Um Diário De Uma Alma - A viagem


Não acreditei.
- O quê? Não tenho nada a lhe oferecer! Não possuo dinheiro, o algo que lhe remete ao luxo, avareza ou ao prazer. Sou uma simples e pura alma... Não sei o que lhe oferecer em troca desta viagem. – disse.
- Poderias me dar esta túnica que te vestes. Ela é reluzente. Certamente espantaria toda e qualquer alma que tentasse subir no barco durante a viagem. – disse-me.
- Tudo bem... – assenti. – Mas, assim, lhe custarão duas viagens; a primeira com o Kaique e a segunda comigo. – disse.
- Como queiras, senhorita. – disse o barqueiro.
Vir-me-ei. Comecei a procurar com os olhos algum lugar que eu pudesse me despir, até que eu encontrei.
Aproximei-me de Kaique e lhe disse:
- Prometes que vai me esperar?
- Sim... – respondeu ele sem nada entender.
Fui atrás de uma grande pedra que ali existia e despir-me.
- Toma! – disse estendendo a mão com a túnica a Kaique que estava do outro lado da pedra – Entregue isto ao barqueiro e vá com ele atravessar rio. Irei depois de ti.
- O que está acontecendo Beatriz? – perguntou-me.
- Apenas vá. Prometas-me que, assim que chegares; espere-me por lá mesmo. – disse.
- Não irei sem ti. – disse.
Segurei-me. Lágrimas começavam a escapulir de minhas órbitas.
- Vá! Não brigue, apenas vá! – ordenei.
Mas de nada adiantou. Ele se aproximava da pedra onde eu estava, pude ouvir seus passos. Eu nada podia fazer, não podia correr... ora, estava nua! Não queria que ele me visse assim. Então, encolhi-me de vergonha.
- O que fazes atrás desta pedra, Beatriz? Nada aconteceu contigo, não é? – perguntou-me preocupado.
Não conseguia encará-lo.
“Meu Deus! Ele me viu nua! Será que eu pagaria isso agonizando também no inferno?” – pensei.
Virei a cara. Se ali existissem espelhos, aposto que eu estaria vermelha.
- Anda! Levante! Temos uma viagem de barco a fazer! – dizia ele tentando me animar.
- Como se estou nua? – perguntei.
- Nua? – repetiu ele num tom como se eu tivesse dito asneira. Ele riu e continuou: – Você não está nua Beatriz.
- Como não? A túnica que me vestia está em suas mãos.
- Pois havia uma túnica por baixo, porque continuas o mesmo ser belo que eu vi pela primeira vez. – disse.
Corei. Eu tinha me esquecido como era tão romântico...
Levantei com uma ajudinha dele e fui até a embarcação. O barqueiro trocou de túnica por ali mesmo, na nossa frente. Não fazia mal, ele não tinha nada a mostrar, era puro esqueleto.
- Vamos? – perguntou-lhe quando já estava vestido com sua nova túnica.
- Sim. – respondemos os dois.
A viagem foi um pouco conturbada. Almas aflitas pela luz de nossas túnicas gritavam 10 vezes mais alto. Elas tentavam de todas as maneiras subir no barco e fugir dos pecados dos assassinos, mas quando viam a luz, não conseguiam seguir. A luz as cegava e, isso as apavorava de tal modo, que não conseguiam ir adiante.
- Anjo do senhor. Por que viestes a este lugar terrível para guiar ao purgatório e ao céu, onde jaz os anjos e santos, uma alma que carrega a mentira e a traição como crucifixo carregado sobre minhas costas? – perguntou Kaique intrigado.
- Eu estou aqui porque a sua morte foi igual a minha. O fato de você ser um traidor fez com que Minos o julgasse e o mandasse para seu congelamento, mas o seu lugar, de fato, seria aqui e se transformar em uma dessas árvores horrendas. Contudo, eu também fui uma suicida, só fui salva pelo motivo da minha morte. . – menti. Não gostava de mentir para ele, mas nesse caso, era preciso.
- Que motivo foi este? – perguntou-me mais intrigado ainda. – Uma alma como a sua não deveria vir a este lugar.
