Um Diário De Uma Alma - Encontros


Fechei os olhos para que meu coração acelerado se acalmasse. Até que eu me lembrei:
- Eu não tenho mais o relógio! Não sei quanto tempo eu tenho... Preciso continuar... – disse me levantando.
Vi o corpo de Kaique estirado no chão de terra.
- Kaique, Kaique! Acorde meu amor! – disse abraçando seu corpo antes que eu voltasse a balançá-lo. – Acorde Kaique!
Vi seu rosto finalmente ganhar cor. Minha vontade era deixar que as lágrimas escapulissem, mas não podia.
- Onde nós estamos? O que aconteceu? – perguntou ele desnorteado.
Como não podia contar-lhe a verdade (não ali, nem agora), menti:
- Em sua queda batestes a cabeça em Brutos. Desmaiastes com o impacto. Trouxe-te ao purgatório, és onde estás agora.
Ele começou a fitar o local. Era uma grande e inacabável montanha redonda de terra batida no tom de areia com poucas plantas verde musgo.
- Vamos? – disse. – Temos muito que subir...
Ele assentiu e começamos a andar.
Nesse local, milhares de almas esperavam e rezavam pela sua salvação. Haviam demônios disfarçados a atiçar o pecado e fazer almas (algumas até boas, porém fracas) irem ao inferno, além de anjos (acho que era querubins) com suas mãos esticadas salvando àqueles que realmente mereciam.
“Esta é uma terra maldosa, qualquer coisa que eu disser ou pensar poderá me fazer cair, ou até pior, poderá fazê-lo cair!” – pensava um pouco desesperada.
Ali, somente ali, eu podia ver os pecados das pessoas. Os dele não foi exceção: matou o prédio onde morava colocando veneno de rato na água; matou uma senhora de tanta dor por torturar sua carne; matou homens com bombas, tiros e facadas... Aquele não era o Kaique... não o que eu “conheci”, mas era o Kaique que, por um instante, consegui mudar.
Muitas dessas almas que ele torturou e matou estava lá, no purgatório. Uma delas, quase sem dedos e os dedos que tinha, não possuía unhas, era cheia de cortes e sua traquéia estava quase para fora.
- Por que me matastes? Tu deverias ficar no inferno, onde é o teu lugar. – disse essa alma.
- Ele merece a salvação, assim como todas as almas que sacrificaram a sua vida por outra, mesmo tendo cometidos pecados gravíssimos. – disse intervindo.
Esta alma se cala. Era Leonardo, uma das almas que ele matou sem piedade.
Mais e mais almas como ele vinham em busca de Kaique; sua sede era de vingança, nem pensavam em perdão ou na salvação de si mesmas. Eram estas almas: Flávia, Kevin, Raphael e Theodoro. Eu o defendi em todas.
- Tu me amavas! Por que fizestes isto comigo? – falava Flávia.
Antes que eu e o Kaique falássemos qualquer coisa, Theodoro disse:
- Nós éramos seus 'amigos'. O que houve com você?
- Flávia... Eu simplesmente passei a te odiar, mas não porque meu 'amor' por você não foi correspondido e sim porque a sua atitude era mais infantil do que qualquer outra mulher de nossa idade. Theo... Você é capacho da Flávia e da Brenda e vocês dois, Rapha e Kevin, são do Theodoro, então... Sem comentários a respeito e, se nós cinco voltássemos à vida, eu mataria de novo. – disse Kaique um pouco frio.
Sua frieza me assustou. Eu não o via assim desde... Desde nunca, para falar a verdade.
As almas deles começaram a cair, seus corações criaram um ódio tão grande que suas almas teriam que refazer todo o caminho.
Andamos...
Vi, então, a mais inescrupulosa dentre os demônios; Azui – filha da 2ª prole de Lúcifer e Lilith. Lembrei por vagos instantes os momentos em minha vida que ela dominara: julho de 2005, maio de 2009, agosto de 2010, início de 2011, fora suas rápidas visitas enquanto ‘revia’ meus conceitos do certo e o errado enquanto viva. Eu sou uma idiota e burra, eu sei, e já me martirizava por isso. Mas deixá-la entrar e quase dominar as rédeas de minha vida foi o maior erro que pude cometer.
Por que Kara? Por que fizeras aquela merda de pacto?
Eu não sabia responder, nem ao menos lembrava o porquê. Com certeza isso foi culpa do meu outro eu, burro e inconsequente, fazia tudo por impulso e deixava as suas merdas, desilusões e tudo mais para EU limpar e enfrentar.
“Demônios são baixos, Kara... Azui apenas se aproveitou da sua doença para fazer-lhe de serva.” – é o que pensei.
Ela sabia de todos os meus pontos fracos e os usa para que eu tivesse em seu poder. Sua recompensa? Minhas lágrimas, minhas tristezas, minhas depressões... Porém, seu maior desejo não se realizara, eu não estava no inferno, onde é seu lugar, e ela não estava lá a me torturar. Eu estava no purgatório guiando meu amor até o céu.
- Pode esperar sentada, se quiseres me ver no inferno... – sussurrei a ela enquanto nós, eu e Kaique, passávamos por ela.
Ela riu. Gargalhava mais e mais alto da palhaça que tiveras “a coragem” de servir a seu pai enquanto pequena.
“Não entendo como não possuo manchas... Por mais que eu fosse uma batalhando comigo mesma para ser sempre eu mesma, sem que meu outro eu me vença na força de vontade, por muitas e muitas vezes, meu outro eu vencera, e usufruía de meu corpo da maneira errada, me fazendo errar e pecar e me dando um grande peso na consciência.” – pensava.
 Continuei a andar...
- Diga-me como foi esse 'amor' pela aquela jovem? – disse tentando esquecer a existência de Azui.
Vi pela minha visão periférica o olhar de espanto de Kaique, minha pergunta com certeza o pegara desprevenido.
- Vou te contar, mas isso é algo que nunca falei para alguém. – disse Kaique. – Eu sentia uma forte atração por ela, fiquei quase um ano e meio com esse sentimento. Mas tal sentimento foi mudando quando eu conheci uma garota alguns dias antes do meu aniversário de 16 anos. Hoje, mesmo tendo se passado algum tempo, eu ainda não a conheci devidamente. Isso ficou só na minha mente, mas era tão real que eu me tornei fiel a esse sentimento de tal forma que fui capaz de fazer o que fiz. – confessou-me.
Suas últimas palavras me machucaram, se eu pudesse me entregar à minha vontade nesse momento...
Quando íamos aproximando do céu, uma luz forte nos cegou.
- Uriel!!! – sussurrei.



Continua...

Ana Luiza Pereira


1 comentários:

kaique Bruno Boga disse...

Uriel me segou. FDP! brinks naum tenho coragem de xingar os anjos.

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