e chá, rainha. – disse ele colocando a bandeja na mesa perto da lareira acesa.
- Diga. – disse a ele.
Ele me olhou aturdido.
- Algo lhe atormenta, meu caro aprendiz. Diga. – falei.
- Esse não é o assunto para ser tratado na frente de seres inferiores. – disse ele se referindo a Leonel.
Aquilo começou a me irritar. Mas, em minha posição, nada nem mesmo um insulto poderia me fazer descer do pedestal do meu orgulho.
- Eu falei para dizer-me. Não me obrigue a descobrir de outras maneiras. – falei olhando profundamente seus olhos.
Ele abaixou a cabeça.
- Perdoai-me rainha. Mas sua irmã Mirian foi pega correndo pelos campos de trigo, de novo, com roupas indecentes e na presença de um dos filhos do Terceiro chanceler do conselho. – disse-me.
Minha feição mudou. Pude perceber isto pelos rostos de Raymon e Leonel. Raymon sentia medo do que eu podia fazer, enquanto Leonel sentia um misto de preocupação com susto. Afinal, ele não conhecia minhas irmãs como eu.
- Onde ela está? – perguntei.
- No salão. – respondeu.
- Saia. – disse aos dois. Percebi que minha voz estava décimos acima do normal. Posso ter sido um pouco hostil com isso mas Mirian me obrigava a fazer isso.
Assim que eles saíram, eu saí de minha cadeira e fui à frente de meu espelho. Comecei a mirar-me lá. Nada mudara; meu rosto continuava infeliz e sombrio.
- O que foi? – disse Mirian de biquinho.
- Sente-se. – disse séria. E ela se sentou no meu lugar.
Vir-me-ei e comecei a fitar suas vestes: nada no busto, apenas seu cabelo comprido e levemente ondulado, um short curto que não cobria quase nada se suas partes íntimas e uma saia de véu fino e transparente.
- Pode me dizer o que fazes vestida assim? – perguntei.
- Correndo pelos campos de trigo, me divertindo como nunca me diverti. – respondeu ela.
- Justo com estas roupas? O que fazes a si! Crias uma má imagem tanto a ti quanto à suas irmãs! O que Diana dirá de sua irmã? Você, mais do que ninguém, terá que ser o exemplo a ela!
E eu falava e falava e Mirian nada dizia, nem sequer me ouvia. Estava com cara de que não escutava o que eu dizia, estava ali de corpo mas sua mente ia longe. Longe demais para a minha sanidade.
Suspirei. Dali em diante eu sabia que nada que eu dissesse a faria mudar de ideia.
- O que você tem a dizer? – perguntei desesperançosa.
- Você não me controla mais, Kandra! Não tente dá uma de mamãe, porque VOCÊ NÃO É! Eu não serei mais controlada por você para sempre! E ACOSTUME-SE, pois esta será a Mirian que você verá todos os dias. – disse ela aos berros.
- Se for assim, vá. – disse.
E ela levantou sorridente se encaminhando à saída.
- Mas não aos campos de trigo e, sim, ao seu quarto. Pedirei a Raymon a falar para o Terceiro chanceler vigiar seu filho. Não quero vocês dois juntos, não se você vestir trapos. – disse virando e olhando firmemente em seus olhos.
Seu sorriso desapareceu e seu bico reapareceu. E ela saiu batendo pé.
Suspirei. Meu coração doía, não queria fazer isto com ela, mas ela me obrigava.
- Um dia ela saberá como é ter o mundo em suas costas. – disse.
- Rainha... – falou Raymon às minhas costas.
- Já vou! – disse dirigindo-me até onde ele estava. – Ouviste o que é para ti fazeres? – perguntei.
- Sim, majestade. – disse ele assentindo.
- Tudo bem... – disse-me indo.
Logo, adentrei-me em outro salão de meu templo e invoquei o portal. Uma porta de tons diferentes de roxo apareceu à minha frente, Entrei-me ali e deixei-me levar.
Desci em um dos meus caminhos ao mundo inferior. Logo vi Cerberus, meu amado cão de três cabeças e guardião do portal entre a vida e a morte, abaixando suas cabeças para me cumprimentar.
Passei e fui à diante. Logo vi minhas substitutas; três anciãs de corpos deformados, eu não me lembro suas raças, mas lembro de suas feições horrendas, eram elas que julgavam quem deveria morrer. Mas elas não me importavam, fui mais adiante.
Logo eu vi; o meu verdadeiro trono. Feito dos ossos decompostos dos guerreiros mais valentes que passaram pelo submundo. Eu, finalmente, estava em casa.
Sentei-me ali. Logo vi meus servos virem me servir e me lembrar que havia festa mais tarde. Era Lua Nova e o reino todo iria festejar o começo da transição dos meus poderes à Mirian e coroá-la como uma verdadeira princesa.
- Rainha... – disse um pobre zumbi se aproximando.
Era Ryuuzaki. Seu cabelo negro como as mais profundas trevas e seus olhos negros me fascinavam. Embora sua aparência em si seja horrenda e deplorável.
- Diga caro Ryuuzaki. – falei.
- É Lua Nova. – disse ele.
- Eu sei... – disse a ele – Dia de festejo no reino.
- Sim... – ele respondeu de cabisbaixo.
- O que te aflige? – perguntei.
Ele suspirou calmamente e perguntou:
- Será que eu posso ir ao festejo também?
Eu sorri em resposta:
- Claro... Nada lhe impede de ir.
- Mas e minha aparência? – perguntou-me.
- Vá de capa, fale pouco... Se perguntares; és o meu servo. – falei.
Ele abaixou a cabeça novamente. Mas, dessa vez, eu sabia o que se passava em sua mente atormentada. Desci de meu trono e fui a sua direção:
- Infelizmente, todos ligam às aparências, mas elas não importam a mim, pois quem eu vejo é um alguém amaldiçoado, mas de puro e nobre coração. – disse tirando minha capa e vestindo nele.
Seu rosto se esticou em um sorriso torto e eu assenti.
Afastei-me dele e disse:
- É melhor que eu me arrume. – disse.
Ele assentiu e me acompanhou até o portal. Saí de lá e apareci em minha biblioteca, de novo.
Fui aos meus aposentos, banhei-me e vesti-me de acordo com a ocasião. Fui ao meu espelho, não era muito vaidosa mas eu gostava de ver quem eu realmente era ou como me viam.
Vestido e sapatos negros. Era assim que eu estava, era assim que me vestia.
- Parece estar de luto por algo... – disse alguém atrás de mim.
Vi seu reflexo no espelho; era Leonel. Vir-me-ei para vê-lo vestido como um elfo em dia de festa. Ele estava... Eu não tenho palavras para descrever como estava. Seus olhos nos meus... era uma sensação tão quente!
- Não preciso estar de luto para vestir preto. – respondi. – Mesmo assim, sou a rainha das trevas, negra é a minha áurea.
- Estás linda! – disse ele enfim.
Assenti em agradecimento.
- Nada mal a um elfo... – disse a ele e seus doces lábios se esticaram em um largo sorriso. – Esta será sua primeira festa como elfo, comporte-se como tal. – disse e ele assentiu com a cabeça.
- KAAAAAAAAAAAAAAAAAAAANDRAAAAAAAAAAAAAAAAAA! – berrava Mirian batendo os pés adentrando em minha biblioteca.
Novamente, minha feição mudou e minha voz engrossou.
- Mirian! É inadequado entrar em meus aposentos desse jeito! Principalmente com visitas. – disse.
Ela parou e ficou a encarar Leonel. Em sua mente havia milhares de perguntas... E, a maioria, maldosas.
Controlei-me para não parecer hostil novamente e disse a Leonel:
- Vá.
Ele se curvou e saiu. Assim que havia saído, falo a Mirian:
- Diga.
- Quem é ele? – perguntou ela.
- Não vieste aqui para saberdes dos problemas do reino. – disse.
- É. – disse ela se recompondo – E que vestido é esse? – perguntou ela finalmente.
- O vestido para a sua coroação. Ele é até simples para esta ocasião... – respondi.
- EU NÃO QUERO VESTIR ISSO! – berrava ela.
- Ou vestes, ou seu amado Kalleby não aparecerá na festa da SUA coroação. – respondi e ela se calou.
- E, – continuei – comporte-se! Esta é a SUA coroação, logo você estará em meu lugar de rainha deste reino.
Ela saiu murmurando que não pediu para ser rainha enquanto eu suspirava pesadamente.
“Eu também não, minha irmã.” Pensava.
Logo fomos à festa. Ela em si não me importava e eu não liguei para as coisas que aconteciam apenas para o canto dos elfos em minha homenagem. Foi cantado e escrito por Leonel e interpretado por sete elfos do reino.
Era maravilhoso!

Avertam oculos meos ambulans.
Credo matrem tuam mundum regere.
Peto vocem tuam olim accedentibus satis attigit.
Petere non tortor.

Natura meum regat superstes.
Spero eam.
Credo verbo.
Quasi egréssa infrenaverunt ligna in futurum.

Respicio et corpus offerre oblata.
Ita vt omnia mitti ad beatitudinem aeternam.
Multi vivatur, sed quia non moritur.
Gratias usque regit.
Lorem tuae.
In te gloria aeterna.
Et vultis ire ad finem.

Sententias contra Dryadales”

(Eu fecho meus olhos enquanto caminho.
Eu imagino vossa mãe regendo pelo mundo.
Eu tento ouvir sua voz para um dia chegar próximo o bastante para tocá-la.
Para pedir a sua ajuda.

A natureza rege a minha sobrevivência.
E eu confio nela.
Eu confio em suas palavras.
E em como as runas guiaram as árvores para o futuro.

Olho para trás e como oferenda ofereço meu corpo.
Para que tudo possa ser encaminhado para a felicidade eterna.
Pois muitos podem viver, mas apenas por ti não morri.
E todos agradecem a forma como rege tudo.
Obrigado Vossa majestade.
Em ti confiastes na glória eterna.
E a ti queremos seguir até o final.

Os votos dos elfos.)

Fiquei completamente lisonjeada com esta homenagem. Assenti e deixei o próximo grupo seleto de seres me homenagear. Foi assim para todos e, no fim, para os anjos, com os anjos mais lindos no mundo celestial juntamente com os dois filhos do Terceiro chanceler: Kalleby e Dalquiel.
Minhas irmãs eram fascinadas por eles e suas belezas, mas eu não me importava, só prezava pelo reino e seus afins.
Logo após a homenagem, começou a festa. Mirian e Diana fazendo sala para os convidados enquanto planejavam sair e se encontrar com suas respectivas paixões. Eu continuava flutuando no trono à esquerda do salão de festas, felizmente, meu vestido dava a impressão de realmente estar sentada aos meus convidados.
Logo o vi. Orphelius, nosso meio irmão mais novo. Ele não era deus e possuía um ódio por isso.
- Orpheu! Vieste homenagear também vossa irmã Kandra? – perguntou um dos meus chanceleres.
Ele nada respondeu. Vi em sua mente o perigo e seu passado. Ele havia feito pacto com deuses malignos de outros planetas para, enfim, matar o equilíbrio deste.
Ele se aproximava de Mirian a passos largos e expressivos, eu levantei e fui o mais rápido o possível para sua direção também. Assim que ele sacou a adaga, eu empurrei Mirian e pus-me na frente dele.
Sua adaga perfurou meu fígado, meus poderes desapareceram e coração por um instante parou.
O bom de ser trinitária (uma alma dividida em três) é que eu não morro e vejo tudo o que acontece pelos olhos de minhas irmãs. Eu estava envelhecendo e meus poderes sombrios e de morte foram transferidos a Orphelius, por isso, nasciam chifres em sua testa.
Quando ele soltou a adaga, meu semblante oscilava entre a meia idade e a terceira idade, meu corpo lutava para curar essa ferida, minhas irmãs estavam desesperadas e os chanceleres pasmos. Todos ali estavam assustados com o ato de Orpheu enquanto ele desaparecia no ar, embora Leonel estivesse mais preocupado com meu bem estar.
- O coração dela... Não bate! – disse Diana ouvir meu coração.
- Talvez seja por que nunca bateu! – dizia Mirian com sarcasmo.
- Pára Mirian! Ela é nossa irmã! E isto é sério! – respondeu Diana.
Mirian revirou os olhos e usou todos os feitiços que se lembrava para me salvar, mas era em vão. Nem Raymon conseguia invocar meu espírito para aquele corpo novamente, talvez, ninguém conseguiria.
Mas alguém de capa negra se aproximou.
- Talvez eu possa ajudar. – disse.
- E quem és tu? – perguntaram.
- Sou Ryuuzaki. Servo fiel a vossa majestade, Rainha das Trevas. – respondeu.
- Como poderá ajudá-la? – perguntou Diana.
- Não posso fazer muito, tenho pouco a oferecer, aliás. Mas, hoje, eu ofereço meu coração negro. – disse ele tirando a capa e deixando que vissem sua horrenda aparência.
Todos ficaram pasmados, principalmente quando ele enfiou sua mão no peito e arrancou o próprio coração.
- Sou amaldiçoado a viver como zumbi; não preciso disto. Aliás, vossa rainha poderá usufruir melhor que eu. – disse ele entregando seu coração a Diana. – Ela precisa da escuridão para sobreviver, então, dê trevas.
- Obrigada pelo conselho. – disse Diana.
Mirian pegou seu coração e enfeitiçou para substituí-lo pelo fraco. Logo senti meu espírito sendo puxado de volta e tudo virou trevas...
Acordei em meus aposentos. Não me lembrava quando eu havia vestido a capa ou como fui parar lá. Corri ao meu espelho e vi o que havia me tornado: uma anciã. Lutei com meus poderes para voltar com o pouco de dignidade que me restava, consegui, mas por pouco tempo. Logo voltaram as papadas e os pés de galinha. Aquilo era o máximo de jovem que eu poderia ficar e, mesmo assim, não por muito tempo.
Vi o rasgo em meu vestido e logo percebi um feitiço de selamento em runas na altura de onde fui atingida em formato de pentagrama.
“Proteção e selamento... Obra de Raymon.” Pensei enquanto fitava seu reflexo no espelho. “Isso que dá ser regente do elemento terra.”
Logo percebi a mente preocupada de Leonel a vir me visitar. Rapidamente, vesti minha capa para que ele não me visse deste estado.
- Rainha... – disse ele se aproximando.
- Leonel... – disse dando permissão de ele entrar – Que horas são? – perguntei.
- Tarde da noite, vossa majestade. – respondeu-me ele.
- E a festa?
- Acabou assim que vossa alteza ficou semimorta no salão. A senhora está bem? – perguntou ele. Mas nada respondi. A palavra “senhora” começava a me doer profundamente, principalmente ditas pela voz de um anjo.
Ele percebeu o erro, então consertou:
- Kandra, você está bem?
- Sim... – respondi finalmente.
- Então, deixe-me vê-la. – disse ele se aproximou e eu dei um passo para trás.
- Leonel... – chamei-o. – Acho que deveríamos repensar sobre suas visitas em meus aposentos. – disse, dispensando-o – Estou cansada e é tarde... Nos vemos amanhã na floresta.
Ele ficou triste com as minhas palavras, percebi pelo seu olhar. Sua tristeza me atingia e me partia o coração. Ele se foi e eu fiquei ali, voltando ser quem eu era; voltando a ser A Anciã.
Não gostava que me vissem velha, nunca gostei. Apesar de “Anciã” depois servir de rótulo a mim...
Desde então, nunca mais fui vista sem capa negra pelos recantos e florestas. Apenas uma vez que eu a tirei, mas essa, é uma outra história.

Ana Luiza Pereira