Um Diário De Uma Alma - Cão Infernal


Quando o vi, não acreditei. Minos estava sem sua máscara, havia apenas ele e seus guardas no recinto. Minos estava no lugar de Lúcifer no Tribunal. Quem não o conhecesse como o Kaique, com certeza, diria que aquele era o capeta em pessoa.
Mas como eu conhecia os dois, Minos e Hades, sabia quem era quem e de suas diferenças.
Kaique nada disse o julgamento inteiro. E, por mais que Minos contestasse, meus argumentos eram fortes.
Acabou que...
- Vocês não sairão deste inferno tão facilmente! – disse Minos e riu.
Neste mesmo instante, Kaique desmaiou.
- Kaique! – disse indo acudi-lho.
- Vá! Saia daqui com ele se você for capaz... – disse Minos.
Encarei-o com raiva.
- Acorde amor! Por favor! Não me deixe só neste inferno... Guia-me com teus olhos! – dizia desesperada vendo ele no chão.
Minos ria. Como se estivesse vendo o circo pegar fogo e a palhaça, que sou eu, não conseguisse sair desta armadilha.
Com dificuldade, pus Kaique nas minhas costas e comecei a andar para fora daquele inferno de chamas.
Os demônios me atiçavam mais, diziam que se eu quisesse salvar alguém que fosse a mim mesma e deixasse Kaique com eles, para que sua carne apodreça e seu coração se encha mais de ódio, como sempre foi e será.
“Não. Eu não vou desistir de meu amor...” – dizia a mim mesma de cabisbaixo enquanto as pedras pontiagudas feriam meus pés descalços e os demônios rasgavam nossas vestes.
Quando, finalmente, cheguei ao portão do inferno, Lúcifer estava lá a me esperar.
- Olá Kara! Quanto tempo eu não te vejo! – disse.
Olhei para a criatura que estava à suas costas. Era enorme, monstruosa... era um ser infernal. Espantei-me com a feracidade de seus olhos amarelos em meio ao negro da escuridão do vazio.
- Apresento-lhe minha mascote, o cão que guarda estes portões. – disse Lúcifer com cinismo.
Finalmente eu pude entender... Minos e Lúcifer haviam preparado uma armadilha. Por isso ele deixou que eu fosse com facilidade. Minos e Lúcifer queriam que ficássemos no inferno, mesmo se fosse como ‘almas mortas’.
Pude, então, ver aquela monstruosa criatura claramente. Era um cão, porém tinha três cabeças enormes, seus olhos brilhavam de ódio e veracidade.
Minhas pernas estavam bambas, o corpo de Kaique começou a pesar diante de meu pavor para com aquela criatura.
“Será que irei conseguir salvar-te?” – pensava ao fitar o ódio do cão infernal.
Lúcifer ria diante do meu medo.
- Largue-o e você viverá! Caso contrário, meu bebê terá o prazer de destroçar suas almas... – disse Lúcifer.
Morrer ou morrer... Qual opção que eu devia escolher?
- Nunca! Prefiro ter uma morte digna do lado de quem amo do que fugir e me remoer de depressão depois. – disse.
Ele riu baixinho.
- Tudo bem... Sejas bem-vinda ao verdadeiro inferno! – disse Lúcifer desaparecendo diante de meus olhos.
Lúcifer desapareceu. E as correias que seguravam aquele cão infernal também...
Corri.
O cão tentava ao máximo abocanhar eu e Kaique. Por muitas vezes tropecei, mas quanto mais tropeçava mais desespero surgia em meu ser.
Escondi-me atrás de enormes pedras que haviam por ali por perto e comecei a rezar.
- Se ao menos você estivesse acordado, meu amor... – dizia fitando seu rosto inanimado. – Com certeza, você me protegeria com facilidade. Mas e eu? Eu quero, e estou tentando ao máximo te proteger, mas... é difícil! – disse já chorando.
O cão infernal atacou e por pouco não arranca a cabeça de Kaique. Eu e ele caímos por terra, seu rosto inanimado perto do meu coração acelerado pela adrenalina de estar perto da morte (de novo).
Eu olhava seu rosto pálido. Queria poder ver novamente seus olhos quase mel...
- Se eu ao menos tivesse seu instinto assassino... – me lamentava.
Olhei o relógio que Maria havia me dado. Três dias e meio, era esse o tempo que eu tinha.
O cão infernal continuava a atacar as pedras, até que me lembrei: cães possuem ótimo olfato e audição. Tirei o relógio do meu pulso. Ele já devia estar com uma boa dose do meu perfume, e joguei para bem longe, o máximo que consegui.
Ele escutou o barulho e foi ver o que era.
Aproveitei a brecha e levantei. Comecei a arrastar Kaique dali...
Já estava no meio do vácuo; não havia nada, apenas escuridão entre o portão do inferno e o do purgatório, quando o cão infernal deu falta de meu corpo.
Suas cabeças começaram a me procurar... O desespero bateu. Comecei a correr, tentando puxar Kaique.
“Por favor, Senhor! Ajude-me, falta pouco...” – suplicava em pensamentos.
Meus passos... Foram eles que entregaram a minha localização para a besta de 3 cabeças.
O cão se aproximava ferozmente. O desespero voltava com mais força. O que fazer? Não sabia ao certo... Apenas corria, arrastando e arranhando o corpo de meu amor naquele chão.
“Eu não vou conseguir...” – é o que eu pensei com lágrimas nos olhos.
Fechei os olhos e continuei a correr.
- Eu não vou... – disse em meio aos gritos agonizantes que desciam do purgatório ao inferno.
O rosnar, a respiração quente, a baba, o latino alto... Já podia sentir; eu sendo destroçada, minha pele sendo rasgada por aqueles caninos afiados, eu podia sentir o meu sangue descendo pelas três gargantas do cão.
“Ao menos morrerei ao lado dele.” – pensei.
Abri os olhos. Faltava tão pouco! Três passos. Uma abocanhada do cão quase me fez virar comida dele... Tropecei.
Vi almas dos dois lados sendo sugadas por não sei o que. Almas que gritavam por perdão e socorro. Almas que seguravam com todas as suas forças as grades enferrujadas do portão do purgatório. Almas que não queriam cair, mas seus pensamentos pecaminosos as obrigavam.
Levantei e puxei Kaique... já estávamos no purgatório. O portão se fechou diante de mim. As almas gritantes estavam do lado de fora, estavam do lado do cão.
As almas do portão, infelizmente, foram destroçadas em meu lugar. Tive pena delas... Não era seu destino, era o meu. Chorei por elas...
O cão continuava a latir e a rosnar. Ele queria a mim. Mas o portão me protegia.
- Graças aos céus! Eu consegui. – disse agradecendo e caindo por terra.

Continua...

Ana Luiza Pereira



1 comentários:

kaique Bruno Boga disse...

*-* descobri oq aconteceu comigo quando eu desmaiei.... d+

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