- Isso é a sua opinião; eu me sacrifiquei pelo amor de minha vida, motivo pelo qual fui salva e tenho que guiá-lo para ter o mesmo destino. – omiti-lhe.
Saímos da embarcação e continuamos a pé.
No meio do caminho encontramos muitos e muitos demônios. Demônios que tentavam nos desvirtuar; tentavam nos tirar do nosso caminho.
Vimos Azazel, o demônio dos olhos amarelos, sua crueldade era tamanha. Eu pude ver as almas que ele fizera sofrer e o que fizera a elas, eu pude ver o medo que essas almas tinham quando pronunciava seu nome, eu pude ver a dor de perto.
- Saia da frente Azazel. – disse.
- Quem és tu para me ordenar algo? Ser salva não lhe trás este benefício... Mas estar aqui novamente só mostra que és um sacrifício. – dizia ele.
- Sacrifício, este, que não perderei por pedires licença a ti. – disse.
- Não irás conseguir, cara alma. Quando se está de volta a este inferno é difícil passar dos portões do purgatório. – disse-me.
- Obrigada pelo aviso, mas Minos me espera. – disse continuando meu caminho.
- E eu te esperarei, bem aqui. Você logo saberá o que é sofrer, cara alma, Azazel será o primeiro a lhe mostrar. – disse ele.
Prosseguimos...
- Você o conhecia? – perguntou-me Kaique.
- De vista. Já estive no inferno, antes de ser salva.
- Conheces muitas almas daqui?
- Só as mais famosas. – respondi. – Entenda; muitas almas há séculos estão aqui e, por mais que agonizam de dor, não conseguem encontrar a sua salvação.
Prosseguimos mais um pouco.
- Veja. – apontei-lhe uma alma famosa. – Este é um papa da Idade Média. Sim, ele é um membro da Santa Igreja, mas como a “Santa” Igreja na Idade Média não era tão santa assim. Ele usou a Palavra para pregar a blasfêmia. Está aqui há séculos, agonizas de dor, mas nunca se arrependeu, nem tens mais força para continuar. Certamente, ele não saberá o que é a salvação que está escrito na Palavra que ele lia e não pregava. – disse.
Continuamos...
-Tu morreste em sacrifício ao teu amor; suicidei-me pelo que aconteceu com o meu "amor", ela também se matou... esperava encontrá-la no círculo anterior, mas os gritos de desespero e agonia mexeram com minha mente e, caso ela esteja lá, não a reconheci. – disse-me.
Segurei-me. Mais lágrimas tentavam escapulir de meus olhos.
“Kaique... Se soubesses...” – pensava.
- Seu amor está próximo de você, é só você abrir os olhos que enxergarás ao seu lado. – foi tudo o que eu consegui dizer. – No fim... – tentei, mas a emoção tomava conta de mim – tudo dá certo. – disse conseguindo completar a frase de forma coerente.
Continuei andar... Derrepente, eu não ouvi mais seus passos. Virei. Ele estava caído no chão e seu rosto estava confuso, desnorteado.
- Vamos? – perguntei preocupada.
Ele se levantou. Mas seu semblante continuava o mesmo; confuso e desnorteado. Mas andava... Mais parecia um robô! Seus pensamentos estavam longe... Eu daria tudo para estar neles!
Até que chegamos.
Ele parou bem na entrada. Seu rosto estava preocupado e, sua voz, falha:
- Será que é isso mesmo o que eu quero? Se eu entrar, serei congelado?
- Chegou sua hora! – disse Minos aos berros de dentro da sala.
Ele soltou uma risada maléfica que não surtia efeito mais sobre mim.
- Você ficará ao lado de Judas Iscariotes! – terminou Minos.
Dei uma longa respirada e, junto de Kaique, entrei no Grande Tribunal.


Continua...

Ana Luiza Pereira



2 comentários:

kaique Bruno Boga disse...

sacanagem... cadê o Lúcifer?

Vitor disse...

Ótimo Ana! Agora é tentar sossegar a curiosidade para saber o que vai acontecer :D

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