Um Diário De Uma Alma - Vingança


Olhei para trás assim que a luz de Uriel começou a perder sua intensidade, pude ver Kaique pálido, quase sem cor e vida. Tentei segurá-lo antes que ele caísse no chão de tontura, mas foi em vão. Eu era fraca, tive certeza disso quando não pude acudir meu amor. Então, disse:
- Estamos agora no portão para o céu. Aqui está o final de sua jornada. Minos não atrapalhará em nada no seu caminho. – eu omiti, confesso. Mas faltava pouco para que completássemos a jornada.
- Olá Kara! – disse Uriel se aproximando.
- É bom te ver Uriel... – disse a Uriel enquanto tentava por Kaique nas minhas costas de novo.
- Quer ajuda? – ofereceu-me Uriel.
- Aceito. – disse e ele me ajudou a carregar o corpo desfalecido de Kaique até os portões do céu, cada qual com um braço em volta do pescoço.
- Temos que andar rápido... – disse Uriel apressando os passos.
- Por quê? – perguntei inocente.
- Porque faltam poucas horas para o término do prazo. – respondeu-me.
- O QUÊ? – gritei entrando em desespero.
- Cadê seu relógio? Você deveria saber... – disse.
- Joguei-o a Cerberus nos portões do inferno. – respondi.
- Como? – perguntou ele sem nada entender.
- Longa história... – disse.
- Não há tempo! Acho melhor nos apressarmos...
- É; eu também acho.
Apertamos os nossos passos. O tempo corria contra nós...
- Ali! – disse Uriel me apontando um precipício. – Ali é o fim do purgatório.
- Não me diga... – disse sarcástica.
“Irei cair... é o fim.” – pensei desgostosa.
Mas, então, eu pude apenas sentir alguma coisa pegar firme na minha canela.
“O que está acontecendo?” – me perguntei – “Eu mal cheguei perto do precipício!”
Num piscar de olhos, eu fui puxada, estava gritando desesperada, minhas unhas já cheias de terra falhavam ao tentar me parar.
- Kara!!!!!!!!!! – gritou Uriel.
- Saia daqui Uriel! Leve Kaique com você até o mais alto dos céus, onde estarão seguros. Vejo vocês lá! – disse, mas não havia esperança alguma em meus olhos e em minha voz, e Uriel deve ter percebido isto.
- Mas, Kara,... – tentava retrucar, mas eu o cortei:
- Vá! Por favor! É a última coisa que lhe peço; salve meu amor assim como salvaste a mim. – disse.
E ele foi. Enquanto eu, ainda estava sendo puxada e levada a algum lugar que eu ainda não sabia qual.
Fechei os olhos. A ideia do pesadelo parecia ótima naquela hora.
Parei. Será que tudo terminou? Abri os olhos. Nada vi além do “céu” nublado do purgatório.
“Ainda estou aqui... Isto não é um mero pesadelo.” – pensei e levantei. “O perigo já deve ter ido embora.” – pensei, mas estava errada.
Assim que levantei meus olhos, eles puderam focalizá-la: Azui estava ali com um chicote na mão e um sorriso sarcástico.
Ela me esbofeteou e disse:
- Pagarás por tudo que fizeras a mim, traidora. – disse.
Pude, então, me ver cercada de demônios, todos com chicotes nas mãos. Uns tinham pregos nas pontas, que rasgavam a pele e torturava a minha alma cada vez mais.
Começaram então a tortura, a minha tortura. Não lutei, afinal, dessa vez eu merecia tal castigo.
- Isto é por não selar o pacto e me fazer ser expulsa do inferno que é o meu lugar. – disse ela me chicoteando com todas as forças. – Levarei sua cabeça para que eu possa me redimir deste erro que foi me deixar ser enganada por uma simples humana.
- Eu roguei aos céus e pedi. Não me atenderam. Roguei ao seu pai e pedi. Se me atenderam sem fazer pacto ou selamento do mesmo, então é porque mereci, e não foi por culpa sua ou de alguém. – disse.
- Cale-se! – disse ela me socando.
A dor era imensa. Mas eu merecia pagá-la... Tal pacto fora o maior e o mais burro erro de minha vida.
Os pregos rasgavam minhas vestes e entranhavam por minha carne. Eu sangrava... como nunca havia sangrado na minha vida. Lágrimas de dor escorriam pelo meu rosto e se misturava com meu sangue o deixando mais salgado. O brilho se apagou e eu pude ver; eu tal como era: cheia de manchas e cicatrizes de erros que paguei. Chorei mais. Havia, finalmente, encontrado meu lugar na eternidade: o purgatório, onde eu pagaria por estes erros que cometi em vida (mesmo que tal pagamento fosse com tortura...).
Azui gargalhava. Ela havia conseguido o que tanto procurou: sua amada amiga vingança.
- Me matas se é o que queres! Ou preferes me torturar como uma covarde? – gritei.
Ela me esbofeteou de novo.
- Se é o que queres... – respondeu-me num riso. Ela ergueu a espada e...
- Pare! – ouvi Uriel enquanto luzes brancas e fortes tomavam o local. Então, pude apenas ouvir o bater de lâminas no ar.
- Fuja Kara! – me dizia Uriel em meio à confusão de anjos e demônios.
Gatinhei em meio à dança da luta deles o mais rápido que pude.
- Peguem-na! Ela está fugindo! – disse Azui desesperada ao ver seu troféu ir.
Demônios começaram a vir atrás de mim, olhava regularmente para trás e apenas via esse número crescer e crescer. Então eu vi uma grande barreira de luz formar atrás de mim enquanto eu me jogava no doce precipício.

Continua...

Ana Luiza Pereira


1 comentários:

kaique Bruno Boga disse...

sua tortura me lembrou o filme Paixão de Cristo... tive vontade de chorar ao lembrar da cena em q um desses chicotes de prego pega no olho do Cristo, pensei isso em vc. espero q isso só fique no papel e nunca se torne verdade

